O Brasil está envelhecendo — e o desafio é fazer disso uma conquista coletiva

Mais do que viver mais, a sociedade precisa aprender a cuidar melhor, incluir com dignidade e repensar o papel das cidades, das famílias e das instituições

O Brasil está velho e isso não deveria ser ruim

Por Felipe Vecchi

O Brasil envelheceu e isso é um fato. A questão é que ainda nos comportamos como se não estivesse. Embora a longevidade seja celebrada como uma conquista da Medicina e das condições de vida, muitos setores da sociedade ainda demonstram dificuldade em conviver com o envelhecimento de forma natural, inclusiva e respeitosa.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o País já possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população.

Nas últimas semanas, uma rua residencial de São Paulo foi foco de discussão envolvendo instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) e moradores. De um lado, argumentos sobre zoneamento urbano e o possível mal-estar que essas instituições, e seus residentes, causavam aos vizinhos. De outro, preocupações relacionadas ao cuidado, à dignidade e ao lugar que reservamos às pessoas idosas em nossa sociedade.

Independentemente dos aspectos jurídicos que cercam o caso, o episódio nos convida a uma reflexão mais profunda: o Brasil está preparado para encarar o envelhecimento da população?

Viver mais e melhor é uma grande vitória. O problema é que nem sempre estamos preparados para as consequências dessa conquista. Quem cuidará dos idosos mais dependentes? Como apoiar famílias que enfrentam o desafio do cuidado? Que tipo de cidade queremos construir para uma população que envelhece? Qual será o papel das instituições, dos profissionais de Saúde, da comunidade e do poder público nesse cenário? Essas são perguntas que precisam ocupar espaço no debate público.

Não por acaso, o Estatuto da Pessoa Idosa reconhece que envelhecer com dignidade depende da participação de toda a sociedade. A lei atribui a todos a responsabilidade compartilhada de garantir não apenas saúde e proteção, mas também convivência familiar e comunitária (Art. 3º). O Estatuto ainda veda qualquer forma de discriminação, negligência ou violência contra a pessoa idosa (Art. 4º) e determina que todos têm o dever de protegê-la de situações humilhantes, constrangedoras ou desumanas (Art. 10, §3º).

Em outras palavras, a legislação brasileira reconhece que o cuidado não se resume à assistência, pelo contrário, ele envolve pertencimento, respeito e o direito de o idoso continuar ocupando seu lugar na vida em comunidade.

Quando refletimos sobre o espaço das pessoas idosas em nossas cidades não estamos discutindo apenas infraestrutura ou serviços, mas a convivência e o valor que atribuímos à experiência humana em todas as fases da vida.

Independentemente dos desdobramentos jurídicos, o caso do bairro paulistano revelou percepções e discursos que merecem reflexão à luz dos princípios estabelecidos pelo Estatuto da Pessoa Idosa.

A violência contra a pessoa idosa não se manifesta apenas por agressões físicas. Ela também está presente quando há humilhação, desrespeito, discriminação ou atitudes que reduzem a dignidade e a autonomia de quem envelhece. Muitas vezes, manifesta-se de forma silenciosa, por meio da exclusão social, da invisibilidade e da ideia equivocada de que a velhice representa incômodo para a sociedade.

No Dia Mundial de Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho, vale ampliar nossa compreensão sobre o tema. Afinal, nem toda violência deixa marcas visíveis. Às vezes, ela se manifesta em atitudes que reforçam a ideia de que a velhice é problema, incômodo ou algo que deveria permanecer distante dos nossos olhos. Outras vezes, surge na dificuldade de enxergar a pessoa por trás da fragilidade, reduzindo sua existência a um estereótipo ou a uma condição de saúde.

Talvez o maior desafio da nossa sociedade seja justamente construir uma cultura do cuidado. Historicamente, o cuidado dos idosos foi atribuído às famílias, porém, elas mudaram. Vivemos mais, temos menos filhos, as mulheres estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho e os arranjos familiares se tornaram mais diversos. Ao mesmo tempo, cresce o número de idosos que vivem com doenças crônicas, limitações funcionais ou algum grau de dependência.

Nesse contexto, o cuidado deixa de ser responsabilidade individual e passa pela responsabilidade coletiva. É aqui que entra o conceito de ecossistema do cuidado. Cuidar de uma pessoa idosa envolve familiares, cuidadores profissionais, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais, hospitais, serviços de atenção básica e instituições especializadas. Nenhum desses atores consegue responder sozinho aos desafios da longevidade.

Em uma sociedade que envelhece rapidamente e na qual as famílias estão menores e mais sobrecarregadas, a demanda por cuidados de longa duração tende a crescer nas próximas décadas.

As ILPIs fazem parte desse ecossistema. Durante muito tempo, esses espaços foram associados exclusivamente ao abandono familiar. Hoje, essa visão não corresponde à realidade de milhares de famílias brasileiras. Em muitos casos, são as ILPIs que oferecem assistência especializada, segurança, estímulo à convivência, acompanhamento multiprofissional e suporte contínuo para idosos que necessitam de cuidados mais complexos.

Isso não significa substituir a família, mas ampliar sua capacidade de cuidar. Não significa assumir a responsabilidade que é do Estado, mas ser parte do sistema que cuida e inclui a pessoa idosa.

Países que avançaram na construção de políticas para o envelhecimento compreenderam que a convivência entre gerações fortalece a sociedade. Em diversas cidades da Europa, programas aproximam idosos e estudantes universitários, promovem moradias compartilhadas e incentivam espaços de encontro entre crianças, adultos e idosos. A lógica é simples: quanto mais integradas as gerações estiverem, maior será a compreensão mútua e menor será o preconceito.

O Brasil ainda está construindo esse caminho. O envelhecimento populacional não deve ser visto como ameaça, mas como oportunidade para repensarmos nossas cidades, nossas políticas públicas e nossas relações humanas. Afinal, falar sobre velhice é falar sobre o futuro de todos nós.

A discussão que hoje acontece em uma rua de São Paulo não é apenas sobre uma instituição, um bairro ou uma licença de funcionamento. Ela simboliza um debate muito maior sobre a sociedade que estamos construindo.

Mais de duas décadas após a criação do Estatuto da Pessoa Idosa, o desafio brasileiro já não é apenas garantir direitos no papel. É transformá-los em cultura efetiva de cuidado, inclusão e convivência.

Uma sociedade preparada para envelhecer não é aquela que apenas aumenta a expectativa de vida, mas a que reconhece o valor da experiência, acolhe a fragilidade quando ela surge e garante que ninguém seja excluído por causa da idade.

A forma como tratamos nossos idosos hoje revela, em grande medida, a sociedade que desejamos construir para nós mesmos amanhã.

Felipe Vecchi é médico geriatra e diretor médico e operacional da BSL Saúde. Graduado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), possui residência em Clínica Médica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP) e especialização em Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua na coordenação de modelos integrados de cuidado, reabilitação e assistência de longa permanência para pessoas idosas, com foco em autonomia, qualidade de vida e apoio às famílias cuidadoras.

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Por Felipe Vecchi

médico geriatra, diretor médico e operacional da BSL Saúde, graduado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), residência em Clínica Médica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP), especialização em Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Artigo de opinião

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