BRICS quer fugir do dólar, mas esquece de responder o básico: quem fica com a conta?

Novo sistema de pagamentos do bloco pode até reduzir custos e burocracia, mas não elimina o problema central do comércio internacional: alguém precisa assumir o risco cambial, fornecer liquidez e garantir que o dinheiro chegue de verdade

A ideia parece bonita na manchete: países do BRICS criando uma ferramenta própria de pagamentos para reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais. Em um mundo cansado do domínio financeiro dos Estados Unidos, a proposta tem apelo político imediato. Parece moderna, soberana, estratégica. Quase dá para ouvir a trilha sonora de virada histórica ao fundo.

Mas, quando se tira o discurso da sala de reunião e se coloca a operação em cima da mesa, aparece a pergunta que quase ninguém faz: quem é a contraparte da operação?

Porque pagamento internacional não é discurso. É liquidação. É câmbio. É risco. É confiança. É alguém prometendo entregar uma moeda em troca de outra, em determinado prazo, por determinada cotação, assumindo que ninguém vai sumir, quebrar, atrasar, restringir remessa ou mudar a regra no meio do caminho.

O BRICS não está, ao menos oficialmente, avançando para uma moeda única. A discussão concreta passa mais por sistemas de pagamento em moedas locais, interoperabilidade entre infraestruturas financeiras e, em algumas propostas, conexão entre moedas digitais emitidas por bancos centrais. Em tese, isso permitiria que empresas de países do bloco negociassem sem precisar converter tudo primeiro para dólar.

A intenção pode ser razoável. O problema é vender isso como se fosse uma espécie de “Pix geopolítico” capaz de resolver, por mágica, décadas de dependência do dólar no comércio internacional. Não é tão simples. Na verdade, não chega nem perto.

No Brasil, o Pix funciona porque todo mundo está dentro da mesma moeda. Quem paga, paga em real. Quem recebe, recebe em real. O Banco Central organiza o sistema, mas não existe uma conversão cambial no meio de cada compra de pão, consulta médica ou boleto esquecido. Em uma transação entre Brasil e China, Brasil e Índia, Rússia e África do Sul, a conversa muda completamente. O importador pode pagar em real, mas o exportador provavelmente não quer receber em real se não tiver uso para essa moeda. Ele quer yuan, rúpia, dólar, euro ou alguma moeda que consiga usar, converter ou guardar sem tomar prejuízo. Aí entra o ponto que transforma a solução tecnológica em problema financeiro: quem fornece a moeda estrangeira na ponta?

Se uma empresa brasileira compra produto chinês e paga em real, alguém precisa entregar yuan ao exportador chinês. Pode ser um banco comercial, uma câmara de compensação, uma fintech, um banco estatal, uma linha de swap entre bancos centrais ou uma combinação de tudo isso. Mas esse alguém não trabalha por amor à integração multipolar. Vai cobrar spread, limitar volume, exigir garantias, ajustar preço ou repassar risco. E aqui a discussão fica menos romântica.

Qual cotação será usada? A do momento da compra? A do fechamento do dia? A média de uma janela determinada? A cotação de mercado entre real e yuan? Ou uma triangulação escondida via dólar, em que se finge tirar o dólar da operação, mas se continua usando o dólar como régua de preço?

Essa pergunta importa porque moedas oscilam. E oscilam muito. Se uma operação é combinada hoje e liquidada daqui a dois ou três dias, a variação cambial pode comer margem, transformar lucro em prejuízo ou gerar disputa entre comprador, vendedor e intermediário. Então vem outra pergunta inevitável: há garantia contra variação cambial?

Se houver, alguém está oferecendo hedge. Se alguém oferece hedge, esse custo aparece em algum lugar. Pode estar explícito na tarifa, embutido na cotação, diluído no contrato ou bancado por uma instituição pública. Mas ele não desaparece. O risco nunca some. Ele apenas muda de bolso.

Outro ponto pouco discutido é a diferença entre liquidação bruta e liquidação compensada. Na liquidação bruta, cada operação é acertada individualmente. É mais transparente, mas exige mais liquidez disponível o tempo todo. Na liquidação compensada, várias operações são somadas e apenas o saldo final é liquidado. Pode ser mais eficiente, mas cria outro problema: quem cobre o descasamento quando um país importa muito mais do que exporta?

Imagine que empresas brasileiras comprem muito da China em determinado período, mas empresas chinesas comprem pouco do Brasil na mesma janela. O saldo fica desequilibrado. Se a China acumula reais demais, precisa decidir o que fazer com eles. Pode comprar produtos brasileiros, investir no Brasil, converter para outra moeda ou exigir condições melhores para continuar aceitando real. Se não houver demanda real pela moeda acumulada, o sistema começa a ranger.

Esse é o drama escondido atrás da expressão “moedas locais”. Parece simples dizer que cada país pagará com sua própria moeda. Difícil é convencer o outro lado a ficar com ela.

Uma moeda internacionalmente útil precisa ser conversível, líquida e desejada. Não basta existir. O saldo em moeda local é conversível livremente? Existe mercado secundário profundo para essa moeda? Dá para transformar rapidamente aquele saldo em outra coisa sem derrubar preço? Há compradores suficientes? Há instrumentos financeiros, títulos, derivativos e ativos confiáveis para estacionar esse dinheiro?

O dólar domina não apenas porque os Estados Unidos têm poder político. Domina porque existe um mercado gigantesco ao redor dele. Há liquidez, títulos, bancos, contratos, derivativos, segurança jurídica relativa, aceitação global e capacidade de absorver excedentes. O mundo pode reclamar do dólar, e muitas reclamações fazem sentido, mas reclamar de uma estrada cheia de pedágio não cria automaticamente uma estrada nova, asfaltada, iluminada e com posto aberto de madrugada.

Um sistema de pagamentos do BRICS pode ser útil como infraestrutura. Pode reduzir custo em algumas operações, acelerar liquidações, facilitar comércio bilateral e diminuir a dependência operacional de bancos e sistemas ocidentais em determinados corredores comerciais. Isso não deve ser ignorado.

Mas é outra coisa dizer que esse sistema resolve o problema monetário do bloco. Não resolve.

O BRICS reúne países com interesses diferentes, regimes políticos diferentes, estruturas produtivas diferentes, moedas com níveis muito distintos de aceitação e relações comerciais frequentemente desequilibradas. Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul e os novos integrantes não formam uma economia integrada como a zona do euro tentou ser. E mesmo o euro, criado por países muito mais próximos institucionalmente, viveu crises duríssimas quando ficou claro que moeda comum sem união fiscal e política completa produz tensão.

No caso do BRICS, a ideia de uma moeda única seria ainda mais complicada. Quem emitiria? Quem definiria juros? Quem garantiria o lastro? Quem fiscalizaria? Quem aceitaria perder autonomia monetária? Quem toparia que a política cambial de sua indústria dependesse de uma regra compartilhada com economias tão diferentes?

Por isso, quando autoridades dizem que a discussão não é criar uma moeda comum, mas melhorar pagamentos em moedas locais, estão sendo mais realistas. O problema é que parte do debate público continua tratando qualquer avanço técnico como se fosse o começo do “fim do dólar”. É uma leitura confortável para manchetes, mas frágil para quem precisa pagar uma importação de verdade.

A pergunta final talvez seja a mais importante: se uma empresa não pagar, o risco é privado ou vira risco de Estado?

Porque, quando bancos centrais entram demais na engenharia, existe o risco de transformar problema empresarial em problema público. Uma coisa é o Banco Central oferecer infraestrutura de pagamento. Outra é servir, direta ou indiretamente, como garantidor de operações privadas mal precificadas, mal protegidas ou politicamente convenientes. Se o intermediário for estatal, se a liquidez vier de swap público, se o prejuízo for tratado como “estratégico”, a conta pode sair do contrato comercial e acabar no colo do contribuinte.

É nesse ponto que a discussão precisa sair do palco da geopolítica e entrar na planilha.

Quem é a contraparte? Como a operação é liquidada? Em qual moeda o exportador recebe de fato? Quem fornece a moeda na ponta? Qual cotação será usada? Há proteção contra variação cambial? Quem cobre o descasamento comercial? A moeda é livremente conversível? Existe mercado líquido para ela? Se der errado, quem paga?

Essas perguntas não são detalhe técnico. São o coração do sistema.

Um novo arranjo de pagamentos pode ser uma boa ferramenta. Mas ferramenta não muda a natureza do problema. Sem confiança, liquidez, conversibilidade e regras claras, o que se cria não é uma alternativa robusta ao dólar. Cria-se apenas um novo intermediário, com outro nome, outra bandeira e os mesmos riscos de sempre.

No fim, o debate honesto não é entre ser contra ou a favor do BRICS. É entre tratar pagamento internacional como infraestrutura financeira séria ou como slogan de independência monetária.

E slogan, até hoje, nunca pagou exportador.

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