A arte de prestar atenção em tudo e em nada ao mesmo tempo – Afina Menina – Um Portal para todas Nós

A arte de prestar atenção em tudo e em nada ao mesmo tempo

por Marjorie Rodrigues Wanderley

De todas as funções cognitivas presentes no repertório do ser humano, a atenção talvez seja uma das que mais ganha destaque – e não é à toa, tudo o que fazemos exige nossa atenção, e esta é continuamente alternada entre nossos diversos afazeres. Frequentemente dizemos “não estava prestando atenção”, ou “minha atenção está dispersa hoje”, ou mesmo “tenho dificuldade de prestar atenção”, e o que isso significa? Será que é possível simplesmente não prestar atenção em nada?

Em termos de circuitos cerebrais, diferentes tipos de atenção se configuram de formas diferentes – existe a atenção concentrada, alternada, dividida, dentre outras. O que acontece, muitas vezes, é que existe muita competição pela nossa atenção, que fica dividida entre diversos estímulos, nos dando a sensação de que não estamos prestando atenção em nada quando estamos, na verdade, prestando atenção em muitas coisas ao mesmo tempo.

Quando pensamos na forma como nossa vida é em um cenário tecnológico, fica clara essa competição de estímulos – diversas telas simultâneas, pessoas falando, notificações aparecendo e exigindo o tempo todo que nossa atenção não fique focada somente em uma coisa.

É difícil perceber a quantidade de estímulos que lutam pela nossa atenção a cada minuto. Vamos levar em consideração somente nosso celular. Lembre-se da última vez em que você estava conversando com alguém e olhando para o celular ao mesmo tempo. Você consegue lembrar do que aquela pessoa estava falando?

Podemos ter a falsa sensação de que é possível prestar total atenção em algo que estamos vendo e em algo que estamos ouvindo ao mesmo tempo, e dessa forma conseguiríamos focar no celular e na conversa com qualidade.

No entanto, o que acontece é que o celular e a pessoa com quem estamos são estímulos concorrentes, e se tentamos prestar atenção nos dois ao mesmo tempo, perdemos a qualidade de atenção em ambos.

Vamos supor que a pessoa estivesse falando com você, você estivesse rolando o feed de alguma rede social, e ao mesmo tempo estivessem aparecendo notificações de outras conversas.

É como se cada uma dessas notificações fosse uma pessoa cutucando seu ombro e solicitando o foco de sua atenção muitas vezes no mesmo minuto. Portanto, a sensação de que conseguimos prestar atenção a tudo isso é falsa.

E no meio de tudo isso, como fica nossa atenção a nós mesmos? Quando temos diversos estímulos lutando pela nossa atenção a cada instante, conseguimos prestar atenção ao nosso corpo, nossa respiração, sono, fome, dores e sensações corporais de prazer? Conseguimos perceber o que nosso corpo está nos comunicando? Toda a filosofia do mindfulness, ou seja, atenção plena, foca justamente nesse ponto, nos ensinando que a única realidade que existe é aquela que acontece no aqui e agora, no nosso corpo, tendo nossa respiração como uma âncora para o momento presente.

Dessa forma, conseguimos nos conectar às nossas reais necessidades e compreender o que cada momento exige de nós – se é pressa, calma, aceleração ou pausa. Quando prestamos plena atenção em nós mesmos, e somente em nós mesmos, encontramos as respostas que precisamos a cada momento, lembrando que não existe nada permanente, tudo o que temos é o que está acontecendo agora. Então eu te pergunto: O que está acontecendo de verdadeiro neste exato momento?

Marjorie Rodrigues Wanderley, psicóloga, professora da Estácio Curitiba, Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Federal do Paraná

 

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