Medicamentos online: quem controla a recompra?
Avanço do Mercado Livre na venda de remédios com receita reacende debate sobre segurança, conveniência e relação com pacientes.
A venda de medicamentos com retenção de receita pelo Mercado Livre reacendeu uma disputa que vai muito além da escolha entre farmácia física e aplicativo. O ponto central, segundo o especialista em comportamento e estratégia Paulo Crepaldi, é quem conseguirá manter a relação com a pessoa que precisa comprar o mesmo tratamento todos os meses.
O anúncio foi feito em 24 de setembro de 2026. A operação começou pela farmácia própria que o marketplace mantém em São Paulo e inclui medicamentos como antibióticos e canetas de GLP-1. A empresa também informou que pretende integrar redes de farmácias à plataforma, com três até o fim de outubro e 20 parceiras na Grande São Paulo até dezembro, além de entregas em até 60 minutos.
O digital já faz parte da farmácia
Para Crepaldi, o comércio online de medicamentos não começa agora. Dados da IQVIA citados no material mostram que o varejo farmacêutico movimentou R$ 27,5 bilhões em canais digitais em 2025, alta de 51,9%. Pela primeira vez, o online ultrapassou 11% do faturamento do setor.
Os medicamentos análogos de GLP-1 aparecem como um dos motores desse crescimento. Segundo a mesma fonte, a classe de diabetes avançou 248,7% no digital em 2025. Dados divulgados pela Abrafarma apontam ainda a venda online de 2,34 milhões de canetas emagrecedoras entre janeiro e setembro daquele ano, somando R$ 3 bilhões.
“As redes não são o táxi parado no ponto esperando o Uber. Já são digitais. O que o Mercado Livre muda é outra coisa”, afirma Crepaldi.
Conveniência e privacidade
No marketplace, o medicamento pode entrar no mesmo carrinho de itens do dia a dia, disputar espaço com anúncios e fazer parte de uma compra com frete. Para consumidoras que fazem tratamentos contínuos, a praticidade pode pesar na decisão — especialmente quando a recompra acontece com frequência.
O especialista também chama atenção para categorias em que algumas pessoas preferem evitar o balcão da farmácia, como saúde sexual e tratamentos para dependência de nicotina. “Minha leitura, ainda não medida, é que o constrangimento sempre foi um custo invisível da farmácia física”, diz.
Segurança ainda é questão aberta
A expansão do canal, porém, não encerra as dúvidas. A Abrafarma afirmou que pretende questionar a Anvisa sobre a legalidade da operação. A agência revogou, em agosto, medidas que proibiam a venda de medicamentos em grandes plataformas, mas informou que isso não representava autorização automática e que uma regulamentação ainda seria editada.
Também há preocupação com anúncios irregulares e com a circulação de produtos fora dos canais autorizados. Para Crepaldi, fechar a porta regulada não elimina a demanda e pode empurrar parte dela para ambientes sem farmacêutico.
Na prática, a disputa deve envolver estoque, orientação profissional, privacidade e lembretes de recompra. “Quem mandar esse aviso fica com o paciente”, conclui o especialista.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



