Vai Brasil! Mas, por enquanto, só nos esportes

Uma pesquisa da Go Magenta mostra que o orgulho nacional impulsiona o consumo de esportes e realities brasileiros, mas ainda encontra resistência em séries e filmes.

Vai Brasil! Mas só nos esportes. Estrangeiro na ficção. Estudo da Go Magenta revela que o orgulho nacional impulsiona o consumo de esportes e realities brasileiros, enquanto séries e filmes ainda dependem da chancela internacional.

Gabi Terra, pesquisadora e fundadora da Go Magenta

O Brasil é um celeiro de talentos em diversos esportes, no automobilismo, no tênis (na quadra ou na mesa), na natação, no basquete e até no beisebol. Mas o esporte que traz a paixão nacional à tona é o futebol.

Os dados fazem parte de um estudo contínuo da consultoria de pesquisas e insights Go Magenta para monitorar hábitos de consumo no streaming. A pesquisa analisou as preferências em diferentes gêneros audiovisuais, incluindo esportes, com uma pergunta direta: você prefere o conteúdo nacional ou o que vem de fora? A resposta foi clara: 64% dos brasileiros preferem conteúdos esportivos nacionais, contra 36% de produções internacionais.

A vontade é compreensível, considerando a Copa do Mundo se aproximando, conteúdos que amplificam o senso de brasilidade reforçam uma identidade coletiva única.

Além dos esportes, outros gêneros também mostram força local: Reality Shows, com 55% de preferência por produções nacionais, e Documentários, com 45%. Lifestyle também aparece como um gênero em que o brasileiro demonstra abertura para o conteúdo de casa. São formatos que, não por acaso, têm algo em comum: espelham o cotidiano, os costumes e a identidade do próprio público.

Fica claro que o brasileiro dispensa legendas ou narrativas importadas quando encontra na produção local um espelho fiel e honesto de quem ele é. Mas esse orgulho tem limites bem definidos.

Comédia, True Crime, Romance e Drama são gêneros em que o público brasileiro ainda volta os olhos para fora. Ficção científica, horror e suspense dividem entre si apenas 12% de preferência por produções locais, o que significa que 88% dos brasileiros preferem obras estrangeiras nesses gêneros.

A lógica que emerge dos dados parece ser a de uma validação externa: se uma produção nacional virou assunto no exterior, então ela merece atenção em casa também. “Se gostaram na gringa, então deve ser bom”, a frase resume bem o que os números revelam.

O Brasilcore chegou nas roupas, nas músicas, na estética das redes sociais, mas ainda não atravessou completamente a tela.

O Brasil não está sozinho nesse dilema. Argentina, Chile, Colômbia e México repetem o padrão: esportes e realities lideram a preferência por conteúdo local, enquanto gêneros como drama, horror e aventura continuam perdendo para produções internacionais, com números bastante semelhantes aos brasileiros. A identidade latino-americana parece reservar seu orgulho nacional para o campo de futebol e para os dramas de confinamento da TV aberta.

O contraste fica ainda mais evidente quando olhamos para países como Austrália e Canadá. Sem o peso cultural de uma Hollywood, e sem o histórico de exportação audiovisual massiva que o Brasil tenta construir, esses dois países apresentam algo raro: uma preferência por produções locais que vai muito além dos esportes. No Canadá, especialmente, o consumo de conteúdo nacional quase empata com o estrangeiro em praticamente todos os gêneros. Não é um delírio nacionalista, é uma relação amadurecida com a própria cultura.

Isso não significa que o público brasileiro seja impermeável ao que é seu. Emergência Radioativa, série da Netflix sobre o acidente radiológico de Goiânia, viralizou justamente porque muitos brasileiros desconheciam o próprio evento. A Go Magenta identificou, em listening de redes sociais, que a produção despertou uma atenção genuína, mas ainda dependeu de uma plataforma global para ganhar credibilidade.

O BBB segue como fenômeno de reality; The Boys e Bridgerton dominam o fandom. O entretenimento virou ferramenta de pertencimento, mas esse pertencimento ainda costuma vir de fora.

A onda Brasilcore não abraçou de vez as telas. O brasileiro vibra com a seleção, consome reality nacional e levanta a bandeira, mas na hora de escolher uma série de ficção científica, um thriller ou um filme de horror, a preferência ainda é pelo sotaque estrangeiro.

Fenômenos como Emergência Radioativa são exceções que encantam, não regras que sustentam uma indústria. Enquanto Canadá e Austrália constroem audiências locais nos mais variados gêneros, o Brasil ainda aguarda que a gringa valide o que é seu.

Vai Brasil! Mas, por enquanto, só nos esportes.

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Por Gabi Terra

pesquisadora e fundadora da Go Magenta

Artigo de opinião

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