Após câncer de mama, saúde sexual exige cuidado individualizado

Especialistas dizem que dor, ressecamento e alterações no desejo devem ser discutidos com a equipe que acompanha a paciente.

Dor nas relações, ressecamento vaginal, redução do desejo e mudanças na imagem corporal podem afetar a sexualidade durante e após o tratamento do câncer de mama. Segundo a ginecologista e mastologista Fernanda Bauk, essas queixas devem ser acolhidas como parte da qualidade de vida e discutidas com a equipe de saúde.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama feminina por ano no Brasil entre 2026 e 2028, uma projeção correspondente a 71,57 casos por 100 mil mulheres. O dado é uma estimativa para o período, não uma contagem atual de diagnósticos.

Tratamentos podem repercutir na intimidade

De acordo com Fernanda Bauk, cirurgia, quimioterapia, radioterapia e algumas terapias endócrinas podem interferir, direta ou indiretamente, na saúde sexual. Fadiga, sintomas da menopausa, medo de recorrência, alterações da sensibilidade e sofrimento com a imagem corporal também podem estar envolvidos.

A especialista ressalta que não há uma data universal para retomar relações sexuais. O momento depende do tratamento realizado, da recuperação cirúrgica, do estado clínico, dos sintomas e da vontade da paciente. Após cirurgias, devem ser respeitadas as orientações da equipe responsável.

Dor persistente precisa de avaliação

Lubrificantes podem reduzir o atrito durante a atividade sexual, enquanto hidratantes vaginais são usados regularmente para auxiliar na secura e no desconforto, explica Fernanda Bauk. Para ela, esses recursos não substituem uma avaliação individualizada, especialmente em casos de dor persistente.

Segundo a fisioterapeuta pélvica Regiane Migliorini, a dor na penetração pode estar relacionada a ressecamento, tensão muscular, dificuldade de relaxamento e outros fatores. A fisioterapia pélvica pode integrar o acompanhamento dessas repercussões funcionais, mas não trata o câncer e não segue um protocolo único para todas as pacientes.

Uma revisão sistemática publicada em 2025, citada pelas especialistas, identificou resultados promissores de terapias do assoalho pélvico e de intervenções educativas para função sexual em mulheres tratadas por câncer de mama. Os autores, porém, destacaram que as evidências ainda são limitadas e parte dos resultados permanece inconclusiva.

Desejo sexual envolve fatores físicos e emocionais

Alterações hormonais podem contribuir para a queda da libido, mas não são a única explicação, afirma Fernanda Bauk. Dor, sono, medicamentos, autoestima, saúde emocional, relacionamento e medo também podem influenciar o desejo.

Para a psicóloga Laura Zambotto, conversar sobre limites, receios e formas de intimidade pode ajudar a reduzir cobranças sobre a retomada da vida sexual. As especialistas reforçam que desconforto, dor ou sofrimento que prejudiquem a qualidade de vida são motivos para procurar o profissional que acompanha a paciente.

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