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Minha casa é um ninho

por Patricia Pavloski

Para ler ouvindo: Emicida – Passarinhos ft. Vanessa Da Mata

 

Nunca se falou tanto em CASA como nesta pandemia. Ficar em casa. A importância disso se tornou um mantra, da ciência à religião com responsabilidade. Para quem tem o privilégio de ter um LAR, a dura missão está sendo um pouco mais fácil. Um barco melhor ajuda muito durante a dura tempestade. Peço licença para na coluna de hoje falar do meu reduto de paz em meio ao caos e que, mesmo antes dessa quarentena interminável começar, já abrigava todo tipo de sonho. Para ser bem exata, um canto no mundo que há 10 anos posso chamar de meu. Até chegar aqui, trouxe comigo um repertório lindo que foi se transformando e abriga tudo o que eu tenho de mais precioso. Um relicário desta que escreve e chora emocionada.

Não são apenas paredes, mas anos de histórias moldadas, enquadradas e constantemente aperfeiçoadas. Uma família que começou em dois e que agora já são quatro. Que tem brinquedo por todo canto, pêlo da Lua por todo canto. Agitação desde cedo, latidos, barulho de TV e chiado da panela de pressão. Em breve, choro de bebê de volta. Uma sinfonia que percebo intimamente como o som da minha vida. Sinto um chutinho enquanto escrevo e observo à frente sob a perspectiva do meu barrigão enquanto o café fresquinho está sendo passado. Busco silêncio, com algum esforço acho e logo volto com saudades.

Tem janelas que, na maior parte do tempo, se abrem para o cotidiano pacato de um condomínio. Porém, voltam-se para dentro no ritual de abrí-las suavemente todas as manhãs, no ver o sol, a chuva e sentir o vento. Fecho os olhos, respiro profundamente e agradeço. Temos grades que nos blindam da insegurança externa, mas aqui de dentro o porto-seguro é certo. Tão preciso que nos acolhe em mil por cento de contento.

Uma cozinha completa, repleta de eletrodomésticos que facilitam a rotina não seria nada mal. Bem que eu gostaria, mas é no trivial preparado com amor e carinho que nutrimos a alma e o organismo. Claro que no dia a dia atribulado nem sempre é um prazer cozinhar, mas nos esforçamos para que a comida que não falta e, sobretudo, as refeições nos saciem, mas também nos unam em gratidão. Alimento preparado com sentimento ruim fica insosso, enche a barriga e passa longe do coração. A sorte é que também tem plano B: o parceiro que cozinha tanto quanto ou o app.

Não é novo, mas é o melhor colchão da face da terra; noites bem dormidas é nosso lema; berço que virou minicama e fica no quarto do casal, porque filho cresce e sai da asa, pra que apressar o que é tão legal?! Luzinha de luminária até o menino pegar no sono, leitura sagrada antes de dormir e mãozinha dada que é quase colo. De domingo a domingo, a oração pra acalmar a mente e dizer obrigado. Um ou outro que dorme no meio e se enrola todo nas palavras. Sorte que em três fica tudo mais fácil. Imagina quando for em quatro. Sempre igual, sempre especial.

Cheiro de roupa lavada estendida no varal. Dá trabalho, é claro, mas o que nessa existência num dá? Alguém teria que lavar, senão a mãe e o pai ter dinheiro pra pagar. Montes de uns prontos pra criticar, seja de que lado você está. No fim das contas, ao fazer pra família a recompensa aí está. Por eles vale a pena, ou quem de fato sobrará? Reclamações em tom de bossa, elogios na mesma medida. Um vai e vem danado de alegria mesmo ao longo da tortuosa travessia.

Ter de onde sair, um lugar para voltar, o travesseiro quentinho pra recostar. Estou aqui de corpo e alma criando memórias afetivas para a nova geração. Aromas, momentos, exemplos, texturas e sensações. Experiências, desafios, atribulações. Penso eu estar oferecendo, mas na verdade estou lucrando. Não passa uma prosa sem que eu veja sentido, mesmo quando ele me falta. Preenche, completa. Enlouquece, desperta. Movimenta a ponto de abrir caminhos e fechar portas. Pouco ou nada de arrependimento. Ampliar horizontes, mesmo que eles não sejam os meus. Desprendimento afetuoso. Apego saudável. Cuidar e ser cuidada. Gostar do sossego, do simples. 

De encontrar a felicidade nas horinhas de descuido do poeta. De fazer nosso ninho aqui neste endereço ou ali e em qualquer lugar. Sobre SER morada.

 

Até a próxima!

 

 

Importante
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