Carta para minha mãe

“Você tem alguma cicatriz, Charlie Brown?

Tenho muitas!

Mas são todas mentais!”

Charlie Brown – 1979

Inspirada pela Constelação que fiz essa semana com a minha querida Ana, da Consonare, e colunista aqui do Afina Menina, decidi que iria procurar a minha mãe.

Para quem não sabe, não falo com ela há 11 anos, desde que meu pai faleceu. Essa carta é um primeiro passo…

Nossa jornada juntas, minha e dela, foi marcada por conflitos desde que me conheço por gente.
Nunca me dei bem com a minha mãe e parece que ela também nunca fez questão de ter um bom relacionamento comigo. Me senti à margem a vida toda, sempre sendo motivo de comparação com os outros.

Para minha mãe, todos eram ótimos, bons, bonitos, inteligentes, menos eu… E eu passei boa parte da minha vida tentando provar a ela que eu era boa em algo.

Fui uma das melhores alunas na faculdade, depois de dar certo trabalho no ensino médio – mas que fique registrado que nunca repeti de ano; fui a filha a concluir a graduação com menor idade entre as minhas irmãs, não usei drogas, não engravidei na adolescência, mas parecia que quanto mais eu fizesse, menos ela me via, então, mãe (como é difícil para mim dizer essa palavra) se você estiver lendo, essa imensa carta é para você!

Carta para minha mãe

♬ (Leia ouvindo: Eu apenas queria que você soubesse – Gonzaguinha) ♬ [sc_embed_player fileurl=”https://afinamenina.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Gonzaguinha-Eu-apenas-queria-que-voce-soubesse-_vd.agenciadcp.jor_.br_.webm”]

Certa vez, li num livro que quando a morte leva a mãe da gente, rouba essa palavra (mãe) pra sempre… A minha foi levada pela vida… E ainda vive…

Sabe mãe, eu nem sei exatamente por onde começar essa carta… São 11 anos que nos separam, e certamente nós não somos as mesmas pessoas que deixamos lá atrás, na missa de sétimo dia do pai, que foi a última vez que nos falamos com certo respeito e distanciamento.

Sinto que a gente nunca foi muito próxima, e isso você pode confirmar… Lembro que uma vez, quando pequena, pedi ao pai para me levar para conhecer a minha “mãe de verdade” porque sentia que de certa forma, você me odiava…

Eu tentava ser boa, mas para você, nunca era o suficiente…

Quando você e o pai se separaram, eu tinha seis anos, e desde então, a Chica* assumiu o papel dele, e de repente, você terceirizou tudo para ela, e eu me sentia cada vez mais desprotegida. Foi uma vida em que eu apanhava dela na rua, em casa, na frente das visitas, sempre com a sua anuência, e isso me fez ter muita raiva de você!

Como você podia ser tão permissiva assim? Eu te odiei por isso.

O tempo passou, e eu pedi diariamente que ele que passasse mais e mais rápido pra que aquele martírio todo acabasse. Talvez você não se lembre das proibições que junto com a Chica* você me impôs.

Me proibiu por um tempo de ver a minha avó, de ver o meu pai e eu tinha que escrever cartas para o pai, que eram entregues pela Patrícia, vizinha (lembra dela?). Eu escrevia, jogava pelo muro, e ela ia até a casa da vó e as jogava pela janela do banheiro para que o pai as lesse no fim do dia. Eu ainda guardo todas elas. Eu tinha 14 anos…

Você nunca aprovou as minhas escolhas, mas eu sempre quis te provar que as minhas escolhas estavam certas, principalmente o jornalismo, que foi tão questionado por você e eu me lembro como se fosse hoje: “O que o teu pai acha de jornalismo? Você escolheu sem falar com a gente!”.

O pai disse: “minha filha, escolha a profissão que você quiser, e que se algum dia o chefe te desrespeitar, você possa dizer a ele: pegue essa sua oportunidade e enfie ela (insira aqui seu palavrão predileto) porque eu estou indo embora!”

Enfim… Mais uma vez o tempo… Ele ia passando… E eu ia agradecendo… Eu não tinha grandes ambições, confesso. Ter o pai comigo já me deixava aliviada e sabia que o amanhã seria menos doloroso porque ele estava ali, para o que desse e viesse. Mas eu não contava que o tempo e a morte o roubariam de mim tão cedo…

Acontece que, diversas vezes, concluí que sua raiva por mim tinha a ver com a minha proximidade dele.

Você nunca aceitou que eu “pendesse” mais para o lado de lá, mas nunca percebeu que eu pendia justamente porque não tive de você o mesmo amor, carinho e atenção que você dava às minhas irmãs.

Ok, sei que você nunca foi muito de demonstrar afeto, mas a gente sabe quando se sente especial, e pra você, eu nunca fui. E sim, isso me fez falta!

Quando eu me formei, e estava em busca de emprego, sem descansar, porque eu já tinha ido ver até mesmo vaga de diarista, lembro que uma noite, cansada, depois de ter saído às 8h da manhã em busca de um emprego e chegar em casa às 17h, eram 23h, e no quarto ao lado, a Bia* fazia festa com as amigas, sendo que tinha que entregar um trabalho na faculdade no dia seguinte, e ela sequer havia começado. Pedi a você que interviesse, e você me respondeu: “pelo menos ela está estudando, não é vagabunda como você”.

Aquilo eu jamais esqueci… E parecia engolir cactos a cada coisa que você me fazia ou dizia…

Tento me lembrar se alguma vez você teve orgulho de mim, se ficou envaidecida ou se falou (bem) de mim para alguém… Você se lembra se o fez?

O tempo passou, e passou e levou o pai… Lembro até hoje o dia em que eu saí de casa, dia da cremação dele, você se lembra o que me disse? Talvez não… Dias depois eu voltei e você havia trocado as fechaduras para que eu não voltasse mais, ou voltasse apenas para retirar as minhas coisas… E assim o fiz, em uma noite fria e de garoa… foram 16 sacos de lixo entulhados com as minhas coisas, mas muita coisa ainda ficou na sua/nossa casa. Nunca mais voltei, nunca mais recuperei as coisas que deixei pra trás e que me fizeram falta todo esse tempo.

No início do ano, comecei a assistir a uma série na Netflix, Anne With na E, e me vi ali… Chorei. Como eu quis ser aceita por você, como eu quis que você me amasse com todas as minhas peculiaridades…

Sei que carrego muito do seu comportamento e da sua postura em relação à vida, vejo você em mim, até nos sofrimentos, e sei que não precisava ser assim. Você não me conhece mais, e nem eu a você, mas me reconheço em algumas situações, desenterro o seu passado… Não precisava ser assim…

Você não me conhece mais, e eu passei por tanta coisa esses anos todos… Talvez se eu pudesse ter contado com você, fosse mais fácil. Mas eu só pude contar comigo, e isso me fez forte, mas como o tempo passou, a idade chegou e eu cansei…

Esse ano, pedi diversas vezes que o pai viesse me buscar… Mas ele está ocupado demais pra me ouvir, acredito…

Sabe, mãe, eu não te culpo… talvez você não soubesse lidar comigo, talvez a gente ainda não se conheça e carregue essas bagagens de outras vidas… Sei que não fui uma pessoa fácil de lidar, reconheço, mas eu precisava da sua mão e do seu apoio para que isso fosse diferente, para que eu fosse diferente…

Eu te peço perdão por não ter correspondido às suas expectativas… Te peço perdão por ter falhado como filha. Peço perdão se pra você pareceu que eu mais recebi do que dei, quando na verdade, a mim pareceu o contrário.

Perdoe por todas as vezes que poderia e deveria ter feito e não fiz! Perdoe por não ser a filha que você gostaria que eu fosse. Perdoe por repetir seu comportamento e me submeter a coisas que eu não deveria por conta das amarras invisíveis que a gente cria. Você superou, foi forte, e eu também vou superar, espero!

De minha parte, digo que não te desejo o mal. Você me deu a vida, me deu o meu pai (que não me interessa que tipo de marido ele foi, ele era meu pai, e fez de tudo para que nunca faltasse nada nem a mim e nem às minhas irmãs). Eu te perdoo por não ter sabido lidar comigo, por não ter sido a mãe que eu gostaria. Eu não te devo nada, você não me deve nada.

Dia desses, quis muito te procurar, desabafar, contar da minha vida, tudo o que me aconteceu e saber se a gente teria uma nova chance nessa vida. Mas, ao mesmo tempo, abortei a ideia. Não somos mais aquelas pessoas que deixamos ali na missa de sétimo dia do pai, 11 anos e seis meses atrás. Eu já não gosto das mesmas coisas, não uso o mesmo corte de cabelo…

Eu sou eu, você é você, e não há mal algum nisso!

Desejo que você esteja bem, com saúde, e que ainda tenha longos anos pela frente…

Eu vou bem, levando “da vida” como costumo dizer (expressão que uso desde sempre, muito mais que há onze anos)…

Ah, e obrigada por tudo, mãe! Serei sempre grata a você por diversas coisas que jamais caberiam nessa carta!

Um beijo

Jana

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade das pessoas.

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