Validação, amor romântico e outras historinhas sociais

por Suellen Alves

Quanto mais esclarecidas nós mulheres estamos, mais diminui a crença no amor romântico. Tanto nos ensinou a eterna Bell Hooks, nos ensina Regina Navarro em sua longa pesquisa sobre o amor romântico, Rita Von Hunty no youtube trazendo tantas questões politicas que nos esclarecem, Bauman que tanto se aprofundou nestas relações superficiais e cunhou o termo “Amor liquido” que nos abraça no século XXI, páginas e mais páginas debatendo as relações. Bauman que estava certo, amores líquidos e pesados.

Aparentemente tanto já se falou sobre isso, mas que trabalho da porra de tirar do inconsciente coletivo esta história de felizes para sempre, não tem sido fácil manter o romantismo e pior ainda, se livrar dele.

A gente romantiza tudo!

De migalhas da Internet a gentileza e educação, o que deveria ser o mínimo, se torna “grandes coisas”. Como lindamente diz minha amiga: Acostume-se a ser bem tratada.

Me vejo assim, rodeada de mulheres incríveis, se sentindo inadequadas por não ter um homem ao lado, que fique claro, aqui me refiro as héteras, porque diferente do que os fanáticos acreditam, se fosse opção ninguém gostava de homem. Brincadeiras a parte, não tenho nada contra homens, tenho até amigos que são…!

A masculinidade foi construída de uma maneira tão perversa e tão tóxica que apesar de toda a movimentação para mudar essa história e claro, destruir o patriarcado, parece que a validação social só vem de duas maneiras: Sucesso profissional (e sucesso aqui é sim sobre dinheiros) e um homem ao lado.

Mas, aquém disso, tem o nosso próprio olhar sobre nós mesmas, conversando com minha amiga irmã, chegamos a conclusão que nos sentimos mais seguras com um homem ao lado, isso implica diretamente no respeito que recebemos socialmente e reflete na maneira como nos relacionamos, uma necessidade de ser amada ou uma necessidade de validação? Nunca sei responder as perguntas que faço a mim mesma.

Estive em uma relação por quase 12 anos e por mais difícil que pudesse ser a convivência, batia forte no meu peito a ideia de “ruim com ele, pior sem ele”, após a separação, mudei de estado e de vida, meu ex casou e rapidamente se tornou pai, e — apesar de muito feliz por ele genuinamente —  tanto tempo depois ainda carrego uma certa culpa que insiste em me dizer que não me esforcei o suficiente para aquela relação dar certo, veja, quase 12 anos, o que é dar certo? Uma relação abusiva e tóxica, onde parecem que o peso sempre cai sobre as coisas boas. Tudo bem que já li por aí que o cérebro apaga “traumas” Bem estre aspas, porque senão ficasse ali no subconsciente, ninguém precisaria de terapia.

Obviamente falo por mim, mas me questiono constantemente se eu realmente estaria mais feliz dentro de uma família tradicional brasileira, mesmo sabendo que a família é uma instituição falida e entendam: Eu venho de uma FTB maravilhosa, onde sempre existiu sim muito amor e respeito, onde a presença paterna na minha vida elevou tanto minha régua que ninguém jamais será bom o suficiente, o que não impede nossas raízes firmes e fortes no patriarcado e reconheço todas as limitações de vivências que me foi colocado devido a isso. Podia sim me aventurar, se eu tivesse em mente sempre, que experimentar a existência, seria até a página 2.

Optei por minha liberdade depois de muita reflexão e relações fracassadas e me vejo cantarolando pagode dos anos 90 “O que eu vou fazer com essa tal liberdade?”. Ah, eu não tenho essas respostas, aliás eu sou um poço sem fundo de perguntas, porem, o amor romântico fica ali, gerando ansiedade, tolhendo a capacidade de aproveitar o agora e imaginando a casinha, com bebês e cachorros… Puta trabalho, eu sei, não dou conta nem de mim, mas o desejo tá ali… Ele, o amor romântico soprando no meu ouvido que aquele cara de quase 40 anos que mora com a mãe tem um ótimo perfil para amor da vida, ou aquele outro que tem uma vida baseada no caos, pode ser um ótimo pai de família… é quase infantil, mas por sorte, elas estão por aí, estas mulheres incríveis e autossuficientes que já entenderam que nada disso é fundamental, e a cada dia nos ajudam a viver esta experiência linda e sofrida, que é ser uma mulher sozinha no mundo!

É triste ver mulheres tão incríveis, empoderadas, independentes que se contentam com tão pouco, com homens sem iniciativa, nem responsabilidade emocional, mentiras, manipulações e confusões mentais, homens tão imaturos que me pergunto sempre, até quando a sociedade vai nos tratar como seres menores e até quando vamos tentar educar esses homens para satisfazer uma necessidade romântica ultrapassada que nos deixa tão inseguras e nos faz tão infeliz?

Respostas que não tenho e sinto muito pelo que poderia ser e nunca é!

Não aceito as culpas que a sociedade nos impõe, não aceito o papel da cuidadora de homens que se recusam a crescer.

Tento manter os pés no chão, respirando fundo em busca de equilíbrio e como diz outra amiga: E se a vida for isso mesmo? Estar sozinha não significa ser só, quando a gente se preenche de si mesma a experiência se torna mais leve e deveria tá tudo bem assim… Mas só quem é passional, que mergulha fundo é que sabe e que sente, finalizando mais um texto com a questão: Será que um dia a gente se livra da necessidade do amor romântico? Quem sabe um dia…

E quanto a mim, sigo tentando encontrar o grande amor da minha vida… Eu mesma!

 

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