Autismo após os 30: desafios que podem passar despercebidos
Neurologista Matheus Trilico explica como sobrecarga, camuflagem social e diferenças sensoriais podem afetar trabalho e relações.
Adultos autistas podem cumprir responsabilidades no trabalho, na família e nos relacionamentos enquanto lidam com esforço emocional, social e sensorial pouco percebido por outras pessoas. Segundo o neurologista Matheus Trilico, o diagnóstico após os 30 anos pode ajudar na compreensão das necessidades individuais, mas não resolve automaticamente desafios acumulados ao longo da vida.
Para o médico, adaptar-se à rotina não significa necessariamente viver com conforto emocional. Ele afirma que algumas pessoas conseguem trabalhar, estudar, formar família e manter uma vida funcional, porém com um esforço interno que pode passar despercebido.
Trabalho e sobrecarga no autismo adulto
De acordo com Trilico, reuniões frequentes, ruído, iluminação intensa, interrupções, cobranças sociais e mudanças inesperadas de rotina podem provocar sobrecarga no ambiente profissional. Isso, segundo ele, não representa falta de capacidade, mas pode refletir incompatibilidade entre necessidades individuais e as condições oferecidas pelo ambiente.
O neurologista cita ansiedade, esgotamento, dificuldades nos relacionamentos e sensação de fracasso como possíveis manifestações do custo de manter um desempenho elevado. Para algumas pessoas, maior autonomia no trabalho pode ser uma alternativa, embora administrar um negócio também exija organização, planejamento financeiro e manejo de imprevistos.
Camuflagem social e vida afetiva
Outro aspecto mencionado pelo especialista é o masking, ou camuflagem social: o esforço para esconder características autistas, imitar comportamentos e atender às expectativas de outras pessoas. Segundo Trilico, essa adaptação constante pode estar associada a ansiedade, baixa autoestima, sofrimento emocional e sensação de perda da própria identidade.
Nos relacionamentos, diferenças de comunicação, necessidade de previsibilidade e sensibilidades sensoriais podem gerar conflitos. Uma pessoa autista pode precisar de momentos de isolamento, ter dificuldade para interpretar indiretas ou sentir desconforto com certos contatos físicos, sem que isso defina sua capacidade de amar, afirma o neurologista.
Ele também ressalta que as experiências relacionadas à sexualidade variam: alguns adultos autistas podem ter pouco ou nenhum interesse sexual, outros podem relatar desejo intenso e há quem tenha vivências semelhantes às de pessoas não autistas.
Quando há sintomas de TDAH associados
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) pode estar presente em adultos autistas, embora sejam condições distintas, segundo o médico. Dificuldades de organização, gestão do tempo, manutenção da atenção e controle de impulsos podem tornar a rotina mais desafiadora quando há sintomas associados.
Trilico destaca que uma carreira consolidada ou sucesso financeiro não excluem autismo ou TDAH. Na avaliação dele, a compreensão das dificuldades e das estratégias adequadas depende de uma análise individualizada.
Adaptações na rotina e nos relacionamentos
Entre as condições que podem reduzir a sobrecarga, o neurologista cita previsibilidade, comunicação objetiva, pausas e adaptações sensoriais no trabalho. Nos relacionamentos, ele aponta a importância de diálogo claro e respeito aos limites; na rotina, menciona uma organização compatível com as necessidades de cada pessoa e acompanhamento profissional quando necessário.
Segundo Trilico, o diagnóstico tardio pode permitir que a pessoa compreenda uma forma diferente de processar informações e interagir com o ambiente. Para ele, considerar diferentes formas de funcionamento é parte da construção de uma vida adulta com mais autonomia e qualidade de vida.



