Autismo feminino: desafios no diagnóstico e sub-reconhecimento no Brasil
O mês de abril, conhecido como Abril Azul, é dedicado à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista
O mês de abril, conhecido como Abril Azul, é dedicado à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Apesar das campanhas e debates, o autismo feminino ainda é pouco diagnosticado, o que gera invisibilidade para muitas mulheres que vivem com a condição. No Brasil, segundo dados do IBGE, 2,4 milhões de pessoas possuem diagnóstico de TEA, o que corresponde a 1 em cada 38 crianças entre 5 e 9 anos. Contudo, a taxa de diagnóstico entre homens (1,5%) é maior do que entre mulheres (0,9%), uma diferença que não reflete necessariamente menor prevalência, mas sim falhas históricas nos critérios diagnósticos.
A psiquiatra Dra. Letícia Amici, docente do programa de Pós-Graduação Médica da São Leopoldo Mandic, explica que os critérios para identificar o autismo foram construídos principalmente a partir de estudos com meninos, sem considerar as manifestações específicas em meninas. Isso contribui para que muitas mulheres com autismo sejam rotuladas como tímidas, sensíveis ou introvertidas, sem que o transtorno seja cogitado.
Um fenômeno central para essa invisibilidade é o chamado masking, ou camuflagem social. Desde a infância, muitas meninas com autismo aprendem a observar e imitar comportamentos sociais para se adaptar, o que dificulta a percepção do transtorno por familiares, professores e médicos. Essa adaptação, porém, tem um custo elevado, pois está associada a quadros de ansiedade, depressão e esgotamento crônico. Mulheres autistas apresentam taxas maiores de burnout e ideação suicida, e frequentemente procuram atendimento médico por essas comorbidades, não pelo autismo em si.
Na prática clínica, é comum que mulheres cheguem ao diagnóstico após anos de tratamentos para transtornos como ansiedade, depressão ou transtorno de personalidade borderline, sem que o autismo tenha sido investigado. Segundo Dra. Letícia, “Quando finalmente nomeamos, reconhecemos e iniciamos as intervenções adequadas, algo muda profundamente nessa mulher. Há desde um alívio enorme, em entender que suas dificuldades, antes compreendidas como fraqueza ou frescura, são decorrentes de características do funcionamento cerebral”.
O diagnóstico tardio muitas vezes ocorre quando mães, acompanhando o diagnóstico de autismo em seus filhos, reconhecem características semelhantes em si mesmas. Esse momento traz uma nova compreensão da própria trajetória e abre possibilidades para intervenções mais eficazes.
A formação médica tradicional ainda carece de ênfase nas especificidades do autismo em mulheres adultas, o que reforça a necessidade de atualização profissional para evitar equívocos e garantir diagnósticos mais precisos. A Faculdade São Leopoldo Mandic destaca-se por abordar o TEA com foco nas particularidades do espectro feminino e adulto em seu programa de Pós-Graduação em Psiquiatria. A instituição investe em laboratórios modernos e projetos de extensão para aprimorar o conhecimento e o atendimento a essa população.
O reconhecimento do autismo feminino é um passo fundamental para melhorar a qualidade de vida e o suporte a essas mulheres, que muitas vezes viveram décadas sem um diagnóstico adequado.



