Envelhecimento pode trazer lutos simbólicos, explica especialista
Aposentadoria, mudanças físicas e novas necessidades de apoio podem exigir adaptação emocional sem apagar a identidade.
Envelhecer pode envolver lutos que não estão ligados à morte, como a aposentadoria, a saída dos filhos de casa, limitações físicas ou a necessidade de ajuda em tarefas cotidianas. Segundo Dante Ogassavara, mestre em Ciências do Envelhecimento e docente da Universidade São Judas, reconhecer essas mudanças pode ajudar a preservar vínculos, projetos e a própria identidade.
O tema ganha relevância com o envelhecimento da população brasileira. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE, apontam que as pessoas com 60 anos ou mais eram 16,6% da população em 2025, ante 11,3% em 2012. O país tinha 35,2 milhões de pessoas nessa faixa etária em 2025.
Perdas simbólicas também exigem adaptação
Deixar uma profissão, perceber alterações na capacidade física, depender de outras pessoas ou sentir uma mudança no próprio lugar na família e na sociedade são experiências que podem afetar autonomia, identidade e vínculos sociais. Elas não ocorrem da mesma forma para todas as pessoas e não significam necessariamente um transtorno psicológico.
De acordo com o artigo Perspectivas do Envelhecimento como Processo de Luto: Uma Revisão Narrativa, publicado na Revista Amazonense de Geriatria e Gerontologia, compreender o luto para além da morte de alguém querido abre espaço para reconhecer as transformações dessa fase e construir possibilidades de adaptação.
“Envelhecer não precisa significar abandonar quem se é. Ao longo da vida, todos nós passamos por mudanças e perdas, mas elas não precisam apagar nossa identidade”, afirma Ogassavara. Para o docente, o desafio é reconhecer o que mudou, acolher a tristeza quando ela surge e identificar quais vínculos, projetos e possibilidades permanecem disponíveis.
Vínculos, projetos e decisões sobre a própria vida
Segundo o especialista, construir novos papéis e projetos pode fazer sentido após a aposentadoria ou a saída dos filhos de casa, sem que seja preciso substituir tudo o que foi perdido. Amizades, grupos de interesse, convivência comunitária e contatos entre gerações também podem contribuir para a sensação de pertencimento, sem concentrar toda a vida social na família.
A necessidade de apoio não precisa ser interpretada como fracasso. Adaptar a rotina, utilizar recursos de acessibilidade ou receber ajuda em determinadas atividades pode coexistir com a autonomia, entendida também como a possibilidade de participar das decisões sobre a própria vida.
Ogassavara recomenda buscar apoio emocional quando as perdas parecem insuperáveis. Psicólogos e outros profissionais de saúde podem auxiliar na elaboração dessas mudanças e de sentimentos de solidão ou inutilidade. Tristeza persistente, isolamento intenso e perda significativa de interesse por atividades, ressalta a fonte, merecem atenção e não devem ser atribuídos automaticamente à idade.



