Jornada de trabalho não é o centro da questão: o desafio real é o planejamento estratégico

Mais do que discutir escalas, empresas precisam rever cultura, metas e formas de medir desempenho para conciliar produtividade, bem-estar e resultados sustentáveis.

A discussão sobre modelos de jornada de trabalho ganhou força nos últimos anos e se tornou um tema relevante para empresas, profissionais e gestores. Atualmente, o debate se concentra na comparação entre as escalas 6×1 e 5×2. Mas limitar a conversa ao número de dias trabalhados pode fazer com que organizações deixem de enxergar uma questão muito mais importante: como construir ambientes de trabalho capazes de gerar resultados sustentáveis sem comprometer a saúde e o engajamento das pessoas.

A busca por maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal não é uma demanda isolada de uma geração específica. Ela reflete uma transformação profunda na relação das pessoas com o trabalho. Após a pandemia, temas como bem-estar, saúde mental, flexibilidade e propósito passaram a ocupar espaço definitivo na agenda corporativa.

Os números ajudam a explicar esse movimento. Segundo o relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, apenas 20% dos trabalhadores no mundo se declaram efetivamente engajados em suas atividades, o menor índice desde 2020. O estudo também estima que a baixa conexão dos profissionais com o trabalho represente perdas globais de produtividade da ordem de US$ 10 trilhões por ano. Ao mesmo tempo, a própria Gallup identificou que profissionais que não conseguem manter um equilíbrio saudável entre trabalho e vida pessoal apresentam probabilidade significativamente maior de desenvolver sintomas de esgotamento, estresse e desmotivação.

Assim, a discussão sobre a jornada 5×2 deixa de ser apenas uma reivindicação trabalhista e passa a representar uma reflexão sobre produtividade empresarial. Empresas que ainda associam produtividade exclusivamente ao tempo de permanência no trabalho tendem a enxergar qualquer redução de jornada como uma ameaça. Já organizações que operam com foco em metas, que têm estratégia corporativa, com indicadores e entregas costumam compreender que desempenho e presença não são necessariamente sinônimos.

Experiências realizadas em diversos países apontam nessa direção. Testes com jornadas reduzidas demonstraram ganhos em indicadores como satisfação, engajamento, saúde mental e, em muitos casos, manutenção ou aumento da produtividade. Os resultados geralmente não surgem porque as pessoas trabalham menos, mas porque as empresas passam a trabalhar melhor. Processos são simplificados, reuniões desnecessárias são eliminadas, prioridades são redefinidas e a tecnologia passa a ser utilizada de forma mais estratégica.

No Brasil, iniciativas-piloto também mostraram efeitos positivos. Empresas participantes relataram avanços em produtividade, engajamento e bem-estar, além de maior satisfação entre colaboradores e lideranças. Isso não significa que a mudança seja simples ou aplicável da mesma forma para todos os setores. Segmentos que dependem de operação contínua, atendimento presencial ou escalas ininterruptas enfrentam desafios específicos. Em muitos casos, será necessário investir em automação, rever processos, redesenhar equipes e desenvolver novas formas de acompanhamento de desempenho.

A questão central, portanto, não está em determinar qual escala deve prevalecer. O verdadeiro desafio é construir estratégia corporativa, é ter modelos organizacionais capazes de conciliar competitividade, eficiência operacional e qualidade de vida. Essa transformação exige uma mudança cultural importante. Durante décadas, muitas empresas aprenderam a valorizar a disponibilidade constante e a presença física como indicadores de comprometimento. No entanto, em um ambiente marcado pela digitalização, pela inteligência artificial e pela crescente complexidade dos negócios, a capacidade de gerar resultados tornou-se muito mais relevante do que a quantidade de horas registradas no relógio.

As organizações mais preparadas para o futuro serão aquelas capazes de substituir a cultura do controle pela cultura da responsabilidade. Empresas que definem objetivos claros, alinham expectativas, acompanham indicadores relevantes e avaliam desempenho pelas entregas criam condições para maior flexibilidade sem abrir mão dos resultados.

No fim, a discussão sobre a jornada 5×2 não trata apenas de descanso ou produtividade. Ela revela uma mudança mais ampla na forma de liderar pessoas, organizar equipes e medir desempenho. E talvez essa seja a principal oportunidade para as empresas: perceber que o futuro do trabalho não será construído por quem conseguir fazer as pessoas trabalharem mais horas, mas por quem conseguir ajudá-las a produzir mais valor.

Pedro Signorelli é um dos maiores especialistas do Brasil em gestão, com ênfase em OKRs. Já movimentou com seus projetos mais de R$ 2 bi e é responsável, dentre outros, pelo case da Nextel, maior e mais rápida implementação da ferramenta nas Américas.

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Por Pedro Signorelli

um dos maiores especialistas do Brasil em gestão, com ênfase em OKRs; responsável pelo case da Nextel, maior e mais rápida implementação da ferramenta nas Américas

Artigo de opinião

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