Até Breve

Fui ali parir e já volto

 

Para ler ouvindo: Ocitocina – Céu 

 

Prestes a iniciar o nono mês da gestação de Marina, aproveito a linda e emblemática marca de 40 textos para esta coluna que amo para lhes dizer “até breve”. Estou me autoconcedendo licença maternidade e completamente em paz com minhas escolhas. Sou do tipo de pessoa que diz “não posso e nem quero dar conta de tudo” e de repente, quando menos percebo, já abracei o mundo. O que tem mudado com a idade e o amadurecimento é que ao invés de simplesmente lamentar e me sentir exausta, rapidamente tomo providências em prol de mim mesma, especialmente quando envolve a saúde mental – a minha e a dos que me cercam. Estou bem, diga-se de passagem, mas combinei com minha filha que o último mês desta maravilhosa jornada que é gestar seria dedicado apenas a, literalmente, esperar bebê. A partir de agora, vou unir todas as minhas forças para o maior e mais importante evento da natureza: meu parto – o qual espero com profundo respeito, algum conhecimento e entrega incondicional.

Estive pensando em como me despedir brevemente e fui tocada pelo atual livro que estou lendo: “Carta à minha filha”, da escritora, poetisa e uma das mais importantes ativistas dos Estados Unidos, Maya Angelou. Assim como para Simone de Beauvoir que nos diz “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, estou aqui me tornando cada vez mais mulher e mãe. A maternidade é também uma conquista diária que além de profundas mudanças nos coloca frente a frente com inúmeros desafios, a maioria deles impostos por uma sociedade cruel e impositora (pra não dizer “cagadora de regras” que na maioria das vezes apenas nos levam a ter crises de ansiedade, nada mais).

Em nota: não é uma leitura sobre maternidade. Trata-se do relato franco e caloroso de uma mãe que abre seu coração para uma possível filha, estabelecendo um diálogo de mulher para mulher.

“Querida filha,

Esta carta levou um tempo enorme para se formar. Durante todo esse tempo eu soube que queria lhe contar algumas lições que aprendi e em que condições aprendi.

Minha vida está sendo longa e, acreditando que a vida ama quem a vive, ousei tentar muitas coisas – às vezes tremendo, mas ainda assim ousando. Só incluí aqui fatos e lições que considerei úteis. Não contei de que modo usei as soluções, pois sei que você é inteligente, criativa e cheia de recursos, e que as usará como lhe convier.

Você encontrará neste livro relatos sobre amadurecimento, emergências, uns poucos poemas, algumas histórias leves para fazê-la sorrir e algumas para fazê-la meditar.

Houve gente na minha vida que teve boa vontade comigo e me ensinou lições valiosas, e houve quem tivesse má vontade e me desse inúmeros avisos de que meu mundo não seria feito apenas de pêssegos e creme.

Cometi muitos erros e, sem dúvida, ainda cometerei outros antes de morrer. Quando vi dor, quando descobri que minha incompetência havia provocado insatisfação, aprendi a aceitar minha responsabilidade e a me perdoar primeiro e, depois, me desculpar com quem tivesse sido magoado por meus erros. Como não posso desviar a história e como o arrependimento é tudo o que posso oferecer a Deus, tenho esperança de que minhas sinceras desculpas sejam aceitas.

Você não pode controlar os fatos que acontecem em sua vida, mas pode decidir não ser diminuída por eles. Tente ser um arco-íris na nuvem de alguém. Não se queixe. Faça todo o esforço possível para modificar aquilo que não gosta. Se não puder mudar algo, mude a maneira como pensa. Talvez você encontre uma nova solução.

Nunca se lamente. Lamentos fazem com que um animal saiba que há uma vítima nas imediações.

Tenha a certeza de que não vai morrer sem ter feito algo maravilhoso pela humanidade.

Eu dei à luz a uma criança, um filho, mas tenho milhares de filhas. Vocês são negras e brancas, judias e muçulmanas, asiáticas, falantes de espanhol, nativas da América e das Ilhas Aleutas. Vocês são gordas e magras, lindas e feias, gays e héteros, cultas e iletradas, e estou falando com todas vocês. Eis aqui minha oferenda.”

(ANGELOU, MAYA, 2008, p. 14)

Até breve!

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