Gestão humanizada e liderança na era da inteligência artificial

Estudo mostra impacto direto da liderança no engajamento e resultados em ambientes automatizados

Existe uma narrativa que precisa ser questionada: a de que liderar com empatia é sinônimo de falta de firmeza ou de rigor. Essa leitura equivocada ainda circula nos corredores de muitas organizações, e ela cobra um preço alto. O preço se chama desengajamento, com um alto turnover e equipes que executam sem pensar. Em um momento em que a inteligência artificial avança sobre o operacional, o que deve ser valorizado é exatamente o que a máquina não consegue entregar, ou seja, essa confusão entre humanização e permissividade se torna um risco real de competitividade.

A IA já transformou o ambiente de trabalho e a questão atual é quem lidera essa transição? Não do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista humano. Quem vai fazer as perguntas certas? Criar o ambiente psicologicamente seguro para errar e aprender? Garantir que as pessoas se mantenham no centro enquanto os processos se automatizam? São questões que apontam direto para a liderança e se direcionam a um perfil específico, que o mercado demorou demais para valorizar: o profissional experiente, com vivência real de gestão, que já atravessou ciclos de mudança, liderou times em crise e aprendeu que resultados sustentáveis são consequência de um engajamento genuíno.

Os dados confirmam o que a prática sinaliza há algum tempo. A Gallup publicou um estudo mostrando que 70% do engajamento dos colaboradores está diretamente relacionado à liderança. Mais do que isso: uma liderança humanizada e engajada pode reduzir o absenteísmo em 81%, aumentar a produtividade em 14% e diminuir a rotatividade em até 43%. Não são números de bem-estar. São números de resultado. E quando a Gallup também aponta que o baixo engajamento global custou aproximadamente US$ 10 trilhões à economia mundial, o equivalente a 9% do PIB global, fica difícil sustentar que tratar bem as pessoas é um luxo que as empresas não podem se dar.

Do outro lado, o relatório LinkedIn Workplace Learning 2025 traz uma informação que deveria mudar a forma como as empresas planejam seus quadros de liderança: 68% dos profissionais concordam que o aprendizado contínuo os ajuda a se adaptar em tempos de mudança, número que cresceu de forma consistente ano a ano, partindo de 49% em 2022. Isso mostra uma transformação de mentalidade. E ela não acontece sozinha: acontece quando existe alguém que saiba criar as condições para que aprender faça parte da cultura e não seja apenas um evento isolado no calendário corporativo.

É aqui que a experiência entra como ativo estratégico, com o repertório de situações reais vividas e resolvidas. Quem já liderou um time multifuncional em um momento de reestruturação sabe que não existe fórmula para isso. A principal ferramenta é a escuta, pois a pergunta certa na hora certa vale mais do que qualquer framework. A mudança real começa quando as pessoas confiam em quem as lidera, não por hierarquia, mas por consistência.

Há uma ironia interessante nesse cenário. Enquanto o mercado celebra a velocidade como competência máxima, ele começa a perceber que velocidade sem direção é caos. Quem oferece direção, integrando visão de negócio, capacidade de leitura de pessoas e clareza de propósito são atualmente os mais valorizados, aqueles que o mercado considerou, por um tempo, ultrapassados. Há alguns anos, os profissionais com mais de 40 anos eram preteridos em ciclos de renovação que priorizavam agilidade operacional. Hoje, essas mesmas empresas buscam quem consiga fazer aquilo que a IA não faz: conduzir uma transformação com sensibilidade, antecipar resistências, criar pontes entre gerações e sustentar a cultura mesmo sob pressão.

Esse movimento reconhece que liderança é uma competência construída no tempo, não em um bootcamp de três meses. O mercado, ao ignorar isso por uma década, acumulou um passivo de desenvolvimento humano que agora cobra juros. A gestão humanizada é a resposta que sempre deveria ter sido dada e que ganhou urgência porque a automação deixou ainda mais visível o que estava faltando: pessoas que saibam lidar com pessoas.

O desafio duplo que se coloca para as organizações hoje é usar a inteligência artificial para ganhar eficiência operacional e, ao mesmo tempo, investir no desenvolvimento humano que vai garantir a continuidade no longo prazo. Esses dois movimentos são complementares e exigem um líder que consiga sustentar essa tensão de forma prática, sem eliminar o humano para acelerar o técnico ou resistir ao técnico por apego ao modelo anterior.

Em um tempo em que a informação está disponível para todos e a inteligência artificial entrega o rascunho, o diferencial é a pergunta que ninguém pensou em fazer. Esse é o repertório que se constrói em anos, com uma presença ativa, uma escuta real, aprendendo com o que deu errado e corrigindo a rota sempre que necessário. É esse o perfil que o mercado está buscando e que, desta vez, não pode se dar ao luxo de ignorar.

Ana Carolina Mello é executiva com mais de 30 anos de experiência no mercado segurador. Com experiência internacional em multinacionais nos EUA e no Brasil, a executiva desenvolveu uma visão global e multicultural da liderança. Ex-atleta profissional de vôlei, alia disciplina esportiva à gestão de alta performance. Defensora de modelos de gestão humanizados, colaborativos e orientados a resultados, é também empreendedora e voz ativa na promoção da liderança feminina. Reconhecida por conectar esporte, inovação e gestão global, atua como porta-voz em temas de liderança multicultural e transformação organizacional.

👁️ 66 visualizações
🐦 Twitter 📘 Facebook 💼 LinkedIn
compartilhamentos

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar