Rotina moderna pode pesar no corpo das crianças
Sono curto, telas em excesso e refeições desorganizadas ajudam a explicar o avanço do excesso de peso infantil, segundo especialistas.
O aumento do excesso de peso entre crianças e adolescentes no Brasil não se deve apenas à alimentação inadequada. Rotinas aceleradas, privação de sono, uso excessivo de telas e diminuição do tempo para atividades ao ar livre são fatores que contribuem para o avanço da obesidade infantil, afetando diretamente a saúde metabólica dos jovens.
Dados nacionais baseados no Sistema Único de Saúde (SUS) indicam que uma em cada três crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos apresenta excesso de peso. Entre 2014 e 2024, o sobrepeso nessa faixa etária cresceu quase 9%, totalizando cerca de 2,6 milhões de jovens com algum grau de excesso de peso. Desses, aproximadamente 1,5 milhão têm sobrepeso, 840 mil obesidade e 237 mil obesidade grave. A região Norte apresenta o menor índice proporcional, com 27% da população jovem afetada.
O impacto da rotina familiar
Para a endocrinologista pediátrica Maylla Cabral, da clínica Atma Soma, é fundamental analisar a rotina das famílias para compreender o cenário atual. “Muitas crianças vivem em um estado constante de excesso de estímulos e baixa recuperação. Dormem menos, passam mais tempo em frente às telas, se movimentam pouco e mantêm uma rotina alimentar desorganizada. Esses fatores se somam e impactam diretamente o metabolismo”, explica.
A médica ressalta que o ganho de peso infantil não pode ser atribuído apenas a escolhas individuais. “A dinâmica familiar e a estrutura da rotina influenciam os hábitos dos filhos. Quando há pouco tempo para refeições, sono irregular e altos níveis de estresse, o corpo tende a responder de maneira menos eficiente”, complementa.
Sono, estresse e metabolismo
O sono desempenha papel central no funcionamento metabólico durante a infância. Estudos da American Academy of Pediatrics indicam que a privação crônica de sono aumenta o risco de alterações hormonais relacionadas à fome e saciedade, elevando a predisposição ao ganho de peso. Além disso, o excesso de estímulos e a dificuldade para desacelerar podem afetar a regulação do cortisol, hormônio ligado à resposta ao estresse.
A American Academy of Sleep Medicine recomenda que crianças entre 6 e 12 anos durmam de 9 a 12 horas por noite, enquanto adolescentes entre 13 e 18 anos necessitam de 8 a 10 horas para manter a saúde física e metabólica.
O uso excessivo de dispositivos eletrônicos também está associado ao aumento do sedentarismo e à pior qualidade do sono, conforme dados da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Alimentação e rotina desorganizada
O consumo crescente de alimentos ultraprocessados está relacionado à rotina acelerada das famílias. Pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aponta que 80% das crianças brasileiras até 5 anos consomem frequentemente produtos como biscoitos, bebidas açucaradas e industrializados.
Maylla Cabral destaca que “não se trata apenas da quantidade de alimento consumido, mas da forma como a criança se relaciona com a alimentação ao longo do dia. Comer distraído, sem rotina e em meio ao excesso de estímulos pode prejudicar a percepção de fome e saciedade”.
A especialista reforça que mudanças sustentáveis dependem do envolvimento de toda a família. “Hábitos não são construídos de forma isolada. Sono, alimentação, movimento e organização da rotina precisam ser observados dentro do contexto familiar, sem culpabilização, mas com entendimento de que o ambiente influencia diretamente o comportamento e o metabolismo”.
Mais que peso, uma questão de saúde futura
A obesidade infantil está associada a um maior risco de doenças metabólicas ao longo da vida, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e problemas cardiovasculares, além de impactos emocionais e sociais.
Para Maylla Cabral, a prevenção deve focar na construção de uma rotina que permita recuperação física e equilíbrio. “A infância precisa incluir descanso, movimento, alimentação adequada e tempo de convivência. Nessa faixa etária, o corpo responde ao ambiente em que ela vive, e a saúde metabólica também é resultado dessa organização cotidiana”.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



