Carnaval e Corpo: Reflexões sobre Comparação e Autocrítica na Festa
Como a exposição ampliada durante o Carnaval pode impactar a relação com a própria imagem e a experiência corporal
O Carnaval mobiliza encontros, circulação em espaços públicos e exposição em redes sociais. Nesse contexto, imagens passam a ocupar o centro das interações e o corpo ganha visibilidade ampliada. A comparação tende a se intensificar e a percepção individual pode sofrer impacto.
Para a psicóloga Maria Klien, o ponto central não está na festa, mas na forma como cada pessoa passa a se enxergar. “Durante o Carnaval, o corpo deixa de ser apenas corpo e pode assumir o lugar de vitrine. A repetição de imagens com padrões específicos cria um campo de comparação contínua. A partir daí, muitas pessoas deixam de viver a experiência para administrar como estão sendo vistas”, afirma.
Segundo a especialista, a exposição constante favorece um deslocamento da percepção. O indivíduo passa a se observar como se estivesse diante de um espelho social permanente, avaliando medidas, formas e enquadramentos. Essa dinâmica pode alterar a maneira como a presença é construída nos espaços coletivos.
“Quando a comparação se instala, ocorre um movimento de distanciamento. A pessoa deixa de sentir o próprio corpo a partir da experiência interna e passa a analisá-lo sob critérios externos. Isso pode gerar vergonha, censura, restrição alimentar ou excesso de exercício como tentativa de alcançar um padrão que se desloca o tempo todo”, explica.
A lógica da autorização condicionada também se torna frequente nesse período. Expressões como esperar emagrecer, melhorar a aparência ou sentir segurança antes de participar de um evento passam a organizar decisões. Com isso, a vivência do momento é adiada.
“Escuto com frequência frases como ‘quando eu estiver melhor’ ou ‘quando eu emagrecer’. O problema é que essa autorização quase nunca chega, porque a comparação é construída sobre referências mutáveis. A régua muda, a exigência aumenta e a satisfação não se consolida”, destaca.
De acordo com Maria Klien, o impacto pode ultrapassar o campo estético e atingir a dimensão subjetiva. A autocrítica tende a se ampliar e o lazer deixa de cumprir a função de encontro para se transformar em espaço de avaliação.
“A relação com o corpo não se resolve por meio de ajuste de aparência. Ela se reorganiza quando a pessoa compreende por que o próprio olhar se tornou rígido. É necessário investigar se a insatisfação nasce de um desejo genuíno ou de pressão social e comercial que redefine padrões a cada temporada”, pontua Klien.
A psicóloga reforça que o Carnaval pode funcionar como oportunidade de reflexão. Ao identificar desconfortos, comparações e cobranças, torna-se possível rever critérios internos e recuperar a experiência corporal como espaço de presença, e não de julgamento.
“Se esse período intensifica autocrítica e comparação, talvez seja o momento de interromper o ciclo automático de avaliação. O corpo não precisa ser mediado por aprovação externa para participar de uma celebração. Reconhecer esse mecanismo é o primeiro passo para restituir autonomia à própria vivência”, conclui Maria Klien.
Por Maria Klien
Psicóloga, atua na investigação dos distúrbios ligados ao medo e à ansiedade; prática clínica integrando métodos tradicionais e complementares; empreendedora na área de recursos terapêuticos para saúde psíquica.
Artigo de opinião



