Terremotos na Venezuela: impacto emocional e saúde mental após 100 dias
Médicos Sem Fronteiras destaca desafios físicos e psicológicos enfrentados por moradores de Caracas e La Guaira
Passados cem dias desde os terremotos que abalaram a Venezuela em 24 de junho, a população das regiões de Caracas e La Guaira ainda convive com as consequências físicas e emocionais do desastre. Inicialmente focada em salvar vidas e tratar ferimentos, a resposta humanitária evoluiu para enfrentar o impacto prolongado da incerteza, do deslocamento e do sofrimento psicológico acumulado.
Relatos de sofrimento e resiliência
Elvira, de 76 anos, foi resgatada dos escombros de um prédio que desabou. Ela relata o trauma vivido e o apoio recebido: “Cheguei aqui em estado de crise. O que eu vivi não é fácil. Tudo me assustava, eu chorava muito, não dormia. A psicóloga me ajudou a superar o nervosismo. Quero sair do que estou passando. Quero voltar a ser quem eu era.”
Outro relato é o de Ashley Mayora, de 43 anos, que perdeu sua casa em Mare Abajo e precisou se separar da filha e do neto recém-nascido devido ao espaço limitado na barraca onde está abrigada. Ela também enfrenta problemas cardíacos e hipertensão agravados pelo estresse: “No dia 29 de julho, tive um pré-infarto. Só estou viva por eles.”
Impactos físicos do estresse prolongado
Milagritos Valderrama, coordenadora médica de Médicos Sem Fronteiras (MSF) para a resposta à emergência, destaca que o sofrimento emocional se manifesta em sintomas físicos como dores musculares, dores de cabeça, problemas gastrointestinais e insônia. “O que observamos hoje não é apenas o efeito de um evento traumático isolado, mas o impacto acumulado de viver durante meses em condições de incerteza.”
Até o momento, MSF realizou mais de 7 mil consultas médicas, com 21,7% relacionadas a dores musculares e ósseas, 21,4% a infecções respiratórias e 12,4% a doenças de pele. Além disso, foram acompanhados mais de 880 casos de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, asma e epilepsia, que tendem a se agravar em situações de estresse e deslocamento.
Desgaste emocional na linha de frente
Profissionais da saúde, socorristas e voluntários também enfrentam consequências emocionais significativas. Israel Lanza, socorrista da Defesa Civil, compartilha a dificuldade de lidar com perdas e o esgotamento: “Passei 15 dias seguidos sem voltar para casa. Chegou um momento em que eu esquecia meu próprio nome.”
Elvis Díaz, outro socorrista, relata o impacto do trabalho intenso e do luto acumulado: “No sexto dia, me sentia completamente esgotado. Pensei em pedir demissão. Quando tomava banho, chorava para não incomodar meus colegas.”
Resposta multidisciplinar e apoio psicossocial
Para atender às necessidades físicas e emocionais, MSF mantém seis clínicas móveis em Caracas e La Guaira, além de quatro locais exclusivos para atendimento em saúde mental. A organização já acompanhou 8.147 pessoas em atividades coletivas, consultas individuais e primeiros socorros psicológicos.
Além disso, equipes de promoção da saúde alcançaram mais de 16 mil pessoas com sessões educativas, e ações de saneamento básico garantiram o fornecimento de água potável e prevenção de surtos epidemiológicos nos assentamentos temporários.
Reconstrução e desafios da recuperação
Rosmari Colmenares, moradora de Playa Grande, La Guaira, expressa a dor da perda e da incerteza: “Até hoje, não sabemos nada sobre meu irmão. O prédio onde ele morava caiu; a esposa dele foi resgatada, mas ele e seu filho não foram encontrados.”
Apesar do luto, a solidariedade e o apoio mútuo nas comunidades são fundamentais para a recuperação, que vai além da reconstrução física e inclui a restauração da estabilidade emocional e social.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



