Bullying pode deixar medo e isolamento na vida adulta

Especialistas explicam como a violência escolar e a invalidação emocional podem afetar relações e ansiedade após o fim das agressões.

O bullying pode terminar com a saída da escola, mas medo, vergonha e dificuldades de relacionamento podem permanecer na vida adulta. O tema voltou ao debate após o influenciador Felca, de 28 anos, relatar em vídeo episódios de agressão, humilhação e isolamento vividos desde os 12 anos, que ele associa ao transtorno de ansiedade social.

Segundo o relato do influenciador, ele enfrentou agressões físicas de colegas, exposição humilhante e falta de acolhimento ao procurar ajuda. Felca também afirma ter sentido medo de frequentar a escola, dificuldade para estabelecer relações sociais e ansiedade intensa antes de entrevistas, gravações e compromissos sociais, apesar da exposição pública exigida por sua profissão.

Uma revisão sistemática publicada em dezembro de 2025 na revista científica Behavioral Sciences, baseada em 24 estudos longitudinais, identificou associações entre exposição repetida ao bullying e problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão, sintomas relacionados ao trauma e baixa autoestima. Os efeitos, porém, variam conforme as experiências individuais, a intensidade da violência e a presença de redes de apoio.

Quando a falta de acolhimento agrava o sofrimento

Para a psicóloga Ádela Nicoletti, especialista em Terapia Comportamental Dialética e Terapia Cognitivo-Comportamental, é preciso considerar não apenas as agressões, mas a resposta recebida dos adultos. “Talvez uma das formas mais dolorosas de invalidação seja sofrer uma violência diante de pessoas que poderiam proteger você e descobrir que ninguém fará nada”, afirma.

A especialista diferencia a omissão da invalidação emocional. Enquanto não intervir diante de uma agressão representa uma falha de proteção, minimizar o sofrimento ou tratá-lo como exagero deslegitima as emoções da criança ou adolescente. Na perspectiva da Terapia Comportamental Dialética, experiências recorrentes de invalidação podem contribuir para dificuldades de identificar, compreender e regular emoções, especialmente em interação com vulnerabilidades individuais e outros fatores do desenvolvimento.

Por que a ansiedade pode continuar depois da escola

O psicólogo Vinícius Dornelles, mestre em Psicologia na área de Cognição Humana e coorganizador do livro Bullying: Avaliação e Intervenção em Terapia Cognitivo-Comportamental, explica que vivências repetidas de ameaça, rejeição e humilhação podem favorecer respostas de medo em interações sociais posteriores.

“Quando uma criança passa anos sendo humilhada ou ameaçada, pode aprender a antecipar rejeição mesmo em ambientes onde a violência já não está presente. A vergonha e o medo de novas experiências negativas podem favorecer o isolamento e a evitação de situações sociais”, diz Dornelles.

De acordo com o psicólogo, evitar situações que provocam medo pode trazer alívio imediato, mas, se esse comportamento persiste, reduz oportunidades de construir experiências de segurança e confiança. Embora o bullying esteja associado ao aumento do risco de transtornos mentais, o desenvolvimento dessas condições envolve múltiplos fatores e não pode ser atribuído a uma única causa.

Sinais que merecem atenção

O enfrentamento do bullying envolve famílias, escolas e profissionais de saúde. Segundo os especialistas, isolamento, resistência frequente para ir à escola, mudanças no sono e queda no rendimento escolar podem indicar sofrimento. Além de interromper as agressões, é necessário que crianças e adolescentes encontrem adultos dispostos a ouvir, reconhecer suas experiências e oferecer proteção. Quando os efeitos psicológicos persistem, o acompanhamento profissional permite avaliar os sintomas e identificar intervenções adequadas.

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