Quem cuida também precisa ser cuidado

Artigo discute saúde mental, exaustão e condições de trabalho de médicos.

Por Dr. Ana Caroline Vicenzi

Muito se fala sobre a jornada do paciente, a ampliação do acesso à saúde e as novas formas de prevenir doenças. Mas existe um personagem fundamental para que todo esse sistema funcione e que, muitas vezes, acaba ficando em segundo plano: o profissional que está na linha de frente do cuidado.

Dados do Panorama da Qualidade de Vida dos Médicos – Afya 2025 apontam que cerca de 45% dos profissionais apresentam algum quadro de transtorno mental, como depressão, ansiedade e burnout. Mais do que um número, esse dado revela um desafio que precisa ser encarado com seriedade, pois quem cuida da saúde dos outros também precisa encontrar espaço para cuidar de si mesmo.

Longas jornadas, plantões noturnos, privação de sono, pressão para tomar decisões complexas e o contato frequente com situações de sofrimento, adoecimento e morte fazem parte da rotina de milhares de médicos. A medicina é uma profissão marcada por propósito e impacto social, mas isso não significa que seus profissionais sejam imunes aos efeitos de uma rotina tão exigente.

O problema é que reconhecer os próprios limites nem sempre é fácil. Desde a formação, muitos médicos são submetidos a uma rotina de alta exigência, com longas horas de estudo, noites mal dormidas e uma cultura que, historicamente, associou resistência à excelência profissional. Esse comportamento acaba sendo glamourizado, e com isso o cansaço é naturalizado e a exaustão confundida como parte da profissão.

Dificuldade de concentração, esquecimentos frequentes, irritabilidade, sensação de vazio, perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer, isolamento social e fadiga persistente podem ser sinais de que o estresse deixou de ser apenas uma resposta momentânea à rotina e merece atenção.

O autocuidado, portanto, não deve ser visto como um luxo ou como algo incompatível com a dedicação à profissão. Ele é parte do próprio cuidado em saúde. O sono é um dos primeiros exemplos. Adultos devem, em geral, dormir entre sete e nove horas por noite. Para quem trabalha em regime de plantão, cumprir essa recomendação pode ser um desafio, mas a privação de sono não deve ser banalizada, porque ela pode prejudicar atenção, memória e capacidade de tomada de decisão. Essas são funções essenciais para quem trabalha diariamente com a vida de outras pessoas.

Isso vale para a atividade física, a redução do comportamento sedentário e a alimentação equilibrada. Em uma rotina marcada por consultas, plantões e imprevistos, esses cuidados frequentemente ficam para depois. O problema é que o “depois” pode se transformar em semanas, meses ou até anos.

E há ainda uma contradição particularmente presente na medicina: muitos profissionais têm dificuldade em assumir o papel de paciente. “Casa de ferreiro, espeto de pau”, diz o ditado. Consultas são adiadas, exames ficam para outra ocasião e sinais de sofrimento emocional podem ser ignorados. O médico acostumado a identificar sintomas nos outros pode ter dificuldade em reconhecer os próprios. Ao priorizar constantemente o cuidado alheio, pode acabar deixando a própria saúde em segundo plano.

Falar sobre bem-estar médico também significa falar sobre o ambiente em que esse profissional trabalha. Não basta atribuir ao indivíduo toda a responsabilidade pelo próprio equilíbrio. Instituições de saúde precisam oferecer condições adequadas de trabalho, dimensionar as demandas de maneira responsável e criar espaços efetivos de escuta e acolhimento.

As Diretorias Clínica e Técnica também têm papel importante nesse processo, especialmente na construção de ambientes que respeitem as normas do Conselho Federal de Medicina (CFM), a ética profissional e a autonomia médica. Outro aspecto que merece atenção é o apoio à chamada “segunda vítima”: o profissional de saúde que sofre emocionalmente após um evento adverso, uma situação clínica difícil ou outro episódio relacionado ao exercício de sua atividade. O tema ganhou ainda mais relevância com a normatização prevista no parecer CFM nº 24/2026.

Esse movimento começa a se traduzir em iniciativas concretas. Instituições de saúde têm ampliado a atenção ao bem-estar dos próprios profissionais, com ações voltadas ao acolhimento e à oferta de suporte diante de situações que podem afetar a saúde emocional.

Cuidar de quem cuida não significa diminuir a responsabilidade do médico, tampouco esperar que ele seja menos resiliente. Significa reconhecer que resiliência não deve ser confundida com silêncio, exaustão ou negligência com a própria saúde.

Hipócrates, considerado o pai da Medicina, é associado à célebre frase: “A arte é longa, a vida é breve”. Séculos depois, a reflexão continua atual. A medicina é uma profissão nobre, necessária e capaz de transformar vidas. Para exercê-la de maneira plena e sustentável, porém, é preciso lembrar que, antes de ser médico, existe ali uma pessoa, com limites, necessidades, medos, cansaços e o direito de ser cuidada.

Afinal, acredito que cuidar de si é também uma forma de continuar cuidando do outro.

Ana Caroline Vicenzi, é Diretora Médica e responsável pelos programas de saúde mental da Dr. Online .

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