Por que fiz isto?

Por Ronaldo Rangel Cruz

“Por que eu fiz isto?” ou “Por que eu disse aquilo?” Enfim, não é raro sermos surpreendidos por nossas ações. Mas o que será que acontece conosco, que nos faz realizar estes atos tão estranhos para nós mesmos?

Dependendo da nossa base reflexiva podemos buscar e encontrar diversas respostas. Algumas respostas com ares mais filosóficos, outras mais místicas, e sem dúvidas, muitas tendo linhas da psicologia como orientação. Neste breve trabalho não será possível abordar todas as linhas ou mesmo as mais conhecidas, mas gostaria de provocar uma reflexão em você que está lendo este texto, tomando como base a teoria dos Esquemas interpretativos. Tentaremos assim, modestamente, auxiliar na construção da resposta a pergunta título.

Vamos lá, quando percebemos nossas ações concretas ou nossas palavras, o que estamos observando, são nossos comportamentos e como diz o ditado “aí o leite já foi derramado”, podemos apenas contemplar e pensar nas consequências dos tais comportamentos, sejam positivos ou negativos. Mas de onde nascem estes comportamentos? Estes comportamentos são oriundos de uma tomada de decisão (nossa decisão). A questão é por que decidimos (mesmo que de forma inconsciente) agir de determinada forma? Neste caso a resposta encontra-se no Esquema Interpretativo. Para entender melhor pode-se dizer que é como vemos o mundo que nos cerca, em uma linguagem metafórica, são os óculos que usamos. Podemos enxergar o mundo de várias formas, otimista, pessimista, agressivo, cheio de oportunidades ou de qualquer outra maneira.

Quando enxergamos o mundo de uma forma ou de outra, isto não ocorre por mero acaso, é o resultado de toda a nossa construção como seres humanos, que nasce a partir de dois elementos extremamente importantes e fortes. O primeiro são os nossos mapas mentais, que podemos entender como nossos valores, princípios, crenças ou fé. Estes são passados para nós desde o nosso nascimento, pela família, escola, igreja ou qualquer outra instituição social. São chamados mapas mentais, pois funcionam como se fossem ruas ou avenidas em nossos pensamentos, desta forma tendemos a seguir sempre pelas mesmas ruas ou avenidas, aquelas que já conhecemos ou confiamos. Raramente arriscamos novos caminhos, novas incertezas. De uma forma muito simplista podemos dizer que “pensamos“ sempre do mesmo jeito.

Mas se pensamos sempre do mesmo jeito, como podemos nos surpreender ainda? Ao menos por duas questões, ou porque não nos percebemos em nossas ações, e sendo assim às vezes nos surpreendemos com nossas novidades, embora de fato não são novidades, nós é que não nos percebemos ou nos enxergamos nelas. Ou pelo segundo elemento ao qual nos referimos anteriormente, junto com os mapas mentais, que são as Redes Sociais. Não as do mundo digital, que neste caso são apenas ferramentas, mas sim as reais relações sociais que firmamos e vivemos em nossos cotidianos. Amigos, amores, líderes ou filhos entre outros, em outras palavras os vínculos que construímos.

Estes vínculos podem ser mais fortes ou menos fortes. Quanto mais fortes os vínculos maior a capacidade de influência entre as pessoas que estão vinculadas. Esta influência favorece a flexibilização ou mesmo possíveis alterações nos mapas mentais, fazendo com que as pessoas passem a interpretar o mundo de uma forma diferente de como era interpretado antes das novas redes ou relações sociais. Daí o formato surpreendente que nossos comportamentos podem assumir, escapando ao nosso pseudo controle ou conhecimento prévio. Como nossos pensamentos começam a passar por novas “ruas”, ainda desconhecidas ou ao menos pouco conhecidas para nós, nossos comportamentos mostram-se estranhos, como se não fossem nossos.

Neste sentido podemos responder à pergunta título do texto da seguinte forma, “agimos assim porque enxergamos o mundo da seguinte forma…., e a partir do que acreditamos e sob influência de quem valorizamos, isto me pareceu a coisa certa a fazer ou dizer”. Sempre fazemos o nosso melhor possível, ao menos possível naquele momento.

Ronaldo Rangel Cruz – coordenador do curso de Psicologia da Estácio Curitiba

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