Quando fugir é a única escolha: a migração forçada em tempos de guerra
Enquanto você lê estas linhas, em algum canto do mundo alguém está fechando a porta de casa pela
Enquanto você lê estas linhas, em algum canto do mundo alguém está fechando a porta de casa pela última vez, ou pelo menos é assim que parece. Ninguém sabe ao certo se haverá volta. Não há tempo para escolher o que levar, nem para organizar lembranças. O essencial cabe nas mãos. O resto fica. Ficar, aliás, deixou de ser uma opção. Em tempos de guerra, ninguém sai porque quer. Sai porque permanecer já se tornou arriscado demais. Somente na guerra entre Rússia e Ucrânia, a emissora britânica BBC estimou, em fevereiro de 2026, que o número de mortos já ultrapassava 500 mil no conflito. A guerra não explode apenas nas manchetes ou nos mapas. Ela entra na sala de estar, invade o quarto das crianças, atravessa o caminho da escola. Aos poucos, ou de repente, destrói aquilo que parecia sólido. Casas viram ruínas, cidades perdem o nome, vidas passam a ser contadas em números. Milhões de pessoas hoje carregam essa marca: foram forçadas a abandonar tudo para continuarem vivas. Mas quando se fala em migração forçada, muita coisa é imaginada de forma equivocada. Nem todos cruzam oceanos ou chegam a países distantes. A maioria foge para onde é possível. Um país vizinho. Uma outra região do mesmo território. Qualquer lugar que ofereça a chance de amanhecer vivo. Pelo caminho, seguem mães com crianças no colo, idosos cansados demais para entender por que precisam partir, jovens engolindo sonhos ainda inacabados. Não há garantias. Às vezes não há nem destino. Só a necessidade de seguir. Nos conflitos que não acabam, como os que hoje atingem o Sudão, a Ucrânia, Myanmar ou partes do Oriente Médio, a fuga deixa de ser temporária. Torna‑se permanente. Campos criados para durar meses passam a acolher gerações inteiras. Crianças nascem, crescem e aprendem a viver esperando. Esperam por uma escola melhor, por atendimento médico, por alguma perspectiva que não seja sobreviver mais um dia. Mesmo longe das bombas, a guerra continua ali, moldando silêncios e limitando futuros. Esse deslocamento em massa também revela um mundo profundamente desigual. Países já fragilizados acabam recebendo milhões de pessoas, muitas vezes sem estrutura e sem apoio suficiente. O Brasil já recebeu 454.165 pessoas que solicitaram asilo entre 2015 e 2024, segundo a agência da ONU para refugiados – ACNUR. Ainda não são dados oficiais, mas a estimativa em 2025 é que tivemos mais 75.599 novas solicitações de refúgio. Enquanto isso, cresce um discurso duro, frio, que transforma quem foge em ameaça, em problema, em incômodo. Como se alguém escolhesse deixar sua casa, sua história, sua língua e seus afetos por vontade própria. Migrar em meio à guerra é um gesto extremo. É escolher a vida quando tudo aponta para a morte. É tentar proteger quem se ama quando nenhuma proteção parece suficiente. Chamar isso de “crise migratória” não dá conta do que realmente está em jogo. Não se trata apenas de fronteiras, documentos ou números. Trata‑se de pessoas e de tudo o que elas perdem no caminho. Humanizar esse debate é lembrar que fronteiras não anulam direitos. Que acolher não é favor, é responsabilidade. É reconhecer que a forma como olhamos para quem foge da guerra revela muito mais sobre nós do que sobre eles. Em um mundo onde conflitos se estendem por anos e a violência parece cada vez mais banalizada, talvez a pergunta mais importante seja simples e desconfortável: quanta humanidade ainda somos capazes de sustentar diante da dor do outro?



