Mulheres brasileiras vivem mais ansiedade, menos lazer e menor satisfação com a rotina, aponta pesquisa

Estudo nacional sobre felicidade revela diferenças importantes entre homens e mulheres na percepção de bem-estar; especialista relaciona o cenário à carga mental, à dupla jornada e à falta de tempo para si

A felicidade também parece refletir as desigualdades do cotidiano. Embora homens e mulheres apresentem níveis semelhantes de felicidade quando questionados de forma geral, elas convivem com mais ansiedade, preocupação e medo, além de relatarem menos satisfação com a rotina, menor participação em atividades sociais e uma percepção mais baixa de realização profissional.

Os dados fazem parte do Mapa da Felicidade Real do Brasil 2026, primeira pesquisa nacional baseada na Ciência da Felicidade, realizada por Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia, que ouviu 1.500 brasileiros de todas as regiões do país.

Enquanto 44,9% dos homens afirmam estar satisfeitos com a rotina, entre as mulheres esse índice cai para 35,6%. A ansiedade e a preocupação aparecem com mais frequência entre elas (35,9%, contra 28,9% dos homens), assim como o medo (12,6%, frente a 7,4%).

A pesquisa também mostra que os homens conseguem preservar mais espaço para a vida fora do trabalho. Um terço deles (33,1%) afirma participar frequentemente de atividades sociais, enquanto entre as mulheres esse percentual é de 25,6%. A prática regular de atividade física também é mais comum entre eles (19%, contra 13,6%).

No ambiente profissional, a diferença também aparece. Para 12% das mulheres, o trabalho é hoje o principal fator de infelicidade, percentual superior ao observado entre os homens (7,7%). Já a realização profissional é citada como a maior fonte de alegria por 18% dos homens, quase o dobro do registrado entre as mulheres (9,7%).

Segundo Renata Rivetti, pesquisadora da Ciência da Felicidade e idealizadora do estudo, os resultados mostram que a discussão sobre bem-estar feminino vai muito além da saúde mental. “As mulheres não são menos felizes por natureza. O que os dados revelam é que elas vivem uma realidade diferente. Elas têm menos tempo para lazer, praticam menos atividade física, convivem com níveis maiores de ansiedade e preocupação e encontram menos satisfação no cotidiano. Quando olhamos tudo isso junto, aparece um retrato consistente da sobrecarga invisível que ainda marca a vida feminina.”

Para a especialista, grande parte dessa diferença está relacionada à chamada carga mental, ou seja, o trabalho invisível de organizar a rotina da casa, administrar compromissos, antecipar problemas e cuidar do bem-estar da família, responsabilidades que continuam recaindo majoritariamente sobre as mulheres mesmo quando elas exercem atividade profissional.

“Não estamos falando apenas das tarefas domésticas, mas da responsabilidade permanente de fazer a vida funcionar. É esse planejamento constante, que raramente aparece nas estatísticas de trabalho, que reduz o tempo disponível para descanso, lazer, relações sociais e autocuidado.”

Curiosamente, a pesquisa também mostra que as mulheres são significativamente mais engajadas em comportamentos pró-sociais. 12,8% afirmam realizar ações solidárias ou doações com frequência, índice três vezes superior ao observado entre os homens (4,3%).

Outro dado chama atenção quando o recorte considera a idade. As mulheres acima dos 60 anos apresentam níveis de satisfação com a vida superiores à média nacional, além de relatarem maior satisfação com a vida profissional e menor impacto negativo do trabalho no bem-estar, sugerindo que parte da pressão vivida pelas mulheres está concentrada justamente nos anos de maior acúmulo de responsabilidades familiares e profissionais.

Para Renata Rivetti, esse resultado reforça que a felicidade feminina acompanha os diferentes ciclos da vida. “Quando a carga de cuidado diminui e cresce a autonomia sobre o próprio tempo, os indicadores de bem-estar também melhoram. Isso mostra que a desigualdade observada entre homens e mulheres não é inevitável; ela reflete as condições em que cada grupo vive.”

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Por Renata Rivetti

Pesquisadora da Ciência da Felicidade, fundadora da Reconnect Happiness at Work, única representante no Brasil do movimento 4 Day Week Global, autora do Mapa da Felicidade Real do Brasil 2026, colunista da Fast Company Brasil e palestrante

Artigo de opinião

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