Compreender o TDAH é essencial para reduzir estigmas e promover inclusão escolar
Conhecer a condição e adotar práticas educativas adequadas transforma vidas e fortalece o desenvolvimento de crianças e jovens com TDAH
Nos últimos anos, o debate em torno do Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) passou a ser um tema amplamente discutido no Brasil e no mundo. Ainda assim, o estigma persiste, muitas vezes alimentado pela desinformação e pela dificuldade de compreender o que, de fato, caracteriza o transtorno.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o TDAH é uma condição que afeta o desenvolvimento do cérebro e pode dificultar a atenção, o controle de impulsos e a organização das ações do dia a dia. E segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), o número de pessoas com TDAH varia entre 5% e 8% no mundo. Além disso, estima-se que 70% das crianças com o transtorno apresentam outra comorbidade e pelo menos 10% apresentam três ou mais comorbidades.
O transtorno é muito mais comum do que muitas pessoas imaginam, porém, continua cercado por desinformação que atrapalham crianças, jovens e adultos no dia a dia, na escola e no trabalho. Quando a sociedade entende o que é de fato a condição, como ela se manifesta e quais estratégias realmente ajudam, o resultado vai além do cuidado clínico, reduz preconceitos, melhora o acesso ao suporte educacional e amplifica a chance de desenvolvimento pleno de cada pessoa.
O campo científico tem feito importantes progressos no entendimento e no tratamento do TDAH nos últimos anos. O cientista americano Russell A. Barkley, um dos principais nomes desse tema, destaca em seu trabalho a ligação direta entre o transtorno e a autorregulação, bem como o desempenho das funções executivas, que estão ligadas às habilidades cerebrais que nos permitem planejar, gerenciar emoções e manter a concentração. Barkley também enfatiza que é fundamental compreender o TDAH como uma diferença no desenvolvimento do autocontrole para evitar a ideia de que se trata de uma falha de caráter.
Já o psiquiatra Guilherme Polanczyk, da Universidade de São Paulo (USP), lidera pesquisas sobre a proporção e o impacto do transtorno na infância. Ele observa que o diagnóstico correto ainda é um desafio, tanto no sistema público de saúde quanto na identificação dentro do contexto escolar, que muitas vezes carecem de formação adequada para lidar com o transtorno.
Segundo Polanczyk, o TDAH deve ser compreendido como um desafio de saúde pública, não apenas porque atinge cerca de 5% das crianças, mas porque, sem diagnóstico e apoio, pode trazer consequências que se estendem por toda a vida. Essa visão reforça o importante papel das escolas, que costumam ser o primeiro ambiente onde os sinais aparecem e, infelizmente, também onde surgem os preconceitos.
Ainda há muito a ser debatido sobre o assunto, e essa falta de entendimento não só dificulta o aprendizado, mas também afeta a autoestima e pode gerar sofrimento emocional ao longo do tempo.
Atualmente, existe um ponto em comum entre os especialistas, de que o acompanhamento deve ser personalizado e multidimensional. Em certos casos, a utilização de medicamentos é sugerida, mas deve ser combinada com psicoterapia e outras técnicas e recursos ambientais. Barkley enfatiza que o sucesso para minimizar comportamentos do TDAH, que impactam na qualidade de vida do indivíduo, não se baseia apenas no tratamento médico, mas também em um ambiente que entenda e respeite as especificidades de quem tem TDAH. Na mesma direção, pesquisas de Polanczyk indicam que o suporte familiar e escolar afeta diretamente a progressão dos sintomas e o desempenho acadêmico, tanto para os casos de sucesso em que há o suporte adequado, como nos casos em que a criança ou adolescente é prejudicado pela omissão de acompanhamento próximo de intervenções pela escola e, principalmente, da família. A família é o núcleo essencial para que esse indivíduo tenha sucesso em seu desenvolvimento, por isso, ela não deve subestimar a capacidade do estudante ou protegê-lo dos desafios naturais e necessários do contexto escolar ou de vida, ambos fundamentais para a parceria de sucesso com a escola.
Como educadora, acredito que compreender o transtorno é um ato de responsabilidade social, mas é preciso, acima de tudo, conhecer o indivíduo, pois ele carrega uma história de vida única. Professores, famílias e comunicadores têm papel fundamental na redução do estigma e isso começa pela linguagem. Palavras moldam percepções. Quando substituímos o rótulo pela escuta e o julgamento pelo apoio, abrimos espaço para novas possibilidades.
Crianças e jovens precisam de um olhar singular para o seu desenvolvimento, reconhecendo suas potencialidades, proporcionando estratégias adequadas e oportunidades reais para aprender e viver com autonomia.
Escola e gestão inclusiva
Uma gestão escolar que valorize a inclusão precisa ir além das palavras e deve oferecer condições reais de aprendizagem para todos. Isso inclui a capacitação contínua dos professores, a reestruturação pedagógica e a revisão das práticas de avaliação, para que cada aluno possa melhorar seu potencial de maneira completa.
O pesquisador brasileiro Guilherme Polanczyk afirma que “a escola pode ser tanto o gatilho da exclusão quanto o ambiente da transformação”. Essa frase reafirma a função estratégica da instituição: detectar sinais para que possam indicar profissionais capacitados para realizar um diagnóstico multidisciplinar e, juntos, criarem estratégias colaborativas visando o pleno desenvolvimento da criança ou do adolescente. Adaptações simples no contexto escolar, como dividir tarefas em etapas menores, fornecer instruções claras e visuais, garantir intervalos curtos para reorganização da atenção e flexibilizar prazos, não são “privilégios”, e sim ajustes pedagógicos baseados em evidências. Claro que cada indivíduo com TDAH apresentará uma (ou um conjunto de) necessidade específica, por isso, as estratégias podem ser diferentes para cada caso. Nesse sentido, é importante registrar as ações que serão implementadas, visando sempre o desenvolvimento da autonomia desse aluno, para que, no futuro, as características do transtorno possam ser minimizadas trazendo qualidade de vida para além da escola.
Quando os professores são capacitados, conseguem reconhecer sinais e, possivelmente, diferenciar que não são características decorrentes apenas do contexto ambiental, assim, podem intervir utilizando estratégias que realmente funcionam para os alunos que possuem esse transtorno em sala de aula. Ainda, ao investir em capacitações, gestores não apenas fortalecem o processo de aprendizagem desses estudantes, mas também promovem um clima escolar mais acolhedor, saudável e colaborativo para todos, pois estratégias voltadas para os estudantes com TDAH podem beneficiar um planejamento mais inclusivo para todos dentro do contexto da sala de aula que se apresenta tão diversa para qualquer faixa etária.
Uma escola inclusiva entende que a diversidade cognitiva faz parte da vida real e que o papel do educador é criar pontes, não barreiras. Incluir vai muito além de aceitar a presença do aluno com TDAH. É garantir que ele permaneça, seja desafiado a aprender (e com qualidade) cada vez mais e supere suas dificuldades e angústias que podem ter surgido após tentativas anteriormente frustradas. Isso exige política pública, sensibilidade e conhecimento científico. Acima de tudo, requer uma gestão escolar disposta a enxergar o estudante para além do diagnóstico, como alguém que aprende e tem potencial para desenvolver-se.
Por Jéssica Harume Dias Muto
doutora em Educação Especial, analista pedagógica da Arco Educação
Artigo de opinião



