Por que notificações prendem a atenção, segundo neurocientista
Lívia Ciacci relaciona recompensas imprevisíveis ao uso de telas e defende mediação familiar e educação midiática.
Curtidas, comentários e notificações chegam de forma imprevisível e, segundo a neurocientista Lívia Ciacci, parceira do Supera – Estimulação Cognitiva, esse padrão ajuda a prender a atenção nas plataformas digitais. A especialista compara o mecanismo ao sistema de recompensas associado aos caça-níqueis e afirma que ele dificulta interromper o uso.
De acordo com Ciacci, as plataformas entregam recompensas imprevisíveis, como curtidas e notificações, em um esquema que estimula o sistema de recompensa. Ela relaciona esse processo à dopamina e observa que, na adolescência, os sistemas de recompensa estão mais ativos enquanto o córtex pré-frontal, ligado ao autocontrole, atinge maturidade funcional depois dos 20 anos.
Na avaliação da neurocientista, recompensas imediatas e imprevisíveis podem reduzir a tolerância à espera. Isso pode tornar mais desafiadoras situações que exigem escuta, negociação, resolução de conflitos e adiamento da gratificação.
Menos proibição e mais mediação
Ciacci afirma que essa atenção voltada ao estímulo imediato pode ser recalibrada. Para explicar a ideia, ela usa a comparação entre refrigerante e água: assim como o excesso de açúcar altera a percepção do paladar, o entretenimento hiperestimulante do celular pode tornar menos atraentes atividades não digitais. Segundo ela, reduzir esse excesso e abrir espaço para experiências reais e ricas pode mudar essa percepção.
A especialista defende que a redução do tempo de tela seja acompanhada de educação midiática. Para ela, não basta restringir o acesso: é preciso ajudar crianças e adolescentes a compreender como algoritmos e plataformas exploram circuitos de recompensa.
No ambiente familiar, a proposta é que adultos deem o exemplo e participem do consumo de conteúdo. Assistir junto, comentar o que está sendo visto e perguntar se determinada informação parece real são atitudes citadas por Ciacci como alternativas à restrição isolada.
Experiências fora da tela
Como formas de substituir, e não apenas retirar, o celular, a neurocientista sugere proteger momentos de sono, refeições e brincadeiras sem tela. Ela também menciona esporte, música, arte, projetos de interesse, grupos presenciais e desafios com progresso visível como experiências que podem oferecer novidade, recompensa e pertencimento fora do ambiente digital.
A especialista também recomenda preservar leitura, conversa cara a cara e brincadeira livre, além de estimular uma análise crítica sobre o conteúdo consumido nas plataformas.



