Especialistas alertam para estratégias organizadas de ataque à ciência e desinformação intencional
Curso da Unifesp reúne pesquisadores que explicam como interesses políticos, econômicos e manipulação digital alimentam o negacionismo científico e defendem ações além da checagem de fatos
A desinformação científica vai além da simples falta de conhecimento, envolvendo estratégias organizadas que atacam a confiança na ciência, segundo especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A terceira aula do curso “Comunicação pública da ciência como ferramenta contra a desinformação”, promovido pelo Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência) e pela Cátedra Edward Said da Unifesp, abordou o tema “Desinformação intencional: como reconhecer ferramentas e estratégias do negacionismo?”.
De acordo com os pesquisadores Deisy Ventura (USP), Mariana Varella (USP) e Yuri Castelfranchi (UFMG), a desinformação não se explica apenas pela falta de conhecimento da população, mas também por interesses políticos e econômicos, manipulação de emoções, uso de falsos especialistas e algoritmos que favorecem a disseminação de mensagens falsas.
A professora Deisy Ventura destacou que a desinformação pode ser entendida como propaganda contra a saúde pública, que utiliza argumentos políticos, econômicos, ideológicos e morais para enfraquecer a confiança nas instituições sanitárias e na ciência. Ela ressaltou a importância da regulação e punição dos promotores de desinformação, afirmando que a legislação brasileira já oferece instrumentos para isso.
Mariana Varella explicou que a desinformação contemporânea combina informações verdadeiras e falsas para produzir conclusões equivocadas, explorando o medo e a desconfiança em relação às autoridades, especialmente na área da saúde. Ela também enfatizou a necessidade de responsabilizar as plataformas digitais, pois seus mecanismos de recomendação e impulsionamento contribuem para a disseminação de conteúdos enganosos.
O professor Yuri Castelfranchi apresentou estratégias cognitivas e comunicacionais usadas para fabricar controvérsias artificiais, como o uso de falsos especialistas e teorias conspiratórias, além de alertar para o risco do falso equilíbrio no jornalismo ao dar voz a posições sem respaldo científico. Ele defendeu a combinação de alfabetização científica, letramento midiático, participação social e regulação das plataformas para enfrentar a desinformação.
Para a coordenadora do curso, professora Soraya Smaili (Unifesp), o enfrentamento da desinformação depende também do diálogo das universidades com a sociedade e da formulação de políticas públicas baseadas em evidências científicas. Ela destacou a importância de valorizar conteúdos científicos de qualidade nos ambientes digitais e ampliar a presença da ciência no debate público.
O curso “Comunicação pública da ciência como ferramenta contra a desinformação” reúne pesquisadores, jornalistas e especialistas para aprofundar o debate sobre os desafios da comunicação científica, os mecanismos de produção e disseminação da desinformação e as estratégias para seu enfrentamento, incluindo temas como negacionismo científico, inteligência artificial, soberania digital e regulamentação das plataformas.



