Vidas que não são descartáveis: animais resgatados ajudam jovens a reconstruir vínculos e confiança

Na Natureza Conecta, histórias de abandono e recomeço de animais e jovens se encontram em atividades que promovem cuidado, pertencimento e reconstrução emocional.

Histórias que começam com abandono, violência ou negligência, mas que encontram cuidado, vínculo e transformação. Na Natureza Conecta, animais resgatados de abandono, exploração ou maus-tratos hoje ocupam um novo papel: atuam como co-terapeutas em atividades conduzidas por equipe técnica, ajudando crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social a reconstruírem relações de confiança, cuidado e pertencimento.

Em 13 de julho, quando se comemora o Dia do ECA — Estatuto da Criança e do Adolescente a organização lançará o manifesto “Vidas que não são descartáveis”, uma iniciativa que nasce de uma pergunta simples, mas urgente: por que algumas vidas ainda são tratadas como substituíveis?

Para Daniela Gurgel, fundadora da Natureza Conecta, o abandono não é apenas um ato isolado. Quando se torna prática social, ele ultrapassa espécies e revela uma lógica comum: a ideia de que vidas marcadas pela dor, pela fragilidade e pela diferença podem ser descartadas. “É contra essa lógica que a organização se posiciona”, afirma.

O manifesto chama atenção para vidas que chegam ao mundo já marcadas por rótulos: o animal sem valor, a criança em risco, o adolescente problema. São carimbos sociais que reduzem histórias complexas a uma leitura única e que ajudam a naturalizar exclusão e negligência.

Na fazenda da Natureza Conecta, em Itu (SP), mais de 30 animais resgatados convivem semanalmente com crianças acolhidas institucionalmente e adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa na Fundação CASA. Muitos desses animais carregam histórias que dialogam com experiências vividas pelos próprios jovens: rejeição, perda de vínculos, desconfiança, negligência e necessidade de recomeço.

Um deles é Sheik, cavalo puro-sangue inglês que passou anos competindo no turfe. Após sofrer um grave acidente durante uma prova, teve sua eutanásia solicitada pelo tutor diante dos custos do tratamento. “O veterinário responsável se recusou a interromper a vida de um cavalo que tinha plenas condições de se recuperar”, relembra Daniela Gurgel, fundadora da Natureza Conecta. Após ser acolhido pela organização, Sheik passou por recuperação e hoje participa das atividades de terapia assistida por animais. “Ele havia sido valorizado pelo desempenho e descartado quando precisou de cuidado. Hoje, sua história ajuda jovens a compreenderem confiança, tempo, vínculo e reconstrução”, afirma Daniela.

Também vive na fazenda Zeus, boi resgatado com apenas sete dias de vida depois de ser descartado por uma fazenda leiteira por ser macho, condição que, em sistemas de produção leiteira, frequentemente reduz seu valor econômico. Debilitado e com poucas chances de sobrevivência, recebeu acompanhamento veterinário e hoje participa das atividades educativas e terapêuticas.

Para Daniela, o encontro entre esses animais e os jovens não acontece por acaso. “Existe uma identificação imediata. Muitos chegam carregando marcas emocionais profundas e encontram nos animais uma história que compreendem sem precisar explicar. Eles percebem que é possível seguir existindo depois da dor, construir novos vínculos e descobrir valor onde antes havia rejeição”, conta.

As atividades da Natureza Conecta são estruturadas por uma equipe técnica e envolvem manejo, observação, cuidado, convivência e mediação terapêutica, sempre respeitando o bem-estar dos animais e a proteção dos atendidos. A proposta combina saúde mental, educação, vínculo humano-animal e cuidado animal em experiências que estimulam responsabilidade, empatia, regulação emocional, confiança e pertencimento.

Atualmente, a organização realiza encontros na fazenda e ações desenvolvidas em unidades da Fundação CASA na região de Sorocaba, com capacidade de alcançar mais de 660 crianças e adolescentes ao ano. As sessões envolvem profissionais das áreas de psicologia, educação, medicina veterinária e cuidado animal.

Mais do que terapia assistida, a proposta da organização é construir uma experiência de reconhecimento mútuo. “O manifesto ‘Vidas que não são descartáveis’ nasce dessas histórias reais para defender uma ideia central: nenhuma vida deveria perder valor diante da vulnerabilidade. Nem a dos animais. Nem a de crianças e adolescentes que ainda buscam oportunidades de recomeço”, afirma a médica-veterinária e fundadora da Natureza Conecta.

O lançamento também propõe uma reflexão pública sobre direitos humanos, proteção integral, bem-estar animal e justiça social. Para a organização, cuidado não é favor, saúde mental não pode ser luxo, bem-estar animal não é detalhe e vulnerabilidade não pode ser sentença.

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Por Daniela Gurgel

médica-veterinária, fundadora da Natureza Conecta

Artigo de opinião

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