A geometria moral da raiva e a política sem romance
Uma leitura machadiana sobre polarização, indignação e os incentivos que moldam o comportamento de eleitores e candidatos
Em poucas semanas, teremos o resultado da eleição presidencial de 2026. A forte polarização e a concentração de intenção de votos nos dois candidatos com elevadas taxas de rejeição chamam a atenção. Pesquisas recentes de intenções de voto, como a da Genial Quaest, sugerem que uma parte expressiva do eleitorado afirma que sua opinião sobre seu candidato preferido não muda nem mesmo diante de escândalos envolvendo aliados, amigos e parentes de figuras importantes de nossa nada serena república.
Para entender esse padrão de blindagem, vale considerar o lugar da emoção que parece ter sequestrado a política contemporânea. Um estudo recente, objeto de matéria publicada na revista britânica The Economist no dia 30 de agosto de 2026, examinou 150 anos de discursos do Congresso nos Estados Unidos e milhões de mensagens nas redes sociais. A conclusão é a de que a comunicação política nunca esteve tão raivosa. Desde 2013, o número de declarações inflamadas pela raiva dentro do congresso norte-americano subiu 50%. A proporção de frases políticas raivosas de eleitores no X aumentou 35% no período de 2013 a 2025; nos comentários do Reddit, o crescimento foi na ordem de 46%. Entre os anos de 2016 e 2025, a proporção de filiados do partido republicano e do democrata que afirmam ter raiva do partido rival subiu 30 pontos percentuais. As postagens iradas de parlamentares, partidos políticos e eleitores recebem mais compartilhamentos e comentários do que as mensagens neutras.
A pesquisa também fez experimentos comportamentais para investigar o impacto da raiva nas opiniões políticas. A indução dessa emoção moral nos participantes mudou as suas preferências, tornando-os favoráveis a políticas protecionistas, restrições à entrada de imigrantes e programas de redistribuição de renda. Chamo essa regularidade empírica de geometria moral da raiva, uma arquitetura retórica por meio da qual cada partido, candidato ou representante se autoproclama a trilha reta da integridade pública ao mesmo tempo que empurra o rival para o caminho tortuoso da corrupção.
Fascinante é lembrar que Machado de Assis já tinha desvendado algo semelhante. No conto, A Sereníssima República, o naturalista Cônego Vargas organiza a sociedade das aranhas como uma república, cuja eleição se decide por sorteio de uma bola com o nome do candidato. O Partido Retilíneo se apresenta como a linha reta da honestidade, tomando seu oponente como expressão da curva da fraude; o Partido Curvilíneo, por sua vez, declara-se como a curva da humildade e refere-se ao rival como presunçoso e arrogante. Ambos acreditam que ocupam a posição de único guardião da virtude. Enquanto isso, as fraudes nos sorteios dos candidatos correm soltas. A cada escândalo, o formato dos “sacos-urnas” é alterado. Porém, os incentivos para o ilícito permanecem os mesmos. Na sátira, Machado ironiza: “o comentário da lei é a eterna malícia.” Qualquer semelhança com a república do Brasil atual pode ser mera coincidência.
A campanha eleitoral de 2026 parece reproduzir essa geometria moral. De um lado, a linha reta que se considera a única capaz de eliminar o problema de segurança pública do país e de promover a liberdade; de outro, a curva que tem a competência para curar a ferida da desigualdade social e garantir a democracia. A despeito dos quadrantes distintos que cada candidato ocupa no espectro ideológico, ambos fazem uso do enquadramento emocional. A estrutura retórica comum estimula o voto tático ou estratégico. Antes de tudo, o eleitor é instigado a votar contra o candidato responsável por sua indignação e que ameaça suas identidades e valores. O perigo é acreditar que qualquer integrante do “grupo do bem” imaginado merece um salvo-conduto moral, enquanto o indivíduo da turma adversária, “a do mal,” recebe sua sentença de condenação sem que seja necessária qualquer investigação. Tudo isso converge com o famoso provérbio: aos amigos, os favores; aos inimigos, a lei.
Essa complexa dinâmica nos remete a outro conto machadiano, O Segredo do Bonzo. Nele, o aventureiro português Fernão Mendes Pinto e seu companheiro médico conhecem a doutrina do bonzo Pomada, cuja premissa é a de que a virtude, o poder e o prestígio não precisam existir na realidade, já basta que eles estejam na opinião dos outros. No ecossistema das plataformas digitais e dos seus algoritmos, a perspectiva pomadista ganha escala e escopo. O eleitor-consumidor aceita e compartilha apenas o conteúdo que confirma que o seu lado é o detentor do bem e da justiça. A avaliação dos fatos é dispensável.
Os políticos aprendem rápido as regras desse jogo. Sabem que vários eleitores não gastam sua atenção para análise de projetos públicos. A Teoria da Escolha Pública ou “Política sem Romance” define o fenômeno como ignorância racional. O custo de se informar sobre as propostas de governo supera o benefício percebido, já que um voto sozinho não decide uma eleição. Além disso, servidores públicos e eleitores buscam otimizar seus próprios interesses.
Em Esaú e Jacó, Machado joga luz sobre os incentivos políticos e econômicos. Às vésperas da Proclamação da República, o comerciante Custódio hesita em mudar a placa da sua “Confeitaria do Império” com medo de ter as suas vidraças quebradas. Ele pede conselho ao vizinho, calcula os custos de reformar novamente o letreiro da loja e prefere adiar sua decisão. Como o sábio amigo resumiu: “o terror ia com a avareza.” No mesmo compasso da lógica dos incentivos, o ex-presidente da província Batista ajusta seu temperamento conservador para revelar suas “ideias liberais, libérrimas,” de olho na possibilidade de alguma nomeação no novo governo.
Moral da história: a raiva parece ser mesmo um item da caixa de ferramentas dos candidatos para capturar a atenção escassa do eleitorado. O sentimento de indignação pode até ajudar nas urnas. Porém, a coisa muda na hora de governar. A empreitada exige racionalidade, responsabilidade (fiscal, inclusive) e compromisso com o futuro. Caso contrário, seguiremos como as mães da república machadiana cujo destino é tecer e destecer as teias do saco da democracia à espera pela volta da Razão para ocupar, entre nós, o lugar que lhe cabe.
Por Roberta Muramatsu
professora doutora do Programa de Mestrado Profissional em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Pesquisadora do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica
Artigo de opinião



