Ivy Menon transforma violência, desejo e absurdo em romance sobre duas mulheres que recusam a resignação
Em "Ratos e estrelas habitam o mesmo universo", autora paranaense de 68 anos acompanha Betina e Mariana em uma narrativa fragmentada sobre liberdade, indiferença, desigualdade e a urgência de viver
Em seu primeiro romance solo, “Ratos e estrelas habitam o mesmo universo”, publicado pela Editora Patuá, a escritora paranaense Ivy Menon, de 68 anos, apresenta uma narrativa influenciada pela filosofia de Albert Camus e pela literatura beat. O livro acompanha as personagens Betina e Mariana, duas jovens que se recusam à resignação diante da violência, das desigualdades e das convenções sociais, segundo o material de divulgação da obra.
O romance aborda temas como liberdade, desejo, violência doméstica, desigualdade de classe e a urgência de viver, estruturando-se de forma fragmentada e não linear. Lançado na última Bienal do Livro de São Paulo, o texto se organiza a partir de quatro eixos principais: o absurdo existencial, a violência estrutural e doméstica, o corpo e o desejo como territórios de liberdade, e a desigualdade social. A imagem que dá título ao livro simboliza essa divisão: os ratos representam os invisíveis, os meninos da rua, enquanto as estrelas remetem aos que ocupam posições privilegiadas.
De acordo com o material, a narrativa dialoga com a literatura beat, aproximando as personagens da tradição de figuras à margem que fazem da própria vida um gesto de recusa. Elementos como bares, sinuca, música, drogas, sexo e errância urbana permeiam a história, refletindo a urgência de capturar o presente e a desconfiança do aceito, conforme exemplificado por um trecho de Allen Ginsberg citado no livro.
A trajetória pessoal da autora também influencia a obra. Ivy Menon cresceu no interior do Paraná, tendo trabalhado como boia-fria, babá e empregada doméstica antes de atuar no jornalismo, na polícia, no Judiciário e na academia. Essas experiências, segundo ela, contribuíram para seu olhar sobre as estruturas de poder e as diferentes formas de ocupar o mundo.
Betina e Mariana tentam simplesmente “ser” em um mundo que insiste em classificá-las como “putas”, “loucas” ou “rebeldes sem causa”. Ivy Menon iniciou a escrita do romance há mais de quatro anos, trabalhando o texto durante cerca de três anos em um processo marcado por idas e vindas e pela necessidade de explorar os “porões” das personagens e os seus próprios. Ela define o romance como uma “carta de alforria”, em que precisou matar “Elisabeth” para que “Betina” emergisse.
O livro não oferece uma saída simples para o absurdo, mas propõe uma possibilidade de resistência: recusar o suicídio e escolher viver, mesmo diante da falta de respostas.
Sobre a autora
Ivy Menon nasceu em Cornélio Procópio (PR) e tem 68 anos. É bacharel em Direito, com pós-graduação em Filosofia e Teoria do Direito, além de jornalista e teóloga. Mora em Rio Negro-PR e escreve poesia, crônicas e contos. Entre suas obras publicadas estão os livros de poesia “Matemática das Algemas” (2021) e “Olhos de mandrágora” (2024), ambos pela Editora Patuá, o livro de crônicas “Asas de terra e sangue” (2021) e o romance “Mar fechado Mar aberto”, em parceria com Angela Zanirato.



