Talvez esteja na hora de construir o país novamente

Um país não existe apenas porque há uma fronteira desenhada no mapa, um governo instalado numa capital, uma moeda circulando e um hino que as crianças aprendem na escola. Tudo isso forma um Estado, mas uma nação exige uma construção um pouco mais difícil: milhões de pessoas que provavelmente nunca se encontrarão precisam acreditar que, apesar das diferenças entre elas, pertencem a alguma coisa em comum.

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes — e mais esquecidas — para compreender o momento político de boa parte do mundo.

Durante algum tempo, observamos o crescimento de extremismos religiosos em sociedades distantes e imaginamos que o problema estivesse naquela religião, naquela cultura ou naquele povo. Depois vieram o nacionalismo religioso, os líderes políticos transformados em figuras quase messiânicas, cidadãos que não reconhecem a autoridade do próprio Estado, grupos raciais reivindicando para si a condição de “verdadeiros habitantes” de um país, teorias conspiratórias que construíram realidades paralelas e uma deterioração tão profunda da confiança pública que até fatos verificáveis passaram a depender da identidade de quem os apresenta.

O problema, aparentemente, era maior.

Não era apenas religião. Não era apenas esquerda ou direita. Não era apenas internet. Não era sequer apenas política.

Era uma crise do “nós”.

Os Estados Unidos são hoje um dos exemplos mais interessantes desse fenômeno porque talvez nenhuma outra grande potência contemporânea consiga reunir tamanho poder econômico, militar e institucional enquanto enfrenta uma disputa tão intensa sobre o significado da própria identidade nacional.

É claro que existe uma identidade americana. Há uma Constituição, símbolos nacionais poderosos, uma história compartilhada, forças armadas, língua predominante, moeda, mercado interno e uma narrativa construída durante mais de dois séculos em torno de liberdade, independência e oportunidade.

Mas existe uma diferença importante entre possuir símbolos comuns e compartilhar uma interpretação minimamente compatível deles.

A palavra “liberdade”, por exemplo, pode significar coisas profundamente diferentes para dois americanos. Para um, liberdade é a proteção contra interferências do Estado. Para outro, é ter direitos civis garantidos pelo Estado. Para um, a Segunda Emenda representa uma barreira fundamental contra a tirania; para outro, a disponibilidade quase irrestrita de armas constitui precisamente uma ameaça à liberdade de viver em segurança. Um pode imaginar os Estados Unidos como uma nação essencialmente cristã; outro entende que a própria experiência americana depende da separação entre religião e governo.

As duas pessoas carregam a mesma bandeira e podem estar falando de países completamente diferentes.

Essa tensão está aparecendo também nos números. Em 2025, apenas 17% dos americanos disseram confiar no governo federal para fazer o que é certo sempre ou na maior parte do tempo, um dos menores níveis da série histórica acompanhada pelo Pew Research Center. Em abril de 2026, 66% dos republicanos ou simpatizantes republicanos e 65% dos democratas ou simpatizantes democratas disseram esperar que os Estados Unidos estejam ainda mais politicamente divididos em 2050.

É uma informação extraordinária porque esses grupos discordam sobre quase tudo, mas conseguem concordar sobre uma coisa: acham que continuarão cada vez mais separados.

E talvez seja exatamente aí que uma crise política comum começa a se transformar numa crise nacional.

O problema começa quando o adversário deixa de pertencer ao país

Democracias foram feitas para produzir conflito. Não há nada de anormal em uma sociedade discutir impostos, religião, aborto, armas, imigração, tamanho do Estado ou política econômica. Ao contrário: se essas divergências existem na sociedade, é preferível que apareçam na arena política.

O problema começa em outro lugar.

Ele começa quando a discussão deixa de ser sobre qual política deve governar o país e passa a ser sobre quem realmente pertence ao país.

É nesse ambiente que aparecem frases como “nós somos os verdadeiros americanos”, expressão encontrada com frequência em movimentos nacionalistas dos Estados Unidos. Ela parece inicialmente apenas uma demonstração de patriotismo, mas contém algo muito mais importante: se nós somos os verdadeiros americanos, quem são os outros?

Esse raciocínio pode assumir formas muito diferentes.

Há quem conclua que o país pertence prioritariamente a determinado grupo racial. Outros imaginam que uma nação somente pode ser legítima se estiver subordinada a determinada concepção religiosa. Os chamados “cidadãos soberanos” chegam ao extremo de construir teorias segundo as quais determinadas leis, tribunais ou autoridades sequer teriam jurisdição legítima sobre eles.

As ideias são diferentes, às vezes até incompatíveis entre si, mas existe uma estrutura comum: o indivíduo ou o grupo começa a reivindicar para si o direito de decidir quais partes da realidade institucional continuará reconhecendo.

Não é difícil perceber onde isso termina.

A eleição é legítima quando meu candidato vence.

O tribunal é legítimo quando decide conforme minha expectativa.

A imprensa é confiável quando publica aquilo que confirma minhas convicções.

A ciência é válida enquanto não contradiz aquilo em que já acredito.

A polícia merece autoridade quando age contra o grupo adversário.

A Constituição vale enquanto minha interpretação dela prevalece.

Em algum momento, o cidadão deixa de participar de uma sociedade compartilhada e passa a viver dentro de uma espécie de Estado particular imaginário.

Talvez por isso fenômenos aparentemente desconectados tenham começado a aparecer juntos: nacionalismo religioso, políticos tratados como figuras providenciais, movimentos supremacistas, teorias conspiratórias, recusa de autoridades sanitárias, suspeitas permanentes sobre eleições, interpretações jurídicas inventadas na internet e uma extraordinária disposição para acreditar que praticamente toda instituição foi capturada por alguma conspiração.

Não significa que todas essas pessoas pensem igual. Significa que aprenderam a utilizar uma ferramenta parecida: quando a realidade compartilhada me contraria, construo outra.

Uma nação precisa ser construída

Existe uma tentação de imaginar que países são acontecimentos naturais.

Não são.

Nações são construções históricas.

O Brasil é um excelente exemplo porque talvez hoje seja difícil perceber o tamanho do problema que existia originalmente. Um território gigantesco, distâncias quase incomunicáveis, populações indígenas diferentes entre si, milhões de africanos trazidos pela escravidão, elites regionais poderosas, ondas posteriores de imigração e culturas locais profundamente distintas não tinham nenhum motivo natural para produzir automaticamente uma identidade brasileira.

Essa identidade foi sendo construída.

E nem sempre de maneira bonita.

O Estado brasileiro utilizou escola, ensino de História, língua portuguesa, símbolos nacionais, imprensa, rádio e políticas de integração para produzir uma noção de pertencimento comum. Estudos sobre o ensino durante a Era Vargas mostram explicitamente que a construção e o fortalecimento da identidade nacional estavam entre os objetivos do currículo e dos livros didáticos, que enfatizavam a formação do povo brasileiro, a integridade territorial e a unidade cultural do país.

Também houve políticas nacionalizantes muito mais duras e hoje evidentemente questionáveis. Durante a Era Vargas, o Estado interveio inclusive no uso de línguas estrangeiras na imprensa e no rádio, numa tentativa deliberada de fortalecer uma língua e uma identidade nacionais comuns.

Não é necessário defender esses métodos — muitos foram autoritários — para reconhecer o fenômeno histórico: o Brasil não simplesmente apareceu brasileiro; foi sendo transformado em Brasil.

Depois vieram outras ferramentas muito mais poderosas de integração cultural.

O rádio fez alguém do interior do Paraná ouvir a mesma música que chegava ao Rio de Janeiro.

O futebol produziu símbolos nacionais capazes de atravessar classes sociais.

A televisão colocou milhões de brasileiros diante das mesmas notícias, novelas, partidas, propagandas e acontecimentos.

Migrações internas misturaram populações.

Estradas e cidades aproximaram regiões.

A escola continuou produzindo uma narrativa nacional.

Com todas as suas falhas, desigualdades e contradições, o resultado foi uma coisa extraordinariamente difícil de fabricar: um cidadão podia ser gaúcho, baiano, paraense, pernambucano ou paranaense e continuar entendendo essas identidades como maneiras diferentes de ser brasileiro.

Não era necessário escolher.

E talvez tenhamos parado de construir

Esse é o ponto que deveria nos preocupar.

Uma identidade nacional não é uma obra terminada que pode ser colocada numa vitrine e preservada indefinidamente. Cada geração precisa encontrar novas razões para acreditar nela.

Durante décadas, as instituições responsáveis pela construção dessa experiência comum foram enfraquecendo ou se fragmentando.

A televisão nacional perdeu o monopólio da atenção.

A imprensa tornou-se apenas uma fonte entre milhares.

A escola disputa espaço com redes sociais.

A religião tornou-se também um marcador político.

A própria política descobriu que mobilizar pessoas pelo medo e pela identidade costuma ser mais eficiente do que discutir orçamento público.

E os algoritmos descobriram algo ainda mais poderoso: conflito prende atenção.

Talvez tenhamos criado, sem perceber, uma máquina social que recebe pessoas diferentes e passa o dia inteiro ensinando a elas por que deveriam odiar umas às outras.

O resultado não aparece apenas numa eleição.

Aparece quando um brasileiro começa a dizer que outro brasileiro “não é brasileiro de verdade”.

Quando uma região começa a imaginar que sua história é incompatível com a história do restante do país.

Quando alguém transforma descendência europeia em argumento de superioridade cultural.

Quando religião passa a determinar quem seria moralmente legítimo para ocupar o Estado.

Quando um candidato deixa de ser candidato e passa a ser visto como instrumento de alguma missão divina.

Quando alguém considera que milhões de brasileiros que votaram no adversário não cometeram apenas um erro eleitoral, mas revelaram possuir algum defeito moral.

Nesse momento, começamos a reproduzir justamente a dinâmica que observamos nos Estados Unidos.

Não precisamos chegar ao mesmo lugar para reconhecer a estrada.

O Brasil não precisa pensar igual. Precisa continuar sendo Brasil.

Reconstruir uma identidade nacional não significa fabricar unanimidade, censurar divergências ou tentar retornar a alguma imagem romantizada do passado.

Muito pelo contrário.

Uma sociedade democrática deveria conseguir comportar diferenças muito maiores do que comportamos hoje.

O objetivo não é fazer brasileiros concordarem sobre tudo. É reconstruir algumas condições mínimas para que consigam discordar sem deixar de reconhecer a legitimidade da existência política uns dos outros.

Talvez seja necessário recuperar pelo menos cinco compromissos muito simples:

  1. Nenhum político é maior do que o país. Presidentes, governadores, ministros, deputados e líderes partidários são funcionários temporários de uma sociedade permanente. Transformá-los em salvadores produz exatamente o contrário da cidadania: produz seguidores.
  2. Nenhuma religião precisa controlar o Estado para existir plenamente. A liberdade religiosa somente permanece liberdade quando inclui a religião do outro e também o direito de não possuir religião alguma.
  3. Instituições devem ser criticadas sem que toda decisão contrária seja transformada em prova de ilegitimidade. Supremo, Congresso, Presidência, imprensa, universidades e demais instituições podem errar — às vezes gravemente — sem que a solução seja necessariamente destruí-las.
  4. Discordância política não pode ser convertida automaticamente em defeito moral. Uma sociedade de mais de 200 milhões de pessoas produzirá interesses, valores e prioridades diferentes. Democracia existe justamente para administrar esse desacordo.
  5. Precisamos voltar a produzir experiências compartilhadas. Educação, cultura, ciência, esporte, comunicação e espaços públicos precisam funcionar também como lugares de encontro, e não apenas como novas arenas para dividir pessoas em tribos.

Nada disso exige que alguém abandone suas convicções.

É perfeitamente possível ser conservador e brasileiro.

Progressista e brasileiro.

Evangélico e brasileiro.

Católico e brasileiro.

Ateu e brasileiro.

Gaúcho e brasileiro.

Nordestino e brasileiro.

Descendente de alemães, italianos, japoneses, africanos, indígenas, portugueses, poloneses ou de todos eles ao mesmo tempo — e brasileiro.

Talvez a força de uma nação esteja justamente aí.

Ela não elimina diferenças. Ela cria um nível de pertencimento acima delas.

O mito de um Sul que não existe

Isso também deveria servir de alerta para alguns movimentos regionais brasileiros que tentam fabricar identidades nacionais retrospectivas, como se determinadas regiões fossem sociedades culturalmente homogêneas que apenas por acidente acabaram dentro do Brasil.

O Sul é um exemplo particularmente evidente.

Existe uma narrativa confortável segundo a qual Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul seriam essencialmente extensões da imigração alemã e italiana. Basta olhar para a formação real desses estados para perceber quanto essa imagem depende de selecionar algumas partes da história e apagar outras.

Antes da chegada daqueles imigrantes já havia povos indígenas, populações de origem portuguesa, negros escravizados e livres, caboclos e diferentes comunidades formadas durante séculos de ocupação territorial. Depois vieram poloneses, ucranianos, japoneses, sírio-libaneses e migrantes de praticamente todas as regiões brasileiras.

O Sul não é alemão nem italiano.

É sul-brasileiro justamente porque virou outra coisa.

Curiosamente, essa mistura talvez seja uma demonstração muito melhor de identidade nacional do que qualquer discurso patriótico: pessoas com origens completamente distintas criaram uma sociedade que já não pertence integralmente a nenhuma das culturas que participaram de sua formação.

É isso que uma nação faz.

Ela não apenas reúne pessoas.

Produz algo que antes não existia.

Comunicação também constrói países

E é aqui que entra uma responsabilidade que raramente atribuímos ao nosso próprio trabalho.

Quem trabalha com comunicação ajuda todos os dias a decidir o que uma sociedade considera importante, quem ela considera confiável, quais conflitos merecem atenção e até como determinadas pessoas enxergam umas às outras.

Uma manchete pode informar sobre um adversário político ou transformá-lo em ameaça existencial.

Uma campanha pode defender uma proposta ou ensinar milhões de pessoas a odiar quem discorda dela.

Uma entrevista pode explicar uma divergência ou simplesmente procurar a frase mais ofensiva porque ela produzirá mais compartilhamentos.

Há incentivos econômicos para escolher sempre a segunda opção.

Raiva gera clique.

Conflito gera comentário.

Humilhação gera compartilhamento.

Medo mantém gente assistindo.

Talvez uma das maiores responsabilidades da comunicação contemporânea seja justamente resistir à tentação de explorar indefinidamente aquilo que destrói o próprio ambiente social do qual ela depende.

Isso não significa produzir comunicação dócil.

Às vezes o jornalismo precisa ser agressivo.

Às vezes uma instituição precisa ser exposta.

Às vezes um político precisa ser confrontado.

Às vezes existe corrupção, abuso, incompetência ou crime e nenhuma preocupação com “união nacional” deveria servir como desculpa para escondê-los.

Mas existe uma diferença enorme entre fiscalizar o poder e transformar permanentemente metade de uma sociedade em inimiga da outra metade.

Talvez tenhamos confundido essas coisas.

Alguém precisa começar

É fácil olhar para tudo isso e concluir que não há muito a fazer.

Uma agência de comunicação não vai reconstruir o Brasil.

Um jornalista não vai reconstruir o Brasil.

Um professor não vai reconstruir o Brasil.

Uma empresa não vai reconstruir o Brasil.

Uma família não vai reconstruir o Brasil.

Um artigo certamente não vai reconstruir o Brasil.

Mas talvez essa seja justamente a maneira errada de pensar.

Nações nunca foram construídas por um único grande gesto.

Foram construídas por milhões de pequenos atos repetidos durante décadas até que aquilo que era apenas uma ideia se tornasse parte da vida cotidiana.

Talvez a reconstrução também funcione assim.

Cada vez que recusamos transformar uma mentira em manchete apenas porque ela favorece nosso lado.

Cada vez que criticamos uma instituição sem desejar sua destruição.

Cada vez que recusamos transformar um político em messias.

Cada vez que reconhecemos que alguém pode votar de maneira completamente diferente de nós e ainda assim desejar um país melhor.

Cada vez que ensinamos uma criança que sua identidade não depende de odiar outra.

Cada vez que escolhemos explicar antes de rotular.

Parece pouco.

Provavelmente é pouco.

Mas sociedades são feitas exatamente dessas coisas pequenas acumuladas.

O Brasil não precisa descobrir uma identidade completamente nova. Talvez precise apenas voltar a reconhecer aquela ideia extraordinariamente simples que conseguiu construir ao longo de dois séculos: somos um país gigantesco formado por pessoas que não precisam ter a mesma origem, religião, sotaque, aparência, opinião política ou modo de vida para pertencer à mesma comunidade.

Podemos discutir duramente qual Brasil queremos.

Na verdade, devemos.

O que não podemos perder é a convicção de que, quando a discussão terminar, ainda será o nosso Brasil — e não o Brasil de quem venceu contra o de quem perdeu.

Talvez seja essa a tarefa que ficou para nossa geração.

Não inventar uma pátria perfeita.

Não recuperar um passado que nunca existiu.

Não obrigar ninguém a pensar igual.

Apenas reconstruir um espaço no qual ainda seja possível olhar para alguém completamente diferente e reconhecer:

ele também faz parte disso.

Porque um país começa a desaparecer muito antes de suas fronteiras mudarem.

Ele começa a desaparecer quando seus habitantes deixam de acreditar que ainda pertencem uns aos outros.

E, se foi possível construir essa ideia uma vez, não há motivo para imaginar que não possamos começar a construí-la novamente.

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