Falar o óbvio é essencial para a governança corporativa
Como a evasão da clareza e a linguagem suavizada comprometem a responsabilidade nas empresas
Dizer o óbvio, no ambiente corporativo, deixou de ser algo natural, passando a ser evitado em muitos casos, não por desconhecimento, mas pelo desconforto que provoca. Existe uma tendência recorrente de substituir a objetividade por construções mais aceitáveis, como se a forma pudesse neutralizar o conteúdo. Ao longo da atuação da autora, observa-se um padrão que se repete: o afastamento da clareza justamente quando ela exige posicionamento.
O problema não está na falta de informação, mas na escolha de não nomeá-la como ela é. Processos que não funcionam deixam de ser tratados como falhas e passam a ser descritos como algo que “pode evoluir”, fazendo com que problemas concretos virem “pontos de atenção”, onde situações que exigiriam ação imediata são deslocadas para um campo mais difuso, onde a urgência desaparece.
Nesse movimento, a linguagem deixa de ser instrumento de gestão e passa a funcionar como mecanismo de proteção. Não é só uma escolha de palavras, é uma forma de evitar o enfrentamento direto, uma tentativa de lidar com a consequência sem assumir a causa. Dizer que um processo não funciona exige mais do que técnica, exige disposição para olhar o problema de frente e, muitas vezes, olhar também quem deveria ter evitado que ele chegasse até ali.
Por isso, a substituição da objetividade por termos mais suaves não é inocente, ela cumpre a função de proteger relações, preservar estruturas e, em muitos casos, evitar a atribuição clara de responsabilidade. Mas a que custo? Ao suavizar o conteúdo, a responsabilidade se dilui; ao evitar a nomeação precisa, a capacidade de correção se enfraquece; ao adiar o enfrentamento, a não-decisão se torna prática. Não é uma questão de semântica, é governança.
Há ainda outro elemento que merece atenção: a sofisticação da linguagem como forma de distanciamento, com expressões em inglês, construções excessivamente elaboradas e termos que soam técnicos, mas que, na prática, afastam a conversa do ponto central. Não é raro ver problemas sendo descritos de forma cada vez mais complexa, justamente para não serem enfrentados de forma direta.
No fundo, a pergunta é simples: por que é tão difícil dizer o que precisa ser dito? As respostas são conhecidas: desconforto com o conflito, receio de exposição, proteção de interesses, dificuldade de responsabilização. Mas, independentemente da origem, o efeito é o mesmo.
A organização passa a operar em um espaço em que os problemas são reconhecidos, mas não enfrentados com a clareza necessária, onde se mantém a aparência de controle enquanto as decisões são continuamente postergadas. Ao evitar a objetividade, perde-se algo essencial, que é a definição de quem decide, quem assume e quem responde. Sem isso, a governança deixa de estruturar responsabilidade e passa a funcionar como um sistema de acomodação.
Falar o óbvio não é excesso de franqueza, é requisito mínimo de integridade organizacional. Porque, no fim, enfrentar o problema exige mais do que descrevê-lo bem, exige encará-lo como ele é. Enquanto o óbvio precisar ser suavizado para ser aceito, os problemas continuarão sendo administrados na forma e não enfrentados na essência.
Nesse cenário, a governança não falha por falta de estrutura, mas por falta de disposição para dizer, com clareza, aquilo que já é sabido.
Por Patricia Punder
Advogada, CEO e fundadora da Punder Advogados; 17 anos dedicados ao Compliance; atuação nacional, América Latina e mercados emergentes; reconhecida como referência em Compliance e ESG; nomeada perita judicial no caso Americanas; professora na FIA/USP, UFSCAR, LEC e Tecnológico de Monterrey; certificações internacionais em compliance (George Washington Law University, Fordham University e ECOA); coautora de quatro livros de referência em compliance e governança; autora do livro "Compliance, Gestão de Crises e ESG – Tudo junto e misturado – 2023"
Artigo de opinião



