Dupla jornada deve entrar na prevenção ao burnout, diz especialista

Pesquisa da Deloitte aponta expectativas de sobrecarga entre mulheres; orientações do MTE reforçam a análise das condições de trabalho.

A prevenção ao burnout nas empresas precisa considerar a compatibilização entre jornada, volume de entregas, disponibilidade fora do expediente e responsabilidades familiares, segundo a psicóloga e advogada Jéssica Palin Martins. A avaliação parte de dados da pesquisa Women @ Work 2026, da Deloitte, realizada com 7.500 mulheres em 15 países.

De acordo com o levantamento, 85% das entrevistadas acreditam que sua carga de trabalho não seria ajustada caso passassem a trabalhar menos horas. O percentual expressa a expectativa das participantes sobre a aplicação da flexibilidade e não comprova que essa prática ocorra, nem estabelece relação causal com o burnout.

Responsabilidades familiares ampliam a pressão sobre o tempo

Entre as participantes que vivem com companheiro ou cônjuge e têm filhos menores de 18 anos, 51% disseram assumir a maior responsabilidade pelos cuidados com as crianças, enquanto 5% atribuíram esse papel ao parceiro. Na mesma pesquisa, 28% avaliaram como ruim sua capacidade de se desconectar do trabalho e 29% relataram sentir esgotamento. Os indicadores não equivalem a diagnósticos clínicos nem demonstram causalidade entre tarefas domésticas e a síndrome.

Segundo Jéssica Palin Martins, oferecer acolhimento psicológico tem alcance limitado quando prazos, demandas e expectativas de resposta permanecem inalterados. “Flexibilidade precisa ser compatível com a quantidade de trabalho. Se a demanda apenas muda de horário e invade a noite ou o fim de semana, a medida pode deixar de cumprir sua finalidade”, afirma.

Questionários isolados não bastam para gerir riscos

As orientações do Ministério do Trabalho e Emprego sobre o capítulo 1.5 da NR 1, publicadas em 2026, informam que questionários padronizados, quando usados isoladamente, não são evidência suficiente de gestão dos riscos psicossociais. Conforme o documento, os resultados devem passar por análise técnica e integrar o processo de avaliação.

O material também diferencia a investigação das condições de trabalho da avaliação clínica individual. Para a especialista, isso permite examinar fatores como horas extras recorrentes, falta de pessoal, prioridades conflitantes e concentração de demandas por equipe ou função.

Na prática, Jéssica Palin Martins defende que o mapeamento resulte em medidas como redistribuição de tarefas, revisão de prazos e definição de critérios para contatos fora do expediente. “Se a empresa identifica sobrecarga, o plano de ação precisa enfrentar suas causas”, ressalta.

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