O custo do ceticismo automático: ignorar tendências fecha portas à inovação

Rejeitar modismos sem análise pode fazer líderes perderem oportunidades reais de transformação e crescimento

Existe uma postura que virou quase um sinal de sofisticação nos últimos anos: desdenhar do que está na moda. Você conhece o tipo. A pessoa que nunca vai ao restaurante da vez porque “está cheio demais”. Que não adota a ferramenta que todo mundo usa porque “é modismo”. Que olha para uma tendência e, antes de testá-la, já a descarta como superficialidade coletiva. Entendo de onde vem esse impulso. Em um mundo saturado de novidades, de listas de “o que você precisa experimentar”, o ceticismo parece a resposta mais inteligente. Mas há uma diferença importante entre discernimento e desdém. E confundir os dois pode custar caro.

Quando algo se torna hype — uma ideia, uma ferramenta, um lugar ou uma experiência — isso raramente acontece por acaso. Pode ser que o produto seja genuinamente bom, que responda a uma necessidade não explicitada ou que ofereça uma experiência que vale a vivência, independentemente de quantas pessoas já a tiveram antes de você. O problema não é o hype em si, mas nossa relação com ele: aceitar tudo sem filtro ou rejeitar tudo por reflexo. Nenhuma dessas posturas serve bem a quem quer tomar decisões inteligentes, seja na vida pessoal, seja nos negócios.

No mercado segurador, aprendi a levar tendências a sério antes de adotá-las ou descartá-las. Uma inovação que ganha tração no setor — seja em modelos de distribuição, tecnologia de subscrição ou novos produtos — raramente surge do nada. Ela nasce de uma dor real que encontrou solução, ou de uma solução que chegou na hora certa. A mesma lógica vale fora do mercado financeiro. Quando um jeito de trabalhar vira tendência — trabalho remoto, uso de inteligência artificial no dia a dia, novos modelos de consumo — a pergunta inteligente não é “isso é hype ou é real?”, mas “qual dor isso resolve e essa dor é relevante para mim?”.

Recentemente, estive em Paris a trabalho. Uma das coisas mais interessantes foi observar como os lugares “da moda” — cafés instagramáveis, ruas fotografadas à exaustão — ainda têm algo genuíno a oferecer quando você para de tentar ter a experiência “certa” e simplesmente está lá. O croissant continua bom. A luz da manhã continua bonita. A conversa na calçada continua acontecendo. O hype não inventa a qualidade; ele amplifica o que já existe, às vezes de forma distorcida, mas a qualidade estava lá antes de qualquer algoritmo decidir que aquele lugar merecia atenção.

Nas grandes cidades, observo com frequência crescente a pressão para ter opiniões definitivas sobre experiências antes mesmo de vivê-las. Você vai ao restaurante da vez já construindo a narrativa do que vai contar. Experimenta a ferramenta em alta já esperando ser desapontada. Quando a experiência não corresponde à expectativa inflada, a conclusão imediata é “era só hype mesmo”. Mas essa conclusão diz mais sobre a expectativa do que sobre a experiência. E se chegássemos ao hype sem a missão de confirmar nem refutar? Essa pergunta me parece mais produtiva do que o ceticismo preventivo que, na prática, protege pouco e perde muito.

Há um custo real em ser sistematicamente cético a respeito de tendências. O profissional que descartou a internet como “modismo passageiro” nos anos 1990. O gestor que ignorou redes sociais como “coisa de adolescente”. O executivo que não quis “perder tempo” com ferramentas de IA porque “isso vai passar”. Tendências não têm todas o mesmo peso nem a mesma longevidade, mas a postura de descarte automático garante que você vai errar todas as apostas relevantes junto com as irrelevantes.

A habilidade que diferencia bons estrategistas de maus estrategistas é saber quando o sinal é real e quando é apenas ruído. Isso exige atenção ativa, não desdém passivo. Exige fazer perguntas: isso tem valor real ou só visibilidade? Serve para mim ou é relevante para outro perfil? Estou indo porque quero viver isso ou porque sinto que “deveria”? Quando a resposta for “tem valor real”, aproveite, sem culpa e sem a necessidade de transformar tudo em conteúdo de performance. Quando não fizer sentido, passe. Mas passe por escolha, não por reflexo.

No final, a proposta é simples. Se algo está no hype e é genuinamente bom, a fama não diminui a qualidade. Se está no hype e não é para você, passe sem drama e sem julgamento de quem aprecia. Se você ainda não sabe, experimente. Com leveza. Sem a pressão de confirmar nem o ceticismo de refutar. A vida profissional, e a pessoal também, costuma ser mais rica quando paramos de precisar ter razão sobre o que é “digno” de atenção e simplesmente prestamos atenção.

A

Por Ana Carolina Mello

Executiva com mais de 30 anos de experiência no mercado segurador

Artigo de opinião

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