Quando os vícios de linguagem revelam inseguranças ocultas na comunicação

Entenda por que focar apenas em eliminar “nés” e repetições pode esconder o verdadeiro desafio emocional ao falar em público

O público não está contando seus “nés”. Está sentindo o que você sente.

Quando perguntei à Ana qual era o maior desafio de comunicação e oratória que ela enfrentava, ouvi a voz de uma mulher tensa: “Tenho muito vício de linguagem. Às vezes eu falo e depois fico pensando se poderia ter usado uma palavra melhor.”

A Ana não está sozinha. Ao conduzir processos com ela e com dezenas de outros profissionais nos últimos anos, fica cada vez mais claro: o pedido técnico quase sempre esconde um problema emocional.

Quando alguém busca ajuda para “melhorar os vícios de linguagem”, raramente está, de fato, preocupado em eliminar “nés”, “e aí” ou outras repetições.

Então por que os vícios aparecem tanto como tema central?

Primeiro, porque é mais confortável nomear um problema técnico, “controlável”, do que encarar o problema principal, que costuma ser mais profundo e emocional.

Segundo, porque vícios de linguagem existem, a repetição incomoda, e falar sobre isso é uma estratégia de engajamento fácil para vídeos curtos no Instagram e no TikTok. Você consome, encontra um nome para o seu “problema de comunicação” e passa a acreditar nessa explicação como se fosse a causa.

Ainda bem que o papel de um professor, de uma liderança ou, no meu caso, de uma mentora, não é só entregar respostas prontas. É também fazer pensar e ajudar a traduzir sentimentos em palavras.

O que você está realmente dizendo?

Na maioria das vezes, vícios de linguagem são consequência de tensão, autocensura, tentativa de acertar e medo de “falar errado”. Se você tratar apenas os vícios, o travamento por medo de exposição e julgamento continua.

A anatomia do bloqueio costuma funcionar assim: você sabe que precisa se expor (em vídeo, reunião, apresentação); o medo do julgamento aumenta; a autocensura entra em cena; a tensão aparece na fala; os vícios surgem; você se cobra ainda mais; e o ciclo recomeça.

O público não contou seus “nés”. Mas sentiu a insegurança.

De acordo com o artigo “How to Overcome Your Fear of Speaking Up in Meetings”, publicado na Harvard Business Review, é preciso entender o receio do julgamento como um sinal emocional, e não como um erro de linguagem.

O que fazer?

Em vez de contar vícios, observe em quais contextos eles aparecem. Quais situações aumentam sua tensão? Seus vícios estão pedindo confirmação? Estão “comprando tempo” para evitar o erro? Você está tentando gerar valor ou provar valor em público?

Outra medida urgente é trabalhar a estrutura mental que aumenta a clareza antes de falar. Quanto mais clareza, menos ansiedade. E menos ansiedade reduz a necessidade de se “ancorar” em vícios.

Os autores do artigo da Harvard Business Review sugerem reformular o pensamento de: “Minha ideia não está pronta ou eu posso errar” para: “Minha ideia pode ser um ponto de partida útil para o grupo.”

Essa mudança de foco transforma a fala: ela deixa de ser prova de competência e vira contribuição. E quando a fala vira contribuição, o medo de julgamento perde força.

A pergunta correta não é: “Quantos ‘nés’ eu disse?”

A pergunta correta é: “Eu consegui transmitir a mensagem? As pessoas me entenderam? Eu estava presente ou estava me observando o tempo todo?”

No fim das contas, se você quer melhorar sua comunicação, precisa começar pelo lugar certo.

Não é a boca que precisa de treino: é a coragem de se expor sem pedir desculpas o tempo todo, e sem precisar provar valor a cada frase.

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Por Giovana Pedroso

TEDx Speaker, jornalista e especialista em comunicação; comunicadora há 16 anos, educadora e palestrante; atuou na afiliada da Globo em Santa Catarina; 2x TEDx Speaker; especialista em transformar conteúdos densos em experiências de aprendizagem; formada em Comunicação Social/Jornalismo; certificação em Comunicação Persuasiva pelo MIT; especialização em Gestão de Cooperativas pela USP; Neurociência do Comportamento pela PUCRS

Artigo de opinião

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