Vivências com cavalos como ferramenta de autopercepção
Nem tudo o que orienta o comportamento passa pela consciência. Muitas vezes, isso só se torna evidente quando algo rompe a lógica habitual das relações e das respostas automáticas. Há mais de duas décadas, Caroline Kovari Szajman dedica-se a processos de autopercepção, realizando atendimentos individuais, vivências presenciais e encontros online desde 2019. Seu trabalho, reunido na plataforma INLUMINATION, propõe práticas ligadas à consciência, presença e autopercepção, especialmente em imersões na natureza que envolvem a interação com animais, em particular os cavalos.
Durante os encontros realizados na Fazenda Essênia, em São Francisco Xavier (SP), os participantes observam como se posicionam diante dos cavalos — sua postura, respiração, intenção e tensões sutis entram na relação. O cavalo responde ao estado real da pessoa, não à narrativa que ela constrói sobre si mesma. Caroline explica: “Os cavalos não respondem à narrativa que a gente constrói sobre si mesmo. Eles respondem ao estado real em que a pessoa está. E isso não passa pela mente, passa pelo corpo, pela coerência entre o que se sente e o que se expressa.”
A escolha dos cavalos não é apenas simbólica. Como animais de manada, eles operam por uma leitura constante do ambiente e dos sinais não verbais, sensíveis a variações sutis de comportamento, sem filtragem racional. Inserida em um contexto estruturado, essa interação funciona como uma forma direta de observação, onde o participante percebe padrões que dificilmente seriam acessados em situações cotidianas. Reações automáticas, mecanismos de defesa e formas de se posicionar deixam de ser abstratos e passam a ser visíveis no corpo e na relação.
Do ponto de vista científico, essa sensibilidade dos cavalos tem sido objeto de estudo. Pesquisas recentes indicam que eles conseguem diferenciar expressões humanas e responder a elas de forma distinta. Embora a produção científica sobre essa abordagem ainda seja limitada, há evidências de que a interação com animais pode contribuir para o bem-estar emocional, ajudando na redução de ansiedade, estresse e outros sintomas comportamentais.
As vivências acontecem em grupos reduzidos, com duração de três a seis dias, em ambientes naturais como a Fazenda Essênia. A agenda inclui diferentes formatos, desde experiências de fim de semana até imersões mais longas, além de sessões individuais. Caroline afirma: “Não há um roteiro fixo para os encontros. Cada grupo se organiza a partir do que emerge na interação com os cavalos e com o ambiente, o que faz com que nenhuma vivência se repita da mesma forma.”
Para ela, o essencial não é interpretar o comportamento, mas vivenciá-lo. “Existe uma ideia de controle muito forte nas relações humanas. Com o cavalo, isso não funciona. Se não há presença, se não há clareza, ele não acompanha. E isso exige um tipo de escuta diferente, que não é racional. No fim, o que acontece ali é direto, não dá para sustentar discurso. O que aparece é o que está acontecendo de fato.”
Por Caroline Kovari Szajman
Criadora do INLUMINATION, dedicada há mais de duas décadas a estudos e práticas ligados à presença, mindfulness, comunicação não violenta e interação humano-animal; conduz experiências individuais e em grupo utilizando natureza e cavalos como ferramentas de observação e percepção; realiza atendimentos individuais, vivências presenciais e encontros online desde 2019.
Artigo de opinião



