Pesquisa da Unesp revela prejuízos auditivos em crianças com microcefalia causada pelo vírus Zika

Estudo aponta impactos na percepção dos sons da fala e na aquisição da linguagem, destacando desafios para políticas públicas de saúde

Um estudo conduzido pela professora Ana Cláudia Figueiredo Frizzo, do Departamento de Fonoaudiologia da Unesp em Marília, identificou prejuízos auditivos e de linguagem em crianças com a Síndrome Congênita do Zika (SCZ). Os resultados foram publicados na revista Brazilian Journal of Otorhinolaryngology e destacam os desafios para o desenvolvimento infantil e para as políticas públicas de saúde, segundo a pesquisadora.

Em 2015, o Brasil registrou um aumento anormal dos casos de microcefalia em recém-nascidos, associado à circulação do vírus Zika, confirmado por exames laboratoriais. Entre 2015 e 2016, cerca de 1.600 crianças nasceram com SCZ, que além da microcefalia, apresenta alterações motoras, visuais e auditivas, conforme dados do Ministério da Saúde.

O estudo avaliou 20 crianças na Região Nordeste do Brasil: dez com microcefalia devido à infecção pelo vírus Zika, com idade média de 25 meses, e dez crianças do grupo controle, com idade média de 29 meses. Para analisar a resposta cerebral aos sons da fala, foram apresentados estímulos sonoros naturais das sílabas “ba” e “da” a 70 dB, e a atividade cerebral foi registrada por meio de Potenciais Evocados Auditivos (PEA).

De acordo com Frizzo, “as consequências são graves em termos de desenvolvimento auditivo e linguístico. Há uma imaturidade e um padrão atípico dos componentes relacionados à discriminação auditiva. Então, a criança tem grandes riscos de não conseguir, ao longo do seu desenvolvimento, ter uma percepção auditiva adequada, porque a capacidade de perceber as pistas acústicas é muito prejudicada.” Além disso, as crianças com microcefalia apresentam prejuízo significativo nas habilidades linguísticas, pois a aquisição da linguagem depende do funcionamento adequado das estruturas cerebrais responsáveis por interpretar os sons da fala.

As funções receptivas, expressivas, auditivas e visuais relacionadas à linguagem foram analisadas a partir da Escala de Marcos do Desenvolvimento da Linguagem Inicial (ELM), e os dados foram processados com o software Smart Tools EP, que fornece análises precisas da resposta elétrica aos sons.

O estudo, de caráter observacional, abre caminhos para novas pesquisas que fortaleçam a intervenção precoce. “Considerando a fase crítica de desenvolvimento entre 0 e 24 meses, se conseguirmos direcionar uma estimulação auditiva e linguística, pode ser que os efeitos sejam menos negativos. Mas isso ainda é algo a investigar”, afirma a pesquisadora.

Os resultados também podem contribuir para a formulação de políticas públicas de saúde que definam protocolos para o atendimento das crianças com microcefalia, atualmente quase inexistentes.

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