Maturidade da IA na saúde exige governança e interoperabilidade

Relatório destaca que avanço da inteligência artificial na saúde depende de execução, governança e integração de dados

A edição de 2026 do HIMSS, maior evento global de saúde digital, consolidou um movimento que vinha se desenhando nos últimos anos: a inteligência artificial deixou de ser apenas promessa e passou a ocupar o centro das estratégias, porém, agora sob uma nova lente. Mais do que explorar possibilidades, o setor começa a confrontar seus próprios limites operacionais, regulatórios e culturais. Essa é a principal conclusão do relatório de insights produzido pela Folks, consultoria especializada em saúde digital, a partir da participação no evento e de discussões com executivos e especialistas internacionais.

O documento reúne percepções sobre as principais tendências observadas no HIMSS e propõe uma leitura mais pragmática sobre o estágio atual da transformação digital na saúde. Segundo a Folks, o discurso predominante no evento não foi sobre inovação em si, mas sobre capacidade de execução. A inteligência artificial segue como o tema dominante, mas acompanhada por uma mudança relevante de abordagem: a necessidade de estrutura organizacional, governança e integração de dados como pré-condições para gerar valor real.

“A principal mensagem que emerge do HIMSS 2026 é clara: não é mais sobre adotar tecnologia, mas sobre conseguir operar com ela. As instituições que estão avançando são aquelas que estruturaram fundamentos sólidos — dados confiáveis, processos organizados e governança clara”, afirma Bernardo Alves, diretor de estratégia da Folks.

Da euforia à responsabilidade
O evento refletiu um amadurecimento do mercado em relação à IA. Após um ciclo recente marcado por entusiasmo e experimentação, as discussões agora giram em torno de segurança, risco e aplicabilidade. Um dos pontos mais recorrentes foi o equilíbrio entre potencial e risco. A inteligência artificial já demonstra impacto direto em áreas como automação operacional, transcrição clínica e análise preditiva. No entanto, surgem novos desafios, especialmente relacionados à segurança do paciente, vieses algorítmicos e confiabilidade das recomendações clínicas.

“O setor começa a entender que a IA não elimina riscos, mas sim cria novos. Isso exige um nível de governança muito mais sofisticado do que vimos até agora”, avalia a Folks. De acordo com os especialistas, esse debate intensifica-se com o avanço de soluções mais autônomas, capazes de tomar decisões em determinados contextos. Ainda que a aplicação clínica direta permaneça conservadora, o uso operacional cresce consistentemente, especialmente em backoffice e gestão hospitalar.

Governança como novo diferencial competitivo
Outro destaque do HIMSS 2026 foi a centralidade da governança. A ausência de diretrizes claras gera um fenômeno crescente: o uso não estruturado de ferramentas de IA por profissionais de saúde, muitas vezes sem validação institucional — o chamado “shadow AI”. A resposta do mercado, segundo a Folks, não está na restrição, mas na criação de estruturas formais que conciliem inovação e controle. Isso inclui comitês multidisciplinares, políticas de uso, critérios de avaliação de soluções e mecanismos contínuos de monitoramento.

“A governança deixa de ser uma barreira e passa a ser um habilitador. Sem ela, não existe escala possível para a inteligência artificial na saúde”, afirma o executivo.

Interoperabilidade e experiência do paciente seguem como lacunas estruturais
Apesar dos avanços tecnológicos, o HIMSS 2026 reforçou que desafios históricos permanecem. A interoperabilidade — essencial para a continuidade do cuidado — ainda é uma realidade distante em muitos mercados, incluindo o Brasil. Nos Estados Unidos, a adoção de padrões já permite cenários mais integrados, enquanto iniciativas brasileiras ainda avançam gradualmente. Essa diferença impacta diretamente a capacidade de uso estratégico dos dados e, consequentemente, o potencial da IA.

Ao mesmo tempo, a experiência do paciente ganha protagonismo como eixo estratégico. O conceito de “digital front door” evolui para modelos mais integrados, que combinam acesso, engajamento e continuidade do cuidado. “O paciente está mais exigente e mais digital. A experiência é um requisito básico para sustentabilidade das instituições e não mais um diferencial, como anteriormente”, destaca.

Plataformas substituem soluções fragmentadas
O relatório também aponta uma mudança estrutural na arquitetura tecnológica do setor. O modelo baseado em múltiplas soluções desconectadas dá lugar a plataformas integradas, capazes de operar em escala e reduzir complexidade. Esse movimento está diretamente ligado à necessidade de eficiência operacional e à pressão por resultados financeiros em um ambiente cada vez mais desafiador.

“Não se trata de ter mais tecnologia, mas de ter uma tecnologia que funcione coordenadamente. A fragmentação é um dos principais entraves para a evolução da saúde digital”, afirma o executivo.

Brasil acompanha maturidade global, mas enfrenta desafios de execução
Um dos achados mais relevantes do HIMSS 2026 é que, do ponto de vista conceitual, o Brasil não está distante dos mercados mais avançados. Os desafios relacionados à IA, entre eles, governança, segurança e ROI, são similares. A diferença está na capacidade de execução, especialmente em aspectos como infraestrutura, integração de sistemas e formação de profissionais.

“O gap não é mais de conhecimento, mas de implementação. O Brasil já entende o que precisa ser feito. O desafio agora é transformar isso em prática”, conclui Alves.

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