A palavra que forma identidade na relação entre afeto, correção e pertencimento

Como a forma de nomear comportamentos influencia o pertencimento e a transformação da infância à vida adulta

Identidade não é comportamento. Essa perplexidade está no cerne de muitos impasses emocionais que se estendem desde a infância e persistem na idade adulta. Quando um gesto se torna uma definição do eu, a psique não permite mudança. O inconsciente trata a linguagem como uma extensão da realidade e não reconhece que a pessoa pode agir de forma diferente de quem ela é.

Quando uma criança ouve “você é bagunceiro”, “você é preguiçoso”, “você é difícil”, ela não recebe isso como uma observação isolada, mas como um axioma sobre seu ser. Assim, ela começa a organizar seu comportamento para manter essa imagem, pois a mente precisa de coerência para existir. Ser alguém, mesmo com um rótulo, é mais seguro do que não saber quem se é. O comportamento deixa de ser um acontecimento e passa a ser repetido continuamente para evitar que o eu se desintegre.

Por isso, muitos processos de correção falham. Quando um adulto tenta eliminar um comportamento atacando a identidade, o efeito é o oposto: o sintoma se fixa, pois se torna algo que o núcleo do eu protege. Mudar o comportamento é renunciar à única imagem de si que o indivíduo conhece.

O campo psíquico se reorganiza quando a linguagem desvincula o ato da identidade. Por exemplo, dizer “este quarto não combina com quem você é” sustenta o eu e responsabiliza a ação. O consciente vê o limite, e o inconsciente não precisa se proteger, abrindo espaço para transformação.

Essa estrutura não enfraquece com a idade e ressurge em relacionamentos afetivos. Muitos adultos mantêm relações que reproduzem dinâmicas infantis, não por incapacidade, mas porque sua identidade foi formada nesse ambiente. O parceiro que se torna bebê, a mãe como parceira, o adulto que existe a partir do olhar do outro.

Quando alguém diz “você nunca faz nada certo”, “você é irresponsável”, “você não consegue lidar com isso”, não está apenas reagindo a uma situação, mas desenhando uma identidade. No inconsciente, essa afirmação se registra como fato ontológico e estrutura o comportamento para afirmar esse lugar. Não é fraqueza, mas compromisso psíquico com a conexão que mantém vivos.

A infantilização não é complacência, mas adaptação a uma história. Manter esse papel é mais seguro do que temer não saber quem se é. Essa pessoa aceita ser pequena porque foi quando essa identidade encontrou força.

Muitos conflitos conjugais são conflitos sobre identidade, não apenas sobre atitudes. Um busca alterar o comportamento do outro, mas não nomeia o problema, que persiste pela linguagem. Nomear o problema faz com que ele seja o que se deseja corrigir. Mudar o termo muda o campo psíquico.

Quando alguém diz “o que você fez não é quem você é”, o eu não é mais ameaçado. O inconsciente não precisa se proteger, e o relacionamento se torna uma arena de possibilidades, não de agressão.

Enquanto a identidade individual estiver assegurada e o comportamento for considerado responsável, a maturidade se estabelece. Só pessoas que sentem isso podem agir assim. Crianças crescem quando não precisam lutar para existir. Adultos crescem quando não são diminuídos em partes menores de si mesmos.

Estar desconectado da ação não é um processo educacional, mas um princípio clínico que permite a mudança sem obliterar a identidade.

M

Por Maria Klien

Psicóloga, atua na investigação dos distúrbios ligados ao medo e à ansiedade, com prática clínica integrando métodos tradicionais e complementares, empreendedora na área de recursos terapêuticos para saúde psíquica

Artigo de opinião

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