Por que algumas mulheres não reagem à violência? A ciência explica o medo, a paralisia e o risco de feminicídio

Diante de ameaças, agressões e abusos, o cérebro pode bloquear movimentos e respostas. Pesquisas ajudam a entender por que a ausência de resistência não significa consentimento, enquanto o Brasil registra mais de 1,5 mil feminicídios por ano.

Por que uma mulher não foge de um relacionamento violento? Por que algumas vítimas de agressão sexual permanecem imóveis? Por que uma mulher ameaçada pelo companheiro pode obedecer às suas ordens, mesmo sabendo que corre perigo?

Essas perguntas costumam aparecer depois de episódios de violência doméstica, agressões sexuais e feminicídios. Muitas vezes, são acompanhadas de julgamentos sobre o comportamento da vítima, como se o medo produzisse necessariamente uma reação de fuga ou enfrentamento.

Mas a ciência mostra que o organismo humano não funciona dessa maneira.

Diante de uma ameaça extrema, o cérebro pode desencadear respostas automáticas de defesa. Entre elas estão a luta, a fuga, o congelamento e, em determinadas circunstâncias, a imobilidade tônica — condição na qual a pessoa pode experimentar uma incapacidade involuntária de se mover ou falar.

A resposta não representa concordância, fraqueza ou ausência de sofrimento. Pode ser justamente uma manifestação do sistema de sobrevivência.

Compreender esses mecanismos é particularmente importante em um país onde a violência contra a mulher continua fazendo milhares de vítimas.

Feminicídio no Brasil: os números mostram que o perigo frequentemente está dentro de casa

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, divulgado em julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número da série histórica.

Isso representa uma média superior a quatro mulheres assassinadas por dia em crimes relacionados à sua condição de mulher.

Os números revelam características preocupantes:

  • 62,5% das vítimas foram mortas dentro de uma residência.
  • 65,1% eram mulheres negras.
  • 56,5% tinham entre 25 e 44 anos.
  • 60,9% dos autores eram parceiros íntimos das vítimas.
  • 18,9% eram ex-parceiros.
  • 4.189 mulheres foram vítimas de tentativas de feminicídio em 2025.

Esses dados ajudam a desconstruir uma imagem recorrente da violência: a de que o principal perigo para a mulher está necessariamente em um desconhecido, numa rua deserta ou em um ambiente público.

Em grande parte dos feminicídios, a ameaça vem de alguém com quem a vítima mantém ou manteve uma relação de intimidade.

O mesmo levantamento aponta um contraste: enquanto as mortes violentas intencionais diminuíram 8,2% no Brasil em 2025, os feminicídios continuaram crescendo.

A redução da violência letal em termos gerais, portanto, não significa que as mulheres estejam igualmente protegidas.

O que acontece no cérebro de uma mulher durante uma agressão?

Quando o cérebro percebe uma ameaça, diferentes circuitos neurais e hormonais participam da resposta de defesa.

O organismo pode acelerar os batimentos cardíacos, aumentar a vigilância, preparar os músculos para uma reação ou modificar a percepção da dor e do ambiente.

Popularmente, essas reações são associadas à expressão inglesa fight or flight, que significa lutar ou fugir.

Mas existe uma terceira possibilidade frequentemente ignorada: o congelamento, chamado de freeze.

Em situações nas quais a ameaça parece inevitável, algumas pessoas apresentam respostas mais intensas de inibição motora, incluindo a imobilidade tônica.

A pessoa pode querer resistir, gritar ou fugir e, ainda assim, não conseguir fazê-lo.

Uma pesquisa publicada em 2017 na revista científica Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica analisou 298 mulheres atendidas em uma clínica especializada em vítimas de estupro, em Estocolmo, na Suécia.

Os pesquisadores identificaram que 70% das participantes relataram imobilidade tônica significativa durante a violência sexual. Em aproximadamente 48%, a reação foi classificada como extrema.

O estudo também encontrou associação entre essa resposta e maior ocorrência posterior de sintomas de transtorno de estresse pós-traumático e depressão grave.

Os resultados não significam que sete em cada dez mulheres submetidas a qualquer forma de violência doméstica apresentem a mesma reação. A pesquisa analisou especificamente mulheres atendidas após violência sexual.

Ainda assim, oferece evidências importantes de que a ausência de resistência pode decorrer de mecanismos involuntários do organismo.

Não reagir não significa consentir

A ideia de que uma vítima necessariamente gritaria, lutaria ou tentaria escapar é um dos principais equívocos na interpretação da violência sexual.

Uma mulher pode permanecer imóvel mesmo quando rejeita completamente o que está acontecendo.

Também pode experimentar dissociação, uma alteração na experiência subjetiva em que a situação parece distante, irreal ou desconectada de suas próprias emoções e sensações corporais.

Há ainda circunstâncias em que a vítima consegue agir, mas percebe que qualquer tentativa de enfrentamento aumentaria o risco de sofrer uma agressão ainda mais grave.

Nesse caso, obedecer ao agressor pode ser uma decisão de sobrevivência diante de uma ameaça real, e não uma resposta de imobilidade involuntária.

Essas situações são distintas, mas ajudam a compreender por que a resistência física não pode ser tratada como requisito para reconhecer uma violência.

A ausência de luta não transforma uma agressão em consentimento.

Por que algumas mulheres permanecem em relacionamentos violentos?

A resposta é mais complexa do que o medo de uma agressão isolada.

Relacionamentos abusivos podem envolver ameaças, controle financeiro, isolamento social, chantagem emocional, perseguição, vigilância, intimidação dos filhos e restrições à liberdade da mulher.

Em alguns casos, a violência se instala gradualmente. Comportamentos inicialmente apresentados como ciúme ou preocupação podem evoluir para controle sobre roupas, amizades, trabalho, dinheiro e deslocamentos.

Com o tempo, a mulher pode passar a organizar sua rotina para evitar conflitos e antecipar as reações do agressor.

A aparente obediência pode ser uma estratégia para reduzir danos imediatos.

O medo de perder a própria vida, de sofrer represálias ou de colocar filhos e familiares em perigo também interfere na possibilidade de romper a relação.

Dependência financeira, ausência de moradia alternativa, vergonha, falta de apoio e experiências anteriores de violência são outros fatores relevantes.

Além disso, o momento da separação pode representar um período de risco aumentado em relacionamentos marcados por controle coercitivo e ameaças.

Por isso, simplesmente aconselhar uma mulher a abandonar o relacionamento, sem considerar suas condições de segurança, pode ser insuficiente e até perigoso.

Quando a vítima parece calma, o sofrimento pode estar no limite

A reação de uma pessoa diante da violência nem sempre corresponde à imagem que se espera do medo.

Há vítimas que choram, gritam e resistem. Outras permanecem em silêncio, respondem às ordens do agressor ou demonstram aparente tranquilidade.

Em algumas circunstâncias, o organismo está tão concentrado na ameaça que a pessoa passa a priorizar pequenas ações necessárias para sobreviver ao momento.

Isso também ajuda a compreender um fenômeno observado em situações de sequestro e violência coletiva: mesmo quando há várias vítimas diante de poucos agressores, a reação organizada nem sempre acontece.

Armas, ameaças, isolamento, surpresa e incerteza sobre as consequências de uma tentativa de fuga podem neutralizar a capacidade de resistência do grupo.

Não se trata necessariamente do mesmo processo neurológico experimentado por uma vítima de violência sexual, mas as situações podem compartilhar elementos de medo extremo, percepção de aprisionamento e adaptação às exigências do agressor.

A conclusão é importante: não é possível determinar o grau de sofrimento de uma pessoa apenas observando seu comportamento.

O risco de feminicídio e os sinais que não devem ser ignorados

A violência letal contra mulheres frequentemente está inserida em históricos de ameaça, controle e agressões anteriores, embora nem todos os feminicídios apresentem sinais conhecidos ou denunciados.

Entre os comportamentos que exigem atenção estão:

  • Ameaças de morte ou de suicídio utilizadas para intimidar a mulher.
  • Tentativas de estrangulamento ou sufocamento.
  • Perseguição presencial ou digital.
  • Controle de deslocamentos, contatos, dinheiro e comunicação.
  • Ameaças contra filhos, familiares e animais de estimação.
  • Acesso a armas e intimidação com seu uso.
  • Escalada da frequência ou gravidade das agressões.
  • Descumprimento de medidas protetivas e ameaças após a separação.

Nenhum desses comportamentos deve ser tratado como uma manifestação normal de ciúme ou amor.

O Anuário de 2026 registrou 132.025 ocorrências de descumprimento de medidas protetivas de urgência em 2025, crescimento de 16,7% em relação ao ano anterior.

Também contabilizou 123.871 registros de perseguição, o chamado stalking, aumento de 30,1%.

Esses indicadores demonstram a necessidade de identificar e interromper situações de violência antes que se tornem fatais.

Medidas protetivas são importantes, mas a segurança exige uma rede de apoio

A Lei Maria da Penha estabelece mecanismos de proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

Entre as medidas possíveis estão o afastamento do agressor, a proibição de aproximação e contato e outras providências adequadas ao risco identificado.

Entretanto, a existência de uma medida judicial não elimina automaticamente o perigo.

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em março de 2026 identificou 148 mulheres assassinadas apesar de estarem amparadas por medidas protetivas de urgência vigentes.

A informação não significa que as medidas sejam inúteis. Elas constituem instrumentos essenciais, mas precisam estar acompanhadas de avaliação de risco, fiscalização, atendimento especializado e resposta rápida às ameaças.

Outro problema é a desigualdade territorial.

Segundo o mesmo levantamento, apenas 5% dos municípios de pequeno porte possuíam Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, enquanto somente 3% contavam com casa-abrigo.

Para uma mulher ameaçada, não basta reconhecer que está em perigo. É necessário que existam alternativas reais e acessíveis para sair dele.

O julgamento da vítima pode aprofundar o trauma

Perguntas como “por que você não gritou?”, “por que não saiu antes?” ou “por que continuou falando com ele?” podem parecer tentativas de compreender uma situação.

Mas também podem transferir a responsabilidade pelo crime à pessoa que sofreu a violência.

A recuperação após um trauma não segue um comportamento único.

Algumas vítimas procuram ajuda imediatamente. Outras levam meses ou anos para relatar o que aconteceu. Há mulheres que demonstram sofrimento intenso e outras que tentam manter a rotina como se nada tivesse ocorrido.

Também podem existir lembranças fragmentadas ou dificuldades para narrar a experiência, embora isso não aconteça com todas as vítimas.

Essas reações, isoladamente, não demonstram que uma denúncia seja verdadeira ou falsa. A apuração dos fatos deve considerar o conjunto de evidências, sem utilizar estereótipos sobre como uma vítima deveria se comportar.

Acolher uma mulher significa ouvi-la sem impor um roteiro de sofrimento considerado aceitável.

Como ajudar uma mulher em situação de violência?

O primeiro passo é evitar julgamentos.

Em vez de exigir uma decisão imediata ou confrontar diretamente o agressor, familiares e amigos podem oferecer escuta, apoio e ajuda para identificar serviços especializados.

É importante respeitar a segurança da mulher e não tomar iniciativas que possam expô-la a novas represálias.

Quando possível, o planejamento de proteção pode incluir contatos de confiança, acesso a documentos, medicamentos, recursos financeiros, deslocamento seguro e orientação profissional.

Essas medidas devem considerar as circunstâncias concretas de cada situação.

No Brasil, a Central de Atendimento à Mulher, Ligue 180, funciona gratuitamente, 24 horas por dia, oferecendo informações, acolhimento, orientação e encaminhamento de denúncias.

Também é possível buscar atendimento pelo WhatsApp (61) 9610-0180.

Em situações de emergência ou violência em andamento, o número indicado é 190, da Polícia Militar.

A pergunta que precisamos mudar

Diante de um caso de violência contra a mulher, a pergunta recorrente costuma ser por que a vítima não resistiu, não denunciou ou não conseguiu sair daquela situação.

A ciência demonstra que medo extremo, trauma e coerção podem modificar profundamente o comportamento humano. E os dados brasileiros mostram que muitas mulheres enfrentam essas ameaças dentro de relações íntimas, em ambientes onde deveriam estar protegidas.

A discussão sobre feminicídio precisa ir além da responsabilização criminal depois da morte. Envolve prevenção, reconhecimento precoce das ameaças, redes de acolhimento e respostas institucionais capazes de proteger mulheres em risco.

Em vez de perguntar apenas por que uma mulher não conseguiu fugir, talvez seja mais importante questionar por que ela precisou enfrentar tanto perigo antes de encontrar uma possibilidade segura de proteção.

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