Diagnóstico psiquiátrico: quando concordar não basta
Psiquiatra Nassir Ghaemi questiona a prioridade dada à confiabilidade no DSM e defende diagnósticos mais válidos e humanizados
Quando dois psiquiatras avaliam o mesmo paciente e chegam a diagnósticos diferentes, a divergência pode não estar apenas na avaliação dos profissionais, mas também nas próprias definições das doenças mentais. Essa é a provocação do psiquiatra Nassir Ghaemi, que destaca a diferença entre um diagnóstico ser confiável — ou seja, gerar concordância entre médicos — e ser válido, isto é, corresponder a uma condição clínica real.
Segundo Ghaemi, o modelo diagnóstico predominante na psiquiatria, especialmente o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), priorizou historicamente a confiabilidade em detrimento da validade científica das categorias. Isso resultou em um sistema que facilita a comunicação entre profissionais, mas que nem sempre garante que as categorias diagnósticas representem doenças distintas.
Concordância não é garantia de existência
Para ilustrar essa distinção, Ghaemi usa a analogia do unicórnio: é possível definir com precisão o que seria um unicórnio e fazer com que todos concordem com essa definição, mas isso não significa que o animal exista. “A coisa mais importante é a validade. Suas definições têm de estar certas. Depois a gente tenta torná-las consistentes — não o contrário”, afirma o psiquiatra.
Por outro lado, uma doença pode ser real mesmo quando há discordância entre profissionais sobre seu diagnóstico. Ele cita a apendicite como exemplo: cirurgiões podem divergir na avaliação, mas isso não põe em dúvida a existência da doença. Assim, confiabilidade e validade são propriedades independentes.
O papel do DSM e a expansão diagnóstica
Ghaemi destaca que, em 1980, o DSM-III apresentou 292 diagnósticos, enquanto os Research Diagnostic Criteria, baseados em dados de validade, reuniam cerca de 14 conceitos. Essa expansão, segundo ele, reflete uma mudança de foco: de questionar se uma definição é verdadeira para avaliar se ela é útil e aceita na prática clínica.
O resultado é um sistema que estabelece uma linguagem comum entre especialistas, mas que pode incluir categorias que não correspondem a entidades clínicas reais e distintas.
Implicações para o tratamento
Essa discussão tem impacto direto na prática clínica. Ghaemi questiona, por exemplo, o conceito de “depressão resistente ao tratamento”. Ele sugere que muitos pacientes classificados assim podem, na verdade, ter transtorno bipolar, inclusive em formas mais sutis, o que levaria a tratamentos inadequados, como a troca sucessiva de antidepressivos sem atacar a condição subjacente.
Além disso, ele destaca que cerca de dois terços dos pacientes não respondem aos antidepressivos padrão, o que, para ele, indica ineficácia do tratamento e não necessariamente resistência do paciente.
Outro ponto é a fragmentação diagnóstica: um paciente pode receber diagnósticos simultâneos de depressão maior, ansiedade generalizada e déficit de atenção, quando na verdade poderia apresentar um quadro relacionado ao temperamento ciclotímico. Isso pode resultar em tratamentos focados em sintomas isolados, em vez de abordar a condição como um todo.
Buscando validade científica sem perder o humanismo
Ghaemi defende uma psiquiatria baseada em métodos que combine investigação científica e compreensão da experiência subjetiva do paciente. Ele propõe quatro critérios para validar diagnósticos: especificidade dos sintomas, genética e história familiar, curso da doença e resposta ao tratamento ou marcadores biológicos.
Para ele, ser científico não significa reduzir todo sofrimento a mecanismos biológicos, mas sim buscar diagnósticos mais sólidos sem apagar a história, os significados e a singularidade de cada paciente. Essa abordagem busca superar a falsa oposição entre biologia e subjetividade, valorizando tanto a explicação causal quanto a compreensão significativa da experiência humana.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



