Dia dos Namorados e saúde mental no relacionamento
Psiquiatra explica quando a dor no vínculo pode ter origem em transtornos não tratados e como reconhecer sinais de alerta.
Nem todo conflito amoroso é “problema de casal”. Em alguns casos, o que parece incompatibilidade pode ser sinal de um adoecimento mental não tratado que afeta a relação por inteiro. No contexto do Dia dos Namorados, a reflexão ganha ainda mais força: quando a dor persiste mesmo após uma conversa ou uma tentativa de ajuste, talvez o problema vá além do vínculo.
Quando a doença interfere no amor
Segundo o psiquiatra Higor Caldato, saúde mental não tratada não fica contida em quem a vive — ela transborda para o relacionamento. A ansiedade, por exemplo, pode transformar situações neutras em ameaça, favorecendo ciúme excessivo, necessidade constante de reasseguramento e dificuldade de confiar. Já a depressão pode roubar a capacidade de sentir prazer, inclusive na convivência com quem se ama.
O profissional também chama atenção para um ponto comum: muitas vezes, a pessoa adoecida não percebe que está adoecida. Assim, interpreta o próprio sofrimento como prova de que o relacionamento é o problema, quando a origem pode estar em outro lugar.
“Tratar é, muitas vezes, a coisa mais generosa que alguém pode fazer pelo próprio vínculo”, afirma Caldato.
Crise do casal ou quadro clínico?
Nem toda crise é transtorno mental. Há situações com causa clara — como traição, perda ou mudança de vida — que geram sofrimento intenso, mas localizado. Já um quadro clínico costuma ser mais persistente, atravessa diferentes áreas da vida e não melhora mesmo quando o conflito pontual é resolvido.
O marcador prático sugerido pelo psiquiatra é simples: se a dor some quando o problema some, pode ser uma crise. Se a dor continua mesmo depois da resolução, vale investigar. Frases como “eu sempre fui assim” ou “isso acontece em todos os meus relacionamentos” também merecem atenção, especialmente se vierem acompanhadas de oscilações de humor sem motivo aparente.
Como apoiar sem se adoecer
Para quem convive com alguém em sofrimento mental, Caldato destaca que amor não cura transtorno. Apoiar também não significa absorver tudo. Existe uma diferença importante entre ser rede de suporte e assumir o papel de terapeuta, médico e bombeiro emocional do outro.
Quando não há limites, o risco é de codependência: o parceiro passa a viver em função da crise alheia e adoece junto. O cuidado saudável inclui manter a própria vida, os próprios espaços e a própria saúde mental. Incentivar busca por ajuda profissional, nesse contexto, é um gesto de cuidado — não de abandono.
Sinais de que o relacionamento está fazendo mal
Alguns sinais aparecem de forma clara: sentir-se pior consigo mesma desde que entrou no relacionamento, se anular para evitar conflito, ter medo de falar o que pensa ou viver “na ponta dos pés” para não errar. Outros são mais sutis, como ansiedade crescente, sono prejudicado, perda de interesse em atividades antes prazerosas e afastamento de amigos e família.
Relacionamentos tóxicos, lembra o especialista, raramente começam tóxicos. Eles se instalam aos poucos, com humilhações disfarçadas de brincadeira, controle de amizades, dinheiro, tempo ou vestuário, e um ciclo repetido de tensão, explosão, reconciliação intensa e calmaria.
Sair desse tipo de relação é um processo, não um evento. Nomear o que está acontecendo, buscar apoio de alguém de confiança e procurar acompanhamento psicológico podem fazer diferença. “Sair de um relacionamento que adoece não é fraqueza. É o ato mais corajoso e mais saudável que existe”, conclui Caldato.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



