Empreender após a maternidade exige planejamento para evitar sobrecarga
Especialista alerta que a busca por autonomia pode ampliar a jornada de trabalho e indica cuidados para estruturar pequenos negócios.
O Brasil chegou a 10,4 milhões de mulheres empreendedoras no quarto trimestre de 2025, maior patamar da série histórica acompanhada pelo Sebrae com base na PNAD Contínua do IBGE. Segundo os dados citados no material, mais da metade dessas empreendedoras tem entre 30 e 49 anos, faixa etária em que maternidade e trabalho frequentemente coexistem.
Para muitas mulheres, empreender pode representar uma busca por flexibilidade e autonomia. Mas, de acordo com Priscila Amorim Grunwald, administradora e empresária com mais de dez anos de experiência em desenvolvimento de produtos do vestuário no Brasil e na Europa, o negócio pode se tornar mais uma fonte de sobrecarga quando depende integralmente da presença da dona.
“Depois da maternidade, muitas mulheres começam a empreender buscando mais liberdade, mas às vezes acabam criando um trabalho que exige ainda mais delas”, afirma Grunwald. Segundo a especialista, esse cenário pode ocorrer tanto em atividades de produção e venda de alimentos ou artesanato quanto na prestação de serviços, no atendimento a clientes e no trabalho on-line.
Organização desde o início
Para quem pretende atuar no varejo de moda, Grunwald recomenda avaliar fornecedores além do preço. Segundo ela, atrasos recorrentes, alterações de tecido sem aviso, acabamento irregular, dificuldade de reposição e falta de padrão entre pedidos podem comprometer a operação. A orientação é testar pequenas quantidades e registrar prazo, qualidade, comunicação e regularidade antes de compras maiores.
Quando diferentes lojas vendem produtos semelhantes de um mesmo fornecedor, especialmente em marketplaces, a comparação por preço e frete pode pressionar as margens. De acordo com Grunwald, pequenas diferenciações — como estampas, combinações de cores, detalhes, embalagem ou atendimento — podem ajudar a construir uma proposta própria enquanto a empresa cresce.
O planejamento de calendário também é apontado pela especialista como uma forma de reduzir decisões apressadas. Em segmentos sazonais, como a moda praia, desenvolvimento, escolha de tecidos, modelagem, provas, produção, fotos e estoque precisam ser organizados antes do período de vendas. Segundo ela, um calendário simples, em papel ou no celular, pode ajudar a planejar as etapas a partir da data de lançamento.
Limites e divisão de responsabilidades
Dados do IBGE citados no material indicam que mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Para Grunwald, rede de apoio, divisão de responsabilidades, horários definidos e preços que remuneren o tempo de trabalho devem fazer parte da estrutura do negócio.
“Empreender deveria trazer mais autonomia, e não apenas acrescentar mais uma jornada à maternidade”, conclui a especialista.



