Romance imagina cidade liderada por mulheres a partir da superação coletiva de traumas
Contemplado pelo ProAC/SP, “Palco dos que Sofrem”, de Letícia Ávila, acompanha duas gerações de mulheres e propõe uma sociedade estruturada no cuidado, na verdade e no apoio mútuo
O que aconteceria se mulheres marcadas pela violência, pelo silenciamento e pelo autoritarismo masculino pudessem reconstruir não apenas as próprias histórias, mas toda uma sociedade?
Essa é uma das questões que atravessam “Palco dos que Sofrem”, romance de estreia da escritora e jornalista Letícia Ávila. Contemplada pelo ProAC/SP, a obra acompanha duas gerações de mulheres e transforma a superação de traumas em ponto de partida para imaginar novas formas de convivência, poder e organização social.
A protagonista, Maria Beatrice, inicia uma jornada em busca da verdade após encontrar escritos íntimos deixados por sua mãe, Nianca, muitos anos depois de sua morte. As descobertas levam a jovem até Conceição, cidade natal da família, onde ela passa a investigar acontecimentos do passado e a rever as versões que recebeu sobre sua própria origem.
Mais do que revelar segredos familiares, o diário permite que Nianca recupere a própria voz. Mãe e filha deixam de ocupar o papel de personagens definidas pelas narrativas masculinas e passam a assumir o controle de suas histórias.
Para Letícia, essa retomada da própria narrativa está diretamente relacionada ao rompimento de ciclos.
“É preciso investigar o passado para não repetir as mesmas dores no futuro, buscando uma linhagem baseada na verdade e no afeto, e não no silenciamento”, afirma.
Entre a utopia e a distopia
Com prefácio da professora e pesquisadora Priscilla Lima, o romance constrói Conceição como uma cidade cuja estrutura social é orientada por valores tradicionalmente associados ao feminino, como cuidado, acolhimento e construção coletiva.
A autora utiliza o conceito de “ustopia”, combinação entre utopia e distopia, para questionar se uma sociedade liderada por mulheres seria necessariamente perfeita ou se também carregaria contradições, sombras e novas disputas de poder.
“O feminismo me ensinou que, antes de transformar a realidade, precisamos ser capazes de imaginá-la”, diz Letícia.
Segundo a escritora, a ficção tornou possível experimentar outras estruturas sociais e observar como seriam as relações humanas caso deixassem de ser fundamentadas apenas na autoridade e passassem a valorizar também o cuidado.
No prefácio, Priscilla Lima destaca que a obra procura alcançar o leitor para além de sua trama:
“Há livros que nos atravessam pela história que contam; outros, pela forma como escolhem contar. Este, no entanto, vai além: convoca a leitora e o leitor a sentir, pensar e reconhecer-se nas camadas mais profundas das experiências femininas, nas múltiplas maneiras de existir e resistir.”
Dor compartilhada e redes de apoio
Embora trate de violência, traumas familiares e estruturas patriarcais, “Palco dos que Sofrem” não coloca o sofrimento como destino inevitável de suas personagens.
A obra aborda principalmente o que pode surgir quando a dor deixa de ser enfrentada de maneira isolada e passa a ser acolhida por uma rede de apoio.
“O tema central da trama não é a dor pela dor, mas como o fardo se torna mais leve quando compartilhado”, explica a autora.
Essa perspectiva dialoga com o conceito de dororidade, desenvolvido pela escritora e intelectual Vilma Piedade para definir a união estabelecida entre mulheres negras a partir de experiências atravessadas simultaneamente pelo racismo e pelo machismo.
No romance, o acolhimento coletivo não apaga as feridas do passado, mas cria condições para que as personagens compreendam suas trajetórias, recuperem suas vozes e escolham quais heranças desejam levar adiante.
Escrita, maternidade e reconstrução
Natural de Aracaju, em Sergipe, Letícia Ávila cresceu em São Paulo e atualmente vive em Ilhabela, no litoral paulista. Jornalista formada pela FIAM-FAAM FMU, trabalha desde 2012 com cinema e entretenimento e reúne mais de uma década de experiência no mercado audiovisual.
Esse repertório influenciou a construção do ritmo e das imagens presentes no romance. Após concluir o Curso Livre de Preparação do Escritor, da Casa das Rosas, a autora decidiu transformar a subjetividade feminina, o feminismo e a memória em eixos centrais de seu projeto literário.
Entre suas principais referências estão Conceição Evaristo, Aline Bei, Carla Madeira, Maria Ribeiro, bell hooks, Anne Frank, Lélia Gonzalez, Djamila Ribeiro, Chimamanda Ngozi Adichie e Maya Angelou.
“As escritoras, em especial as vozes brasileiras, me provam que a escrita feminina é, em sua essência, um ato revolucionário e potente”, afirma.
A produção de “Palco dos que Sofrem” também coincidiu com os primeiros meses da maternidade de Letícia. Segundo a autora, escrever o romance se tornou um processo de reflexão sobre sua própria história e sobre as heranças emocionais que gostaria de transmitir à filha.
“Ele me transformou porque me obrigou a olhar para as minhas próprias sombras e para as mulheres que vieram antes de mim com uma coragem que eu ainda não conhecia. A escrita me curou ao me dar o poder de decidir quais heranças emocionais eu queria passar para a minha filha e qual mundo eu gostaria de sonhar para ela”, relata.
Lançamentos em São Paulo e Ilhabela
O primeiro lançamento de “Palco dos que Sofrem” acontece em 21 de junho, às 15h, no Centro Cultural São Paulo, com acessibilidade em Libras.
A programação segue em Ilhabela, onde Letícia participa de um workshop na Biblioteca Municipal, em 24 de junho, às 18h30. No dia 27 de junho, às 16h30, a autora realiza um novo evento de lançamento na Livraria Canoa.
“Palco dos que Sofrem” foi realizado com apoio do Governo do Estado de São Paulo, por meio da plataforma CULTSP, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas e do ProAC Editais, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.
Serviço
Livro: Palco dos que Sofrem
Autora: Letícia Ávila
Gênero: Romance
Número de páginas: 222
Editora: Publicação independente
Ano: 2026
ISBN: 978-65-02-09524-9
Instagram: @leticiaescritoraa
Lançamento em São Paulo
Data: 21 de junho
Horário: 15h
Local: Centro Cultural São Paulo
Acessibilidade: interpretação em Libras
Workshop em Ilhabela
Data: 24 de junho
Horário: 18h30
Local: Biblioteca Municipal de Ilhabela
Lançamento em Ilhabela
Data: 27 de junho
Horário: 16h30
Local: Livraria Canoa



