A transformação do design de interiores na era pós-locação temporária
Como a queda na demanda por imóveis instagramáveis está resgatando identidade, aconchego e pertencimento nos espaços residenciais
Após anos de boom dos imóveis pensados exclusivamente para locação temporária, o mercado começa a dar sinais claros de desaceleração. Em São Paulo, os lançamentos desse tipo de empreendimento caíram cerca de 82% em menos de quatro anos, segundo dados da consultoria de inteligência Brain.
O movimento, que à primeira vista impacta investidores e incorporadoras, já provoca mudanças profundas na forma como arquitetos e designers projetam interiores. Especialmente em casas de férias e nos imóveis destinados a estadias curtas.
A transformação é global, e o debate já existe no cenário internacional. Na última edição do Salone del Mobile Milano, esse tema veio à tona em conjunto com outras pautas como pertencimento, longevidade, sustentabilidade e design como narrativa real.
Estamos saindo do imóvel instagramável, neutro e padronizado, pensado para agradar todo mundo, para voltar ao espaço com identidade, permanência e experiência de vida. A ideia hoje é se sentir morando no lugar, criar memórias, mesmo que você esteja só de passagem.
O modelo anterior privilegiava cenografia e rotatividade. Era um design pensado para fotografia e alta troca de hóspedes. Funcionava como vitrine: bonito, neutro e facilmente replicável. Agora, o foco volta a ser o uso real do espaço.
Entre as principais mudanças na volta do “morar de verdade” (ainda que por poucos dias), está a priorização por móveis feitos para durar, resistentes para o uso real do dia a dia e com design atemporal e com personalidade. Percebemos que as pessoas querem viver a experiência de pertencimento.
O novo momento não significa abandonar a locação temporária, mas repensar sua lógica, criar novos caminhos para atender à demanda do público. Saem de cena layouts mais engessados, e entram projetos com maior criatividade. Dentro dessa mesma lógica, o minimalismo, antes celebrado e reverenciado, dá espaço a ambientes com mais cor, textura e emoção.
Outro ponto importante é a iluminação, que, durante muito tempo foi pensada como elemento cenográfico, voltado para o impacto visual e não para o aconchego. Nesta nova realidade mercadológica, ela volta a assumir o papel principal no conforto e na criação de uma atmosfera convidativa. Não é novidade que a luz amarela (2700K-3000K) é mais confortável ao olhar, enquanto a luz branca fria (>4000K) estimula e deixa o ambiente mais ativo. O problema é quando toda a casa é pensada apenas com foco no efeito visual. Hoje buscamos equilíbrio, com diferentes temperaturas de cor ao longo do espaço, respeitando os momentos de uso.
O hóspede quer abrir uma gaveta funcional, ter onde guardar a mala, sentir que pode ocupar aquele espaço com naturalidade. A experiência precisa ser fluida, real e criar memórias para sempre.
Se antes o foco estava na imagem perfeita para as redes sociais, agora o conceito dinamarquês de hygge ajuda a traduzir essa nova busca por pertencimento e permanência, mesmo em estadias curtas. Sem tradução literal, o termo está associado à sensação de conforto, acolhimento e bem-estar nos pequenos momentos cotidianos.
O hygge fala sobre intimidade e presença, mas também sobre luz natural, mistura de texturas, memórias afetivas e uma relação íntima da pessoa com o ambiente. Não se trata de copiar a estética escandinava, mas de incorporar o princípio do aconchego à realidade tropical, criando ambientes que convidam à permanência e ao uso verdadeiro do espaço, criando momentos onde a sensação de férias seja permanente.
O segmento, que antes priorizava neutralidade, cenografia e alta rotatividade dá lugar a espaços mais afetivos, com camadas de cor, iluminação bem pensada e soluções funcionais que estimulam a vida feita no cotidiano. É o ambiente para ser vivido, e não apenas postado.
Por Priscila Poli
designer de interiores e especialista em casas de férias à frente da Casamar
Artigo de opinião



