Luto prolongado: quando o sofrimento precisa de avaliação
Reconhecido pela OMS na CID-11, o transtorno considera sintomas persistentes, impacto na rotina e o contexto cultural da pessoa.
O luto não tem um prazo único, mas a persistência de sofrimento intenso e o prejuízo à vida cotidiana podem indicar a necessidade de avaliação profissional. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o transtorno do luto prolongado na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11).
Segundo Aline Sabino, psiquiatra dos Hospitais São Camilo de São Paulo, o tempo transcorrido desde a morte, isoladamente, não define o transtorno. “Sentir saudade e tristeza faz parte do luto. O sinal de alerta aparece quando a dor dificulta a retomada das atividades, a manutenção dos vínculos e a construção de uma rotina”, explica.
Na CID-11, o diagnóstico considera sintomas persistentes por pelo menos seis meses após a perda, sofrimento intenso, prejuízo significativo na vida cotidiana e o contexto cultural e social da pessoa. A avaliação profissional deve considerar o conjunto das manifestações e como elas interferem na rotina.
Sinais que podem merecer atenção
De acordo com a psiquiatra, entre os sinais estão a saudade intensa e persistente de quem morreu, a dificuldade de aceitar a perda e a sensação de vazio ou de perda da própria identidade. A pessoa também pode se afastar de amigos e familiares, perder o interesse por atividades antes importantes e encontrar dificuldade para trabalhar, estudar, cuidar de si ou manter compromissos habituais.
A presença de um ou mais desses sinais não significa, por si só, que exista um transtorno. Datas, lembranças e situações específicas podem reavivar a tristeza mesmo muito tempo depois da morte. O ponto de atenção, segundo a fonte, é a dificuldade persistente de se adaptar à perda e conduzir a própria vida.
Como oferecer apoio
Familiares e amigos podem observar mudanças persistentes de comportamento e oferecer apoio sem pressionar a pessoa a superar a perda em um prazo determinado. Aline Sabino afirma que é importante evitar tanto a cobrança para que o enlutado siga em frente quanto a interpretação de que toda tristeza prolongada é uma doença.
Quando há isolamento persistente ou dificuldade para retomar a vida cotidiana, a orientação da especialista é incentivar uma avaliação com psicólogo ou psiquiatra. O reconhecimento do transtorno pela OMS, segundo a fonte, busca identificar quem precisa de cuidado especializado sem transformar toda experiência de perda em doença.



