A vacina da Covid foi feita em meses? A história que os negacionistas continuam contando errado

Tecnologias usadas nas vacinas contra o SARS-CoV-2 começaram a ser desenvolvidas décadas antes da pandemia e aproveitaram pesquisas com RNA mensageiro, SARS, MERS e a proteína Spike. O que aconteceu em 2020 foi uma aceleração sem precedentes de uma ciência que já existia.

“Como conseguiram fazer uma vacina em poucos meses se normalmente isso leva anos?”

A pergunta parece razoável. E, mais de seis anos depois do início da pandemia de Covid-19, continua aparecendo em vídeos, grupos de mensagens e discussões sobre vacinação como se constituísse, por si só, uma prova de que as vacinas foram improvisadas.

Há apenas um problema: ela parte de uma premissa errada.

A vacina específica contra o SARS-CoV-2 realmente foi desenvolvida em tempo recorde. Ninguém estava vacinando pessoas contra aquele vírus em 2019, até porque o SARS-CoV-2 ainda nem havia sido identificado.

Mas a ciência usada para produzir essas vacinas não começou em janeiro de 2020.

No caso das vacinas de RNA mensageiro, como as desenvolvidas por Pfizer/BioNTech e Moderna, estamos falando de uma história que atravessa décadas. No caso do antígeno escolhido para ensinar o sistema imunológico a reconhecer o coronavírus, a famosa proteína Spike, pesquisadores já vinham trabalhando com parentes muito próximos do SARS-CoV-2 havia anos.

Portanto, dizer simplesmente que “fizeram uma vacina em dez meses” é como dizer que um aplicativo foi criado em duas semanas ignorando que, antes dele, alguém precisou desenvolver computadores, sistemas operacionais, linguagens de programação, bancos de dados, servidores e toda a infraestrutura sobre a qual o programa foi construído.

O RNA mensageiro não apareceu com a Covid

Um dos equívocos mais persistentes é tratar as vacinas de RNA mensageiro como uma tecnologia inventada durante a pandemia.

Não foi.

Experimentos mostrando que moléculas de RNA poderiam entrar em células e fazê-las produzir proteínas remontam ao final dos anos 1980. Em 1990, pesquisadores já demonstravam a produção de proteínas após a administração de RNA mensageiro em animais.

O problema é que transformar essa ideia numa tecnologia médica utilizável era muito mais complicado.

O RNA é uma molécula relativamente frágil. Além disso, quando RNA produzido em laboratório era introduzido no organismo, ele podia provocar uma resposta inflamatória indesejada. Era necessário descobrir como protegê-lo, entregá-lo às células e fazer com que estas produzissem a proteína desejada sem desencadear uma reação exagerada.

Esses problemas consumiram anos de pesquisa.

Um dos avanços decisivos aconteceu em 2005, quando Katalin Karikó e Drew Weissman publicaram um trabalho mostrando que modificações em determinados componentes do RNA poderiam reduzir sua ativação inflamatória e melhorar sua utilização pelas células.

Não é uma interpretação posterior criada por fabricantes de vacina.

Em 2023, Karikó e Weissman receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina justamente pelas descobertas relacionadas às modificações de bases nucleosídicas que permitiram o desenvolvimento de vacinas eficazes de mRNA contra a Covid-19.

O trabalho considerado fundamental pelo Nobel havia sido publicado 15 anos antes da pandemia.

Nos anos seguintes vieram outras melhorias: purificação do RNA, alterações químicas adicionais, aumento da estabilidade e formas mais eficientes de levar essa molécula até as células.

Também foi necessário resolver outro problema fundamental: como transportar o RNA pelo organismo.

Entram aí as nanopartículas lipídicas, pequenas estruturas compostas por lipídios que envolvem e protegem o RNA e ajudam a entregá-lo às células.

Novamente: isso não foi inventado em 2020.

Uma revisão publicada pela Nature Biotechnology descreve uma longa cadeia de descobertas que começou ainda nos anos 1980 e atravessou décadas de pesquisa até chegar às vacinas utilizadas na pandemia.

Antes da Covid vieram SARS e MERS

Há ainda uma segunda história que costuma desaparecer quando se diz que a vacina “surgiu do nada”.

O SARS-CoV-2 pertence à família dos coronavírus.

E ele não foi o primeiro coronavírus perigoso enfrentado pela ciência moderna.

Em 2002 e 2003, o mundo enfrentou o surto de SARS, provocado pelo vírus que hoje chamamos de SARS-CoV-1.

Em 2012, surgiu outro: o MERS-CoV, responsável pela Síndrome Respiratória do Oriente Médio.

Os surtos estimularam pesquisas sobre como esses vírus entram nas células, quais partes deles poderiam ser utilizadas como alvo de vacinas e que tipo de resposta imunológica poderia neutralizá-los.

Foram desenvolvidos candidatos a vacina contra SARS e MERS. Alguns chegaram inclusive a estudos clínicos em seres humanos, embora nenhum tenha se transformado em uma vacina de uso amplo.

Isso aconteceu, em parte, porque o surto de SARS desapareceu e o MERS nunca atingiu uma transmissão global comparável à Covid-19. Sem milhões de pessoas adoecendo e sem um grande mercado para uma vacina, o ritmo e o financiamento das pesquisas diminuíram.

Mas o conhecimento produzido permaneceu.

E seria extremamente importante alguns anos depois.

A proteína que já estava na mira dos pesquisadores

Para entender o próximo passo, é preciso conhecer a proteína Spike.

Ela forma aquelas estruturas que parecem espinhos na superfície do coronavírus e tem papel fundamental na entrada do vírus nas células.

Pesquisadores que estudavam SARS, MERS e outros coronavírus já sabiam que a Spike era um alvo extremamente interessante para produzir uma resposta de anticorpos.

Mas existia uma dificuldade.

A proteína muda de formato durante o processo de entrada do vírus na célula. Para uma vacina, seria interessante mantê-la numa configuração específica, chamada de pré-fusão, na qual vários dos alvos importantes para anticorpos ficam adequadamente apresentados.

Em 2017, três anos antes das vacinas contra Covid-19, pesquisadores publicaram um estudo sobre a proteína Spike do MERS.

Eles descobriram que a substituição de dois aminoácidos por duas prolinas ajudava a “travar” a Spike nessa configuração.

A técnica ficou conhecida como 2P, por causa das duas prolinas.

O estudo não dizia respeito ao SARS-CoV-2. Esse vírus ainda nem havia sido descoberto.

Mas os pesquisadores estavam desenvolvendo uma estratégia que pudesse ser aplicada aos betacoronavírus de maneira mais ampla.

O artigo de 2017 descrevia explicitamente a técnica como uma estratégia para estabilizar proteínas Spike e servir como base para o desenvolvimento de vacinas contra coronavírus. O trabalho também testou estruturas relacionadas ao SARS-CoV.

Três anos depois, aquele conhecimento estava disponível quando surgiu um novo coronavírus.

Então chega janeiro de 2020

Em 10 de janeiro de 2020, a sequência genética do novo coronavírus foi disponibilizada.

Nesse momento, os pesquisadores não precisaram começar do zero.

Já conheciam coronavírus.

Já conheciam a Spike.

Já haviam desenvolvido formas de estabilizar proteínas desse tipo.

Já existiam plataformas de RNA mensageiro.

Já existiam modificações químicas capazes de tornar esse RNA mais adequado para uso médico.

Já existiam sistemas de nanopartículas lipídicas para transportá-lo.

Foi possível, portanto, pegar a sequência genética do novo vírus e adaptar uma plataforma que vinha sendo desenvolvida havia anos.

A revisão publicada pela Nature Reviews Drug Discovery relata que a sequência da vacina mRNA-1273, da Moderna, foi produzida em apenas dois dias após a disponibilização da sequência viral.

Parece inacreditavelmente rápido.

E foi.

Mas exatamente porque não era necessário inventar naquele momento tudo aquilo que havia tornado a vacina possível.

O primeiro participante do estudo clínico da Moderna recebeu a vacina em 16 de março de 2020, apenas 66 dias depois da publicação da sequência genética do vírus.

É uma façanha científica extraordinária.

Só não é uma façanha de 66 dias.

É o resultado de décadas de trabalho acumulado.

Uma linha do tempo ajuda a colocar “alguns meses” em perspectiva

  • Final dos anos 1980: pesquisadores demonstram que RNA mensageiro pode ser introduzido em células e usado para produzir proteínas.
  • 1990: experimentos mostram expressão de proteínas a partir de RNA introduzido diretamente em animais.
  • Anos 1990 e 2000: avançam pesquisas sobre mRNA, imunologia, formas de entrega e vacinas experimentais.
  • 2002–2003: surto de SARS acelera o estudo de coronavírus perigosos.
  • 2005: Karikó e Weissman publicam sua descoberta sobre modificações de nucleosídeos no RNA, trabalho que posteriormente ajudaria a viabilizar vacinas de mRNA.
  • 2012: surge o MERS-CoV e cresce novamente o investimento no desenvolvimento de vacinas contra coronavírus.
  • 2017: pesquisadores publicam a estratégia 2P para estabilizar a proteína Spike de coronavírus em sua configuração de pré-fusão.
  • Antes de 2020: vacinas experimentais de mRNA já haviam sido estudadas para câncer e doenças infecciosas; uma vacina de mRNA contra raiva já havia chegado a testes em humanos.
  • 10 de janeiro de 2020: é divulgada a sequência genética do SARS-CoV-2.
  • Março de 2020: começam testes humanos da vacina da Moderna.
  • Segundo semestre de 2020: grandes estudos de fase 3 são realizados com dezenas de milhares de voluntários.
  • Dezembro de 2020: Pfizer/BioNTech e Moderna recebem autorizações emergenciais nos Estados Unidos.

O que aconteceu em 2020 foi a parte final — e espetacularmente rápida — de uma história muito mais longa.

Mas os testes também foram feitos em poucos meses?

Aqui existe uma discussão mais interessante.

Tradicionalmente, o desenvolvimento de medicamentos e vacinas ocorre de forma bastante sequencial.

Uma empresa realiza uma etapa, analisa os dados, procura financiamento, decide se vale a pena continuar, inicia a fase seguinte, espera novamente, começa a ampliar a fábrica e assim por diante.

Esse modelo reduz o risco financeiro.

Durante a pandemia, aconteceu algo diferente.

Com governos investindo bilhões de dólares e uma emergência sanitária mundial em andamento, diversas etapas passaram a ocorrer em paralelo.

Empresas começaram a preparar capacidade industrial antes mesmo de saber se seus candidatos funcionariam. Estudos posteriores começaram a ser planejados enquanto etapas anteriores ainda estavam sendo concluídas. Autoridades regulatórias analisavam dados continuamente, em vez de esperar todo o processo terminar para começar a olhar os documentos.

Isso economizou meses — às vezes anos — de espera burocrática e financeira.

O risco não desapareceu.

Grande parte dele simplesmente deixou de ser risco de calendário e passou a ser risco financeiro: se a vacina fracassasse, doses fabricadas antecipadamente teriam de ser descartadas.

A própria FDA explicou posteriormente que houve sobreposição e redução dos intervalos entre as etapas, além do início antecipado da produção industrial.

E os testes não foram feitos em meia dúzia de pessoas

Outro detalhe frequentemente perdido nessa discussão é o tamanho dos estudos.

A autorização emergencial da Pfizer/BioNTech foi baseada em um estudo de fase 3 randomizado, controlado por placebo e com aproximadamente 44 mil participantes.

Na análise utilizada pela FDA, cerca de 38 mil participantes tinham uma mediana de aproximadamente dois meses de acompanhamento após a segunda dose.

O ensaio principal da Moderna envolveu pouco mais de 30 mil participantes, divididos entre vacina e placebo.

Isso não significa que, em dezembro de 2020, já se soubesse absolutamente tudo sobre essas vacinas.

E aqui existe uma distinção importante.

Questionar em 2020 não era necessariamente “negacionismo”

Uma pessoa poderia perfeitamente dizer, em dezembro de 2020:

“Quero saber o que acontecerá depois de anos de uso.”

Ou:

“Um estudo com 30 ou 40 mil pessoas pode não detectar eventos adversos extremamente raros.”

Isso é verdade.

Nenhum estudo clínico desse tamanho é capaz de revelar antecipadamente todo evento que ocorre uma vez a cada 100 mil, 500 mil ou um milhão de aplicações.

É justamente por isso que medicamentos e vacinas continuam sendo monitorados depois da autorização e por que informações de segurança podem mudar à medida que milhões de pessoas recebem um produto.

A própria documentação da FDA deixa claro que as autorizações emergenciais de 2020 trabalhavam com um período de acompanhamento muito menor do que aquele disponível posteriormente para as aprovações completas.

Era razoável discutir isso.

Era razoável exigir transparência.

Era razoável cobrar farmacêuticas, governos e autoridades sanitárias.

Era razoável discutir risco e benefício para diferentes faixas etárias conforme os dados fossem aparecendo.

O que não corresponde à história científica é outra afirmação:

“Inventaram uma tecnologia nova do zero e injetaram na população alguns meses depois.”

Isso simplesmente não aconteceu.

“Mas nenhuma vacina de mRNA tinha sido aprovada antes”

Também é verdade.

Pfizer/BioNTech e Moderna foram as primeiras vacinas de RNA mensageiro a alcançar utilização em massa e autorização regulatória para esse fim.

Mas “primeiro produto aprovado utilizando uma tecnologia” não significa “tecnologia inventada naquele ano”.

A aviação comercial não começou no dia em que o primeiro avião de passageiros recebeu autorização para transportar pessoas.

Antes disso houve protótipos, motores, materiais, testes, erros e décadas de engenharia.

Com o mRNA ocorreu algo semelhante.

Antes da Covid-19 já existiam trabalhos experimentais, estudos em animais, pesquisas com câncer, candidatos a vacina e ensaios clínicos.

A pandemia forneceu algo que praticamente nenhuma dessas pesquisas havia recebido simultaneamente: dinheiro em escala gigantesca, milhares de cientistas trabalhando no mesmo problema, dezenas de milhares de voluntários e uma circulação viral tão intensa que permitia descobrir rapidamente se uma vacina estava protegendo o grupo vacinado em comparação com o placebo.

A grande ironia

Talvez a parte mais curiosa dessa história seja que aquilo usado como argumento contra as vacinas — a velocidade — foi possível justamente porque pesquisadores passaram anos trabalhando em coisas que, na época, pareciam não ter aplicação imediata.

Pesquisas com RNA.

Pesquisas contra câncer.

Pesquisas sobre SARS.

Pesquisas sobre MERS.

Estudos estruturais de proteínas.

Nanopartículas lipídicas.

Imunologia básica.

Um trabalho sobre MERS publicado em 2017 pode parecer completamente distante de uma pessoa tomando uma vacina contra Covid-19 em 2021.

Não era.

A ciência frequentemente funciona assim.

Quando a emergência chega, não existe tempo para construir todo o conhecimento necessário desde o início.

A resposta rápida depende do conhecimento acumulado quando ninguém ainda sabia exatamente para que ele seria necessário.

Por isso, a frase “a vacina da Covid foi feita em meses” contém uma pequena parcela de verdade e produz uma conclusão completamente enganosa.

Sim, vacinas específicas contra o SARS-CoV-2 passaram do desenho à autorização em aproximadamente um ano.

Mas o mRNA havia sido estudado por décadas.

A modificação química decisiva que tornou as vacinas de mRNA muito mais viáveis havia sido publicada em 2005.

SARS e MERS já haviam colocado os coronavírus na mira dos pesquisadores.

A estratégia de estabilização da Spike utilizada depois contra o SARS-CoV-2 já havia sido publicada anos antes da pandemia.

Quando o vírus apareceu, a ciência não começou a corrida na linha de partida.

Ela já vinha correndo havia décadas.

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