Névoa mental na menopausa: os esquecimentos também merecem atenção

Enfermeira explica possíveis fatores ligados às queixas de memória e concentração e indica quando a avaliação médica é necessária.

Ane Caroline Pereira dos Santos*

Esquecer onde colocou as chaves, perder a linha de raciocínio durante uma conversa ou ter dificuldade para concluir uma tarefa são situações que podem parecer simples distrações. Entretanto, quando se tornam frequentes, podem gerar insegurança e preocupação. Para muitas mulheres, essas experiências surgem na transição para a menopausa e são conhecidas como “névoa mental”, ou brain fog.

A perimenopausa, fase de transição que antecede a menopausa, geralmente tem início a partir dos 40 anos e é caracterizada por oscilações hormonais que podem provocar manifestações físicas, emocionais e cognitivas. O estrogênio participa de processos cerebrais ligados à memória, à atenção e à aprendizagem. Suas variações podem contribuir para esquecimentos e para a sensação de raciocínio mais lento. Alterações do sono, ondas de calor, ansiedade e estresse também podem intensificar os sintomas.

Uma revisão de Gurvich, Spector e Hickey, publicada em 2026 na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health, ressalta que as queixas cognitivas são comuns, mas suas causas ainda não são completamente compreendidas. Os autores destacam que fatores hormonais, distúrbios do sono, sintomas vasomotores e questões emocionais e psicossociais podem contribuir para essas experiências. Isso reforça a necessidade de escutar as mulheres e considerar os fatores físicos e emocionais envolvidos nessa fase.

Na convivência familiar, os episódios podem aparecer em pequenos detalhes: esquecer um compromisso, perder o assunto durante uma conversa ou precisar de mais tempo para organizar uma atividade. Muitas vezes, quem está por perto interpreta essas situações como falta de atenção ou interesse. A primeira resposta deve ser o acolhimento, sem julgamentos e sem presumir que todo esquecimento seja consequência da menopausa.

Um estudo de Naysmith e colaboradores, publicado em 2026 na revista npj Women’s Health, avaliou mais de 14 mil mulheres de 45 a 55 anos. As participantes na transição menopausal relataram mais dificuldades cognitivas, embora as diferenças de desempenho nos testes objetivos tenham sido pequenas. Os sintomas relatados também apresentaram relação com fatores psicológicos. Isso não invalida as queixas: o desconforto percebido pode ser real mesmo sem uma perda importante de capacidade intelectual.

Esquecimentos persistentes, progressivos ou que comprometam o trabalho, os relacionamentos e as atividades diárias exigem avaliação médica. Outras condições, como distúrbios do sono, depressão, deficiência de vitamina B12 e alterações da tireoide, também podem produzir sintomas semelhantes.

O acompanhamento médico é fundamental para investigar as causas e definir, quando necessário, o tratamento adequado. As condutas podem incluir o manejo dos sintomas da menopausa, dos distúrbios do sono e das alterações emocionais. Em situações específicas, pode ser avaliada a indicação de terapia hormonal, considerando seus riscos e benefícios, mas ela não é recomendada com a finalidade exclusiva de melhorar a memória ou prevenir o declínio cognitivo. Hábitos como atividade física, alimentação equilibrada e controle de doenças crônicas também contribuem para a saúde.

Como enfermeira e docente, defendo que a educação em saúde e a escuta qualificada façam parte desse acompanhamento. A menopausa não deve ser associada automaticamente à perda da capacidade intelectual. Reconhecer a névoa mental, envolver a família e incentivar a busca de ajuda são formas de preservar a autonomia, a qualidade de vida e a dignidade das mulheres.

*Ane Caroline Pereira dos Santosé enfermeira, especialista em Unidade de Terapia Intensiva, Enfermagem do Trabalho, Prevenção e Controle de Infecções Hospitalares, Cuidados Paliativos e Docência em Enfermagem. MBA em Gestão de Pessoas pela USP/Esalq. Enfermeira do Trabalho na Santa Casa de Piracicaba e docente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Internacional UNINTER.

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