Morte do cantor Netinho destaca linfoma não Hodgkin, câncer que pode retornar após tratamento

Especialista do IOP explica sinais de alerta, fatores que influenciam a evolução da doença e opções terapêuticas

A morte do cantor Netinho, aos 60 anos, nesta terça-feira (13), em Salvador, trouxe à atenção pública o linfoma não Hodgkin, um grupo de cânceres que afeta células do sistema imunológico. O artista havia sido diagnosticado em 2025 e estava internado após a recidiva da doença, que evoluiu com comprometimento renal e disfunção de múltiplos órgãos, segundo informações divulgadas pela imprensa.

O linfoma não Hodgkin não é uma única doença, mas reúne mais de 40 subtipos com características, velocidades de crescimento e respostas ao tratamento diferentes. Alguns subtipos apresentam evolução lenta e podem permanecer controlados por longos períodos, enquanto outros são mais agressivos e exigem tratamento imediato.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 12.560 novos casos por ano entre 2026 e 2028, sendo 6.580 em homens e 5.980 em mulheres. No Paraná, são estimados 890 novos diagnósticos anuais.

Para o médico Eduardo Cilião Munhoz, hematologista e oncologista clínico do IOP – Instituto de Oncologia do Paraná, identificar o subtipo é fundamental para compreender o comportamento da doença. “O linfoma não Hodgkin não tem um comportamento único. Existem formas de crescimento mais lento e outras que podem evoluir rapidamente. Por isso, precisamos conhecer o subtipo, a extensão da doença e as condições clínicas do paciente. Essas informações fazem toda a diferença na escolha da melhor estratégia terapêutica”, explica.

Sinais de alerta

Um dos sinais mais frequentes é o aumento dos linfonodos, popularmente conhecidos como gânglios, especialmente no pescoço, axilas e virilhas, muitas vezes sem dor. Febre persistente sem causa aparente, suor noturno intenso, cansaço excessivo e perda de peso involuntária também podem ocorrer. Dependendo da região afetada, a doença pode provocar sintomas respiratórios e desconforto abdominal.

Esses sinais não significam necessariamente câncer. Gânglios aumentados são comuns em processos infecciosos. A atenção deve aumentar quando a alteração persiste ou progride. “Um gânglio aumentado não significa automaticamente um linfoma. O que merece atenção é quando esse aumento persiste, cresce progressivamente ou vem acompanhado de febre sem explicação, suor noturno intenso e perda de peso. Nesses casos, é importante procurar avaliação médica”, orienta Cilião.

Fatores que influenciam a gravidade e recidiva

A evolução da doença depende do subtipo, da velocidade de crescimento, da extensão, dos órgãos envolvidos, da resposta ao tratamento e das condições gerais de saúde do paciente. “Agressividade não significa necessariamente pior resposta ao tratamento. Há linfomas agressivos que respondem bem à terapia e podem ser curáveis, enquanto algumas formas de crescimento lento podem permanecer controladas por anos, mas apresentar recorrências”, esclarece o especialista.

O retorno da doença, chamado recidiva, pode ocorrer quando células cancerígenas permanecem no organismo em níveis não detectáveis e voltam a se multiplicar. O risco varia conforme o subtipo, características biológicas e resposta ao tratamento inicial. “Mesmo após a remissão, o acompanhamento médico é fundamental. Uma recidiva não significa que as opções terapêuticas estejam esgotadas. Fazemos nova avaliação para entender o comportamento e definir tratamentos possíveis, que podem incluir quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, transplante de células-tronco hematopoéticas e, para casos específicos, terapias celulares como a CAR-T”, afirma Cilião.

Fatores de risco e diagnóstico

As causas exatas de muitos linfomas não Hodgkin são desconhecidas, mas o INCA aponta condições associadas a maior risco, como alterações do sistema imunológico, infecção pelo HIV, algumas doenças hereditárias e uso prolongado de medicamentos imunossupressores. Exposições ocupacionais a substâncias químicas como benzeno, agrotóxicos e solventes também podem estar associadas, embora a presença desses fatores não garanta o desenvolvimento da doença.

O diagnóstico envolve avaliação clínica, exames laboratoriais e de imagem, mas a confirmação geralmente depende de biópsia, essencial para determinar o subtipo e orientar o tratamento, que pode incluir quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, radioterapia ou acompanhamento clínico em casos de evolução lenta e sem sintomas relevantes.

“O conhecimento sobre os linfomas avançou muito nos últimos anos, permitindo tratamentos cada vez mais direcionados às características da doença. O mais importante é ter um diagnóstico preciso, acompanhamento especializado e acesso à estratégia terapêutica adequada”, conclui Eduardo Cilião Munhoz.

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