Os Deuses do Olimpo Brasileiro

As redes sociais iluminam as relações de poder e ajudam a compreender a República

A rede social acendeu a luz. Durante muito tempo, boa parte das relações de poder no Brasil acontecia longe dos olhos da maioria da população. Política, grandes empresas, Judiciário, Ministério Público, imprensa, órgãos do Estado e poder econômico sempre se relacionaram. Isso não é necessariamente ilegal, tampouco uma particularidade brasileira. Sociedades complexas são formadas por instituições e pessoas que se relacionam o tempo todo.

O problema começa quando essas relações se tornam tão próximas, tão permanentes ou tão pouco transparentes que o cidadão já não consegue compreender onde termina o interesse público e começa o interesse de grupos, corporações ou indivíduos. Talvez isso também não seja novidade. A novidade é que agora estamos vendo.

As redes sociais mudaram profundamente o ambiente da informação. Durante décadas, poucos veículos decidiam aquilo que chegaria ao grande público e, em boa medida, como os acontecimentos seriam apresentados. Hoje, um documento, uma imagem, uma decisão judicial ou uma informação atravessa o país em minutos. Isso trouxe outro enorme problema: a desinformação. Mentiras também viajam em segundos, opiniões se confundem com fatos e os algoritmos criam suas próprias bolhas.

Mas há algo que não podemos ignorar: a luz entrou em lugares onde antes havia pouca luz. A Lava Jato foi um desses momentos. O caso Banco Master talvez seja outro. Não porque sejam episódios iguais — não são — nem porque caiba condenar previamente pessoas ou instituições. Mas porque crises dessa dimensão tornam excepcionalmente visíveis as conexões entre diferentes centros de poder.

É exatamente essa a ideia que propomos para a série que iniciamos: artigos e vídeos na rede social. E talvez estejamos desperdiçando uma enorme oportunidade se reduzirmos tudo a uma disputa entre direita e esquerda, mocinhos e bandidos, culpados e inocentes. Podemos fazer uma pergunta muito mais interessante: O que esses episódios nos ensinam sobre o funcionamento da República brasileira?

Na Grécia antiga, os deuses habitavam o Olimpo. Eram poderosos, relacionavam-se entre si e interferiam na vida daqueles que viviam lá embaixo. Na República brasileira também construímos nossos pequenos e grandes Olimpos. Alguns de seus habitantes precisam pedir votos. Outros não. Alguns controlam recursos. Outros fiscalizam. Alguns julgam. Outros informam. Alguns possuem a chave das portas pelas quais é preciso passar para chegar ao poder.

Todos são necessários em uma sociedade complexa. Mas nenhum deveria ser deus. Porque a essência de uma República é justamente o contrário: instituições fortes, pessoas substituíveis. Essa é a virada que está no coração da série.

Talvez, portanto, a crise que estamos vivendo possa servir para algo maior do que produzir indignação por algumas semanas. Pode nos ajudar a enxergar. E, depois de enxergar, perguntar: Quem controla o poder? Quem controla quem controla o poder? E quanto poder uma República deve permitir que alguém exerça sem precisar prestar contas à sociedade?

Talvez os deuses nunca tenham desaparecido. Talvez apenas tenhamos mudado seus nomes.

Esta reflexão nasce do 12º nó — O Estado e suas instituições — do livro 12 NÓS, do Instituto Destino Brasil. O livro digital está disponível gratuitamente no portal do Instituto. Leia. Discorde. Proponha.

*Ademar é presidente do Instituto Destino Brasil e ex-presidente da FENEP (Federação Nacional das Escolas Particulares).

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Por Ademar Batista Pereira

presidente do Instituto Destino Brasil e ex-presidente da FENEP (Federação Nacional das Escolas Particulares)

Artigo de opinião

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