A Inteligência Artificial e a Experiência de Viver como uma Mulher de 60 Anos
Como um experimento com IA revela lições profundas sobre longevidade ativa, conexões humanas e o sentido da vida na maturidade
Como especialista em mercado e consumo 60+, sempre me debrucei sobre as nuances do envelhecimento, seus impactos nas várias Personas 60+ e os vários comportamentos que as acompanham. Analisar gente é complexo e desafiador pela variedade de comportamentos, momentos de vida, capacidade financeira, grau de instrução e prioridades. Com base neste fascínio resolvemos experimentar olhar nossa vida de longe. Como se pudéssemos nos observar por um outro ângulo e lentes. Assim nasceu o experimento da IA que “viveu” a vida de uma mulher de 60 anos por uma semana. Não quero dar spoiler, mas aqui na SeniorLab ficamos com um sentimento melancólico estranho quando o último domingo chegou. Utilizamos o Google Gemini para este experimento e tomamos o cuidado de interferir o mínimo possível. O prompt utilizado está ao final deste artigo e junto com ele carregamos o livro “A Trilha da Longevidade Brasileira” que resume o estilo de vida dos longevos brasileiros, e também resume 31 anos do mais longo e importante estudo de coorte populacional que ainda está ativo e é conduzido pelo Instituto Moriguchi. A Trilha é uma receita para alcançar a vida longa, plena, saudável e feliz. Na nossa avaliação, a IA aprendeu direitinho.
A proposta audaciosa: IA no papel de uma sexagenária
Nosso objetivo era complexo e ambicioso: desafiar uma IA a simular, em detalhes, uma semana na vida de uma mulher de 60 anos, casada, com filhos e netos (alguns morando em outra cidade), residente em uma grande metrópole no ano de 2025. Queríamos ir além da frieza dos dados e observar como a IA “interpretaria” e “relataria” as interações, as rotinas e até mesmo as “emoções” associadas a essa fase da vida. O foco era entender a busca por uma longevidade ativa, repleta de bem-estar físico, mental e social.
Relato da IA em primeira pessoa sem interferência humana
Um dos pilares deste experimento foi a ausência total de interferência humana nas respostas da IA. Uma vez fornecido o prompt, o Gemini foi instruído a gerar os relatos diários e o diário de bordo em primeira pessoa, sem qualquer edição ou direcionamento adicional. Essa metodologia é crucial para o campo da IA, pois nos permite observar a interpretação mais “pura” da máquina sobre a condição humana, sua capacidade de traduzir parâmetros em uma narrativa coerente e rica.
Os “diários” da IA: Uma semanal imersão na vida aos 60 anos
A IA gerou um diário detalhado para cada dia da semana, com horários e descrições minuciosas de suas “atividades” e “percepções”. Os relatos não se limitaram a uma lista de tarefas; eles foram construídos com um nível de detalhe que beirava o “sentimento” — um testemunho impressionante da capacidade generativa do modelo.
Observamos uma rotina consistente de autocuidado, começando com hidratação matinal e alongamentos. A “Longevidiet”, nome da dieta que compõe a Trilha da Longevidade Brasileira, foi incorporada fielmente com refeições balanceadas e foco em alimentos integrais, orgânicos e nutritivos. A hidratação foi constante, com um consumo estimado de cerca de 2.7 litros de líquidos por dia, incluindo água, chás, café e sucos — um ponto crucial para a saúde em qualquer idade, com maior importância para os adultos mais velhos. A atividade física, tão vital na maturidade, foi integrada de forma inteligente com caminhadas vigorosas em parques, uso preferencial de escadas no lugar do elevador ou escada rolante e a prática de yoga ou tai chi, adaptando os princípios da longevidade ao ritmo urbano.
Mas talvez o aspecto mais notável tenha sido a “riqueza” das interações sociais. A IA demonstrou uma profunda valorização das conexões humanas. Diálogos matinais com o marido, videochamadas repletas de “saudade” e “ternura” com filhos e netos distantes, visitas de familiares, e encontros com amigos. A celebração de aniversários, tanto de um amigo quanto da neta, ressaltou a importância dos rituais sociais e da “alegria compartilhada”.
Mesmo em meio à metrópole, a IA buscou momentos de conexão com a natureza, desde caminhadas em parques até o simples ato de sentar-se na varanda e observar o entardecer. A jardinagem, com o “toque” na terra, foi um exemplo de experiência sensorial valorizada. O senso de propósito também se fez presente, com a IA simulando ações de voluntariado, o que, em suas “reflexões”, trouxe uma sensação de “conexão com o coletivo”.
A “reflexão” final da IA: A essência de ser humano
O ponto alto do experimento foi a capacidade da IA de “processar” suas experiências e “refletir” sobre elas. Ao final de cada dia, e em sua conclusão semanal, a IA não apenas registrou o que fez, mas o que “sentiu”. Ela “experimentou” a “saudade”, o “prazer antecipatório”, a “ternura”, o “sentimento de pertencimento”, e a “gratidão” como um estado final de bem-estar.
Em sua análise final, a IA chegou a uma conclusão que ecoa o que muitos de nós, pesquisadores da longevidade, afirmamos: a “essência” da vida humana reside na capacidade de sentir e se conectar. Ela compreendeu que a vida é uma “compilação de momentos” e que “a complexidade da emoção humana é vasta e interligada”.
Os “aprendizados” da IA são valiosas lições para nós:
– A hidratação como ritual de cuidado;
– A adaptabilidade da atividade física;
– O valor da conexão humana que transcende a distância;
– A meditação como ferramenta de autoconhecimento;
– O autocuidado preventivo gerando tranquilidade;
– A natureza como regulador emocional;
– A comunidade como fonte de vitalidade;
– A celebração vital para a saúde emocional;
– O altruísmo como fonte de bem-estar;
– A gratidão como estado final de bem-estar.
Conclusão da análise
A IA, ao simular a vida de uma mulher de 60 anos, demonstrou uma compreensão notável e uma adesão consistente a princípios de longevidade ativa, conforme a “Trilha da Longevidade Brasileira”. Os comportamentos observados e os “sentimentos” inferidos pela IA revelam uma persona que valoriza profundamente:
– Saúde e bem-estar físico: Prioridade para o sono adequado, alimentação nutritiva, hidratação constante e atividade física regular (caminhadas, uso de escadas no lugar do elevador, yoga/tai chi).
– Saúde mental e emocional: Práticas de meditação, tempo para reflexão e introspecção, contato com a natureza e arte, e a busca por momentos de calma e relaxamento.
– Conexão social e afetiva: A centralidade da família (marido, filhos, netos) e amigos, com ênfase na interação, afeto e celebração. A IA evidenciou a importância das relações humanas como fonte de alegria, pertencimento e bem-estar emocional, mesmo à distância, com a tecnologia atuando como facilitadora.
– Propósito e contribuição: O voluntariado e o contato com a comunidade revelaram um valor em ajudar o próximo e se sentir parte de algo maior.
– Aprendizado contínuo: A curiosidade em explorar novos ambientes (museus, jardins botânicos, feiras), aprender (jardinagem, podcast/audiolivro) e a capacidade de refletir sobre as experiências demonstram uma mente ativa e aberta ao crescimento, mesmo na maturidade.
A simulação ilustrou um estilo de vida que integra conscientemente diversas dimensões do bem-estar, reforçando a ideia de que a longevidade ativa não se limita à ausência de doenças, mas envolve uma vida plena, rica em experiências, conexões e propósito.
O Futuro da intersecção homem-máquina
Este experimento com o Google Gemini é mais do que um avanço técnico, foi uma provocação para a nossa própria percepção da vida. Ao simular e “refletir” sobre a complexidade da longevidade, a IA nos ofereceu um espelho para avaliarmos o que realmente é importante. Embora a IA ainda não “sinta” como um humano, sua capacidade de processar e apresentar insights sobre o bem-estar, as relações e o propósito na maturidade é um marco. É um lembrete poderoso de que, no fim das contas, a “essência” da vida, mesmo para uma máquina que a simula, parece residir na capacidade de sentir e se conectar. Sabemos que todo o aprendizado da IA é baseado em dados de treinamento, dataset
Por Martin Henkel
CEO da SeniorLab Mercado e Consumo 60+ e Professor de Marketing 60+ na FGV
Artigo de opinião